Alexandre Antonelli, primeiro pesquisador do país a liderar a área científica do Kew Gardens de Londres, detalha à Agência FAPESP como foi o esforço de escanear 6,4 milhões de espécimes de plantas e revela que o megaprojeto britânico foi inspirado em uma iniciativa brasileira
Por Elton Alisson – Agência FAPESP | Quando assumiu a direção executiva de Ciência do Royal Botanic Gardens, em Kew (mais conhecido como Kew Gardens), em Londres, no início de 2019, o biólogo brasileiro Alexandre Antonelli recebeu uma missão monumental: digitalizar e abrir ao mundo um acervo de 400 anos de história natural da flora mundial. O desafio envolvia tornar acessível, de forma remota, uma coleção de aproximadamente 6,4 milhões de espécimes de plantas e mais de 1 milhão de fungos coletados em todos os cantos do planeta.
Primeiro brasileiro a ocupar a chefia científica do mais famoso complexo de jardins botânicos do mundo, Antonelli celebrou, no início de junho, a conclusão desse esforço – o maior projeto científico da história da instituição britânica, que mobilizou centenas de colaboradores e pesquisadores de diversos países, incluindo o Brasil.
Em entrevista à Agência FAPESP, concedida durante visita da delegação brasileira da FAPESP Week Londres à instituição inglesa, o cientista revelou que o megaprojeto britânico teve como grande inspiração uma iniciativa brasileira: o Reflora. Lançado em 2010 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) com o apoio da FAPESP no Estado de São Paulo, o Reflora foi pioneiro ao resgatar, por meio de imagens em alta resolução, espécimes da nossa flora depositados em herbários estrangeiros.
Na conversa a seguir, Antonelli discute o conceito de “repatriação digital”, o papel estratégico dos herbários locais na preservação do patrimônio botânico global e as frentes de colaboração do Kew Gardens com o Brasil em etnobotânica, restauração ecológica com inteligência artificial e bioeconomia de fungos.
Leia os principais trechos da entrevista:
Agência FAPESP – O Kew Gardens acaba de concluir esse grande projeto de digitalização. Quais foram as principais motivações para a iniciativa e o que já foi alcançado?
Alexandre Antonelli – Quando cheguei ao Kew, a digitalização já havia sido identificada como a maior prioridade científica da instituição. Havia uma preocupação com o fato de que pesquisadores e conservacionistas ao redor do mundo não tinham facilidade para consultar espécimes de suas regiões de origem. Isso era problemático. Outra preocupação era acelerar a ciência: hoje, para descrever uma nova espécie, é preciso viajar por vários herbários, abrir armários e realizar comparações, ou então solicitar empréstimos por correio e esperar meses até chegarem; um processo muito demorado. Queríamos agilizar isso para evitar a perda de biodiversidade e aumentar os resultados científicos, como a descrição de espécies e a realização de estudos em evolução e ecologia. Batalhamos bastante para conseguir o financiamento do governo britânico e realizamos um projeto intensivo de quatro anos. Envolvemos cerca de 150 pessoas aqui no Kew e mais de 1.500 colaboradores em outros países para a extração dos dados. Foi um sucesso; terminamos dentro do prazo e do orçamento. Ontem, recebemos a visita da ministra da Natureza do Reino Unido, Mary Creagh, para a digitalização da última exsicata [amostra de planta prensada, desidratada e fixada em cartolina, para preservação em museu].
Agência FAPESP – De que maneira o projeto brasileiro Reflora influenciou a iniciativa britânica?
Antonelli – O Reflora foi o primeiro projeto mundial de repatriação digital de coleções brasileiras depositadas no exterior e foi uma inspiração para nós. Fomos colaboradores importantes do projeto, conduzido em parceria com o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Agora, pretendemos digitalizar o restante de nossas coleções seguindo esse modelo.
Agência FAPESP – A repatriação digital se insere em um movimento global de repatriação cultural, que busca devolver artefatos históricos retirados durante o colonialismo. Como a instituição se posiciona frente a esse debate?
Antonelli – Existe um débito histórico. A exploração botânica foi uma ferramenta imperialista – o exemplo clássico é o desvio da borracha da Amazônia para o Sudeste Asiático. Quando assumi o cargo, repercutiu muito o fato de um brasileiro liderar uma instituição como o Kew. Isso traz a responsabilidade de democratizar e compartilhar esse conhecimento. Nunca recebemos pedidos de repatriação física e, pela lei britânica, isso seria complexo. No entanto, estamos sempre abertos a empréstimos de longo prazo e enviamos muitas exsicatas para pesquisadores do mundo todo que precisam do material físico, pois a digitalização permite fazer muitas coisas, mas não tudo.
Agência FAPESP – Historicamente, grande parte dos registros da flora brasileira foi parar em instituições europeias. Como esse cenário tem mudado?
Antonelli – A exploração botânica foi liderada pela Europa durante séculos, resultando na deposição de imensas coleções da América Latina aqui, nos Estados Unidos e em outras instituições do hemisfério Norte. O cenário tem mudado: estudos recentes indicam que a descrição de novas espécies ocorre, cada vez mais, próximo às suas regiões de origem, e que o material de referência principal [os chamados espécimes-tipo] está sendo mantido no país de ocorrência [onde os espécimes foram coletados].
Agência FAPESP – Na prática, como a digitalização atua como uma ferramenta de repatriação do conhecimento?
Antonelli – Com a digitalização, o objetivo não é necessariamente deslocar o objeto, mas democratizar o acesso. Hoje, qualquer pesquisador no Brasil ou em qualquer lugar pode acessar nossas coleções virtualmente com a mesma facilidade de uma compra em um e-commerce. O futuro da botânica é essa interconectividade: você encontra uma planta, acessa dados globais sobre ela, compreende sua distribuição e utiliza essas informações para tomadas de decisão – como avaliar, por exemplo, o impacto ambiental de uma nova rodovia.
Agência FAPESP – Qual é o papel dos herbários regionais para a ciência global e por que a estratégia de distribuir duplicatas de amostras continua sendo crucial?
Antonelli – Coleções locais, mesmo que pequenas, possuem uma importância desproporcional ao seu tamanho para a ciência global. Um dos desafios dos próximos anos é mobilizar recursos para digitalizar esses herbários menores, vitais para a rede mundial de biodiversidade. Recebemos cerca de 20 mil doações por ano por dois motivos: a busca pelo conhecimento dos especialistas aqui sediados e a mitigação de riscos. A história nos mostrou, com os incêndios no Museu Nacional [em 2018] e no Instituto Butantan [em 2010], que concentrar todo um acervo em um único local é um erro estratégico. O protocolo ideal é a criação de duplicatas; ao distribuir amostras entre diferentes instituições, reduzimos o risco de perda catastrófica do patrimônio. Além da segurança adicional, nosso herbário continua sendo um ponto de encontro essencial para pesquisadores do mundo todo.
Agência FAPESP – Qual o tamanho e a importância da coleção do Kew Gardens?
Antonelli – O herbário conta com aproximadamente 6,4 milhões de espécimes. Além das exsicatas, temos uma grande coleção de materiais preservados em álcool, como flores e frutos que perdem sua forma ao serem prensados; e o fungário, que digitalizamos também, com 1 milhão de espécimes. No sul da Inglaterra, mantemos o Millennium Seed Bank, o maior banco de sementes silvestres do mundo, com cerca de 2,5 bilhões de sementes de mais de 40 mil espécies. Nosso herbário não é o maior do mundo em número de exsicatas, mas é provavelmente o mais importante por possuir o maior número de “tipos” [exsicatas de referência, usadas como parâmetro para a descrição original da espécie]. Temos por volta de 300 mil tipos.
Agência FAPESP – Como funciona o modelo de financiamento de uma instituição desse porte?
Antonelli – Somos uma fundação sem fins lucrativos. Cerca de um terço do financiamento vem do governo, para funções básicas e manutenção do patrimônio mundial da Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura]. Outro terço vem de atividades do próprio jardim, como venda de ingressos e eventos [como o show de luzes no inverno, Christmas at Kew]. O restante vem de filantropia e bolsas de pesquisa. Ontem, por exemplo, recebi cerca de cem potenciais doadores para apresentar nosso trabalho. Nosso orçamento anual gira em torno de £ 150 milhões [mais de R$ 1 bilhão] e temos 1.500 funcionários. Além disso, contamos com mais de 750 cientistas trabalhando em mais de cem países.
Agência FAPESP – Quais são os atuais pilares da colaboração científica do Kew Gardens com o Brasil?
Antonelli – Identificamos quatro frentes. A primeira é a expansão dos dados do Reflora, conectando registros a usos sustentáveis, como o medicinal, e a integração deles a bancos de dados internacionais. A segunda é a etnobotânica: colaboramos com comunidades indígenas na Amazônia para caracterizar espécies utilizadas por elas e repatriar o conhecimento sobre objetos [derivados de plantas, como um cesto ou um cajado] dentro dos 100 mil artefatos vegetais que guardamos aqui, cujas técnicas de produção, em alguns casos, foram perdidas. A terceira é a conservação e restauração. O Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal [adotado em dezembro de 2022 em conferência das Nações Unidas] estabeleceu a meta de proteção e restauração de 30% do planeta; o Brasil tem áreas protegidas, mas há lacunas na proteção de espécies ameaçadas em seus hábitats originais. Auxiliamos com dados de mapeamento e ferramentas tecnológicas. Em restauração, colaboramos na Mata Atlântica com pesquisadores como Pedro Brancalion [da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo] e Bernardo Strassburg [do Instituto Internacional para Sustentabilidade], usando sensoriamento remoto e inteligência artificial. Lidero um projeto-piloto de corredor ecológico no Rio de Janeiro que utiliza essas tecnologias para priorizar áreas de restauração, capturar carbono e entender como a biodiversidade se recupera localmente. A quarta é a exploração de fungos brasileiros, sua diversidade de espécies, moléculas e propriedades. Isso é algo com potencial para fortalecer a bioeconomia do país.
Agência FAPESP – Em que estágio se encontra esse projeto-piloto de restauração na Mata Atlântica?
Antonelli – Estamos em fase experimental, desenvolvendo metodologias em 500 hectares para, depois, aumentar a escala com produtos ‘investíveis’. O projeto envolve um mosaico de terras privadas, municipais e estaduais, com usos distintos. Trabalhamos com comunidades locais para entender o modelo mais interessante de restauração, que traga benefícios socioeconômicos. Trabalhei por três anos de forma voluntária no International Advisory Panel on Biodiversity Credits [iniciativa global lançada em 2023, sob a liderança da França e do Reino Unido, com o objetivo de estruturar o mercado de créditos de biodiversidade], e o Ministério do Meio Ambiente do Brasil tem demonstrado muito interesse nisso. Discutimos recentemente, em um workshop, a ideia de créditos de biodiversidade de alta integridade. O tema deve ser apresentado na próxima COP de Biodiversidade [conferência bianual da Convenção sobre Diversidade Biológica, promovida pelas Nações Unidas, que reúne líderes mundiais para discutir regras e metas de proteção da natureza], na Armênia. Buscamos formas inovadoras de financiamento para preencher a grande lacuna econômica global que existe na conservação e restauração.
Agência FAPESP – Paralelamente ao Kew, o senhor mantém uma fundação pessoal de conservação no Brasil. Qual é o objetivo dessa iniciativa?
Antonelli – Estabeleci uma fundação sem fins lucrativos com sede em Macaé de Cima (RJ), chamada Fundação Antonelli para a Pesquisa e Conservação da Biodiversidade. Lideramos uma iniciativa chamada ARAÇÁ [Atlantic Forest Research And Conservation Alliance] e construímos uma estação de pesquisa aberta a pesquisadores e estudantes, onde coordenamos esforços de monitoramento, estudos ecológicos e a descrição de novas espécies. Não é um trabalho institucional do Kew, embora envolva pesquisadores daqui; é um projeto pessoal de atuação local e parcerias nacionais e internacionais, incluindo vários colaboradores no Estado de São Paulo.
Agência FAPESP – Como tem sido o diálogo da comunidade científica com os tomadores de decisão política sobre a perda de biodiversidade?
Antonelli – Temos um contato excelente com o governo britânico, ao mesmo tempo que mantemos nossa independência acadêmica. O diálogo com políticos é constante. Como em muitos outros países, enfrentamos desafios econômicos e orçamentários, competindo com áreas como saúde e educação. Internacionalmente, temos ótimas colaborações com o Brasil e participo ativamente de COPs de biodiversidade e do clima. Sou um dos autores principais do próximo relatório global sobre a biodiversidade da IPBES [Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos – entidade criada em 2012 para sistematizar o conhecimento científico acumulado sobre biodiversidade e subsidiar decisões políticas em âmbito internacional]. A perda de biodiversidade continua sendo um desafio grave, e nosso trabalho é traduzir a ciência para que ela seja aplicada na prática, independentemente do cenário político global.
Agência FAPESP – Há quem avalie ser mais difícil sensibilizar a opinião pública sobre a perda de biodiversidade do que sobre as mudanças climáticas, por ser um problema menos perceptível no dia a dia das pessoas. Esta também é sua visão?
Antonelli – De fato, isso faz sentido, mas há outro lado. As mudanças climáticas são dramáticas, mas as ações de mitigação demoram décadas para apresentar resultados notáveis para as pessoas. Já a conservação da biodiversidade permite resultados rápidos e visíveis em nível individual – como cultivar plantas que atraem polinizadores no próprio quintal. Nesse sentido, é relativamente fácil conectar as pessoas com a importância de preservar a biodiversidade, pois elas possuem uma ligação pessoal com isso. Somos uma instituição científica, mas aproveitamos a oportunidade de inspirar as pessoas pela beleza das coleções e pela experiência de visitar nossos jardins, reforçando a importância de cuidar do meio ambiente.
Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fapesp, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.