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Por Sidnei Raimundo, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, e Tássia Biazon, da Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano

Por Jornal da USP Sol e mar. Essa é a principal motivação de muitas pessoas para viajar ao litoral. No Brasil, um país tropical, há oportunidades de lazer e contemplação por quase toda a zona costeira, um fenômeno que se tornou massivo, como em praias do Rio de Janeiro, Florianópolis e Pernambuco. Mas como se estabeleceu o turismo de massa no litoral, esse importante dinamizador da economia nacional?

Apesar dos deslocamentos humanos darem-se por diversos motivos desde as civilizações antigas até as mais recentes, no final do século 17 e início do século 19, surgiu um novo tipo de viajante, com influências de duas revoluções – a Industrial, que melhorou os meios de transportes, conectando lugares; e a Francesa, que preconizou um cidadão emancipado do absolutismo e da Igreja. Denominado de grand tourist, resultado de uma nova forma de encarar a vida moderna, nesse período aparece um viajante, oriundo da aristocracia e da burguesia europeia, que viajava por puro prazer e amor à cultura e, mais recentemente, à natureza.

As ciências modernas também contribuíram significativamente para a aproximação do ser humano com o oceano. Os pesquisadores da recém-criada oceanografia desvendavam mistérios, como os da mitologia nórdica e celta, e revelavam que o oceano era menos amedrontador do que se supunha. A medicina também induziu a sociedade a banhos terapêuticos, notadamente no mar – até então visto como local maligno e depositário dos excrementos da sociedade. No imaginário medieval, as praias eram locais considerados profanos, pois não existia mar no Jardim do Éden; ou amedrontadores, porque era também pela costa por onde chegavam os bárbaros invasores. Assim, no início da Era Moderna, surgiram as primeiras viagens turísticas modernamente entendidas.

O mar e o litoral passaram a ter, portanto, um poder de atração gigantesco das populações em seus momentos de tempo livre, em busca de lazer e recreação, prática de esportes náuticos, banhos, pesca amadora, entre outras atividades na busca por benefícios físicos e psicológicos. Ou seja, o ambiente marinho tornava-se um espaço para uma pessoa se recompor do cotidiano extenuante e um espaço de sociabilidade, de viver e desfrutar, de ver e ser visto.

Para atender a essa demanda, a produção dos espaços litorâneos seguiu um ritmo “industrial”, com rápidas transformações da paisagem natural e sociocultural preexistentes, como instalações de residências secundárias, balneários, hotéis, restaurantes e centros de atrações turísticas. A velocidade de transformação dessas regiões foi tão impactante que alguns destinos perdiam seu glamour e se mostravam saturados, como os municípios da Baixada Santista, no Estado de São Paulo. Além disso, enquanto essas regiões litorâneas eram estruturadas visando à satisfação do turista e à maximização dos lucros dos investidores, não havia preocupação com problemas ambientais, sociais e culturais, principalmente das populações anfitriãs.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a reconstrução de uma nova economia global, a forma de uso e ocupação do solo para finalidades de lazer e turismo atingiu seu ápice entre os anos 1950 e 1970. Nesse período, o turismo foi concebido como uma “indústria sem chaminé”, pois acreditava-se que ele não causava problemas como outras atividades econômicas, ligadas ao ramo industrial. O modelo denominado “turismo de massa” ou “turismo de sol e praia” dominou projetos turísticos e ganhou áreas em todos os continentes. Contudo, os impactos gerados por essa atividade foram intensos na zona costeira, e ainda são.

Com o crescimento desordenado do turismo, estabeleceu-se um fenômeno complexo, envolvendo relevantes alterações da paisagem. Assim, múltiplos problemas socioambientais são gerados pelo turismo, como o incremento do consumo de recursos naturais; aumento da produção de resíduos sólidos e efluentes líquidos; alteração de ecossistemas naturais; estímulo ao consumo de souvenirs produzidos a partir de elementos naturais escassos; perda de valores tradicionais; aumento do custo de vida, supervalorização dos bens imobiliários; perda da propriedade de terras, habitações e meios de produção por parte das populações locais; geração de fluxos migratórios; e adensamentos urbanos não planejados e favelização. Paradoxalmente, o turismo que tinha em seu mote o contato com paisagens diferenciadas, acabava por gerar a degradação destas. Conforme apontou o economista Jost Krippendorf no final dos anos 1970, “o turismo consome e devora as paisagens que ele mesmo constrói”.

O século 21 continua com o debate acalorado das questões sociais, culturais e ambientais do turismo de massa no litoral. As práticas de lazer e turismo, assim como as estruturas para elas projetadas, precisam repensar onde historicamente se apoiaram, quando não consideraram os limites da natureza ou as aspirações e as necessidades das populações anfitriãs. O turismo atual evoca a necessidade de se promover a “inclusão social” de todos os envolvidos com as atividades turísticas, assim como de contribuir para a conservação da natureza.

Quanto à inclusão social, deve-se preconizar a inserção econômica e a participação política e social de todos os envolvidos, notadamente os mais vulneráveis. É preciso entender a diversidade sociocultural para garantir o acesso aos recursos daqueles que sempre foram considerados como “excluídos” dos processos decisórios, os quais, dentro do escopo do turismo de massa, têm sido incorporados nas atividades como meros serviçais. Por outro lado, o turismo tem um papel importante na redução dos abismos socioeconômicos na medida em que garanta a geração de empregos mais justos, o que é fundamental para uma sociedade menos desigual.

Quanto à conservação dos ambientes costeiros, é preciso um planejamento criterioso para que as infraestruturas de lazer e turismo não ultrapassem a capacidade de resiliência dos ecossistemas naturais. Para tanto, já há um conjunto de técnicas oriundas de estudos de impacto ambiental para avaliar a viabilidade ambiental de empreendimentos turísticos. Com o foco nos turistas, deve-se pensar em atividades transformadoras, considerando a sensibilização e interpretação deles nos espaços litorâneos. Para isso também já há um conjunto de estratégias ligadas à interpretação do ambiente, natural ou construído. Tais atividades são fundamentais para favorecer uma tomada de consciência pelos turistas sobre os espaços litorâneos, transformando-os em cidadãos mais críticos e criativos.

Admitindo-se essas abordagens, as milhares de praias pelo mundo podem fortalecer o turismo como um fenômeno democrático, acessível e sob novas bases econômicas. A pandemia intensificou a importância da conexão com ambientes naturais, como a praia e o mar, mesmo em locais mais urbanizados, que auxiliam na busca por saúde e bem-estar, atividades esportivas, espiritualidade, aprendizado, observação da biodiversidade, descanso e diversão, entre outras motivações da vida contemporânea.

Assim, o turismo se destaca novamente, como ocorreu no passado, como prática sociocultural de uma sociedade que demanda menos jornadas de trabalho e mais tempo para o desfrute do oceano. Trata-se de uma necessidade e do direito ao lazer, já preconizado pela Constituição brasileira –, no qual as viagens ao litoral se ressignificam e se apresentam como fundamentais para uma melhor qualidade de vida das pessoas. E esse é um dos desafios da Década do Oceano: aproximar o oceano de toda a sociedade e promover atividades econômicas sustentáveis. Um caminho é fortalecer um turismo alinhado com as vocações, potencialidades e fragilidades do litoral.