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Criado em 2016 no município mato-grossense de Chapada dos Guimarães, o Santuário de Elefantes Brasil (SEB) resgata e reabilita animais traumatizados após anos de maus-tratos e exploração em circos e zoológicos

Por André Aram – Mongabay | Em abril do ano 2000, o pequeno José Miguel dos Santos Fonseca, de apenas seis anos, foi morto por leões do Circo Vostok, durante um ciclo de eventos em Jaboatão dos Guararapes, município que integra a Região Metropolitana de Recife.

A criança foi atacada durante um intervalo das apresentações, enquanto caminhava ao lado de um túnel gradeado que ligava a jaula dos felinos ao picadeiro. O espaço de 10 centímetros entre as barras de ferro foi suficiente para que o ataque ocorresse; horas depois, quatro dos cinco leões envolvidos no episódio haviam sido mortos a tiro pela Polícia Militar.

O acidente gerou uma onda de comoção em todo o Brasil. Ao mesmo tempo, reacendeu debates sobre as condições precárias e exploratórias a que os animais eram submetidos no mundo do entretenimento. Pouco depois da tragédia, um projeto de lei tornou Pernambuco o primeiro estado do país a proibir o uso de animais em eventos circenses.

Algum tempo depois, outros estados se juntariam à causa — o que, à primeira vista, apontava um caminho de avanço sem qualquer ressalva. No entanto, as proibições criaram um problema residual: sem espaço nos circos, muitos animais seriam largados à própria sorte. A situação se tornou especialmente delicada para animais de grande porte, como os elefantes, que são longevos e necessitam de amplos habitats artificiais.

Para responder a uma parte dos surtos de abandono que se sucederam após as proibições, especialistas e membros da sociedade civil se uniram para criar o Santuário de Elefantes Brasil (SEB). Fundado em 2016 e sediado no município de Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, o projeto é pioneiro na América Latina e também resgata espécies de zoológicos.

A iniciativa busca criar espaços naturais e oferecer cuidados especializados aos elefantes, ramificando-se a partir da estrutura criada por uma ampla rede global de apoio à fauna em situação de risco — como a ElephantVoices e o Global Sanctuary for Elephants.

O trabalho dessas duas organizações levaria Scott Blais, cofundador do Global Sanctuary, a lançar o SEB no coração do Centro-Oeste brasileiro. Nascido nos Estados Unidos, onde fundou o maior santuário de elefantes da América do Norte, no estado do Tennessee, ele se mudou para o Brasil para cuidar de seu mais recente projeto em terras mato-grossenses.

Imagem aérea do Santuário de Elefantes Brasil, no Mato Grosso | Foto: SEB

“Nossa missão é proteger, resgatar e proporcionar um santuário aos animais. Dar estímulos físicos aos elefantes e propiciar um ambiente socialmente dinâmico, onde possam expressar seus comportamentos naturais e se recuperar dos anos de cativeiro”, disse Blais à Mongabay.

A escolha do local não veio à toa: para os especialistas, Chapada dos Guimarães conta com a vegetação, o clima e o relevo ideais. Segundo Daniel Moura, biólogo e diretor do SEB, as características do Cerrado mato-grossense se assemelham ao ambiente onde vivem os elefantes africanos e asiáticos, o que facilita a aclimatação e adaptação deles à nova casa — localizada em uma área privada de mais de 1.200 hectares.

Atualmente, o santuário brasileiro abriga cinco elefantes fêmeas de diferentes idades: Bambi, Guillermina, Maia, Mara e Rana. Todas foram resgatadas em condições de extrema debilidade após anos de confinamento em circos ou zoológicos. De acordo com o Global Sanctuary, há 35 elefantes cativos no Brasil: 18 vivem em instalações zoológicas “predominantemente precárias”, enquanto outros 17 estão em circos, sendo forçados a “uma vida remota e a condições de severo confinamento”.

Em toda a América do Sul, estima-se que pelo menos 50 animais vivam em cativeiro.

Moura explica que os efeitos são nocivos e duradouros quando há abuso e negligência. “Quando restringidos por correntes, confinamento extremo, dieta insuficiente e isolamento de grupos sociais, os elefantes frequentemente apresentam complicações severas de saúde, desenvolvendo tuberculose e doenças psicológicas — como comportamentos agressivos, automutilação e [o próprio] isolamento”, disse.

Elefantes caminham por uma área gramada do Santuário de Elefantes Brasil | Foto: SEB/divulgação

O papel dos santuários e a questão dos zoológicos

A Mongabay consultou biólogos sobre as diferenças entre zoológicos e santuários no Brasil. Igor Morais, mestre em Zoologia pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), em Ilhéus (BA), explicou que o modelo se refere a instituições que “abrigam espécies resgatadas de circos, laboratórios, zoológicos ruins, além do resgate de animais híbridos”.

A hibridização, por si só, pode acarretar diversos problemas. O quadro resulta do cruzamento entre espécies divergentes, a partir de condições de procriação associadas à intervenção humana, a alterações de habitat ou até mesmo aos efeitos das mudanças climáticas. Segundo Morais, esses casos podem causar infertilidade e alterações no perfil genético, ocorrendo tanto em propriedades privadas quanto em zoológicos desqualificados.

“É aí que entram os santuários: eles fornecem abrigo e condições de vida adequadas para esses animais”, disse.

Não há um número oficial que contabilize todos os santuários de fauna no Brasil, uma vez que muitas pequenas iniciativas atuam de forma independente. No entanto, existem diferentes projetos consolidados e registrados pelos biomas do país — como o Projeto Mucky, que reabilita primatas em Itu (SP), onde predominam áreas de Mata Atlântica.

Morais também evita generalizações ao falar dos zoológicos, indicando que o conceito sofreu alterações ao longo do tempo. “É equivocado considerar que todos os zoológicos sejam iguais. Existem diferentes filosofias de trabalho — alguns pesquisadores listam até oito concepções distintas”, disse. Os mais modernos, segundo ele, buscam acolher animais por meio de programas de conservação, mas ainda são “extremamente raros no Brasil”.

“A grande maioria dos zoológicos brasileiros mantém a concepção surgida no final do século 18: apenas exibir animais selvagens ao público, [expondo] ‘coisas exóticas’ que as pessoas não veem no dia a dia. Muitos têm a ‘modernidade’ apenas no discurso.”

De acordo com dados de 2016 do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), mais de 70 zoológicos brasileiros, de um total de 111, funcionavam em condições inadequadas.

Um chimpanzé-comum (Pan troglodytes) no Jardim Zoológico de Curitiba (PR) | Foto: via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Segundo Morais, até mesmo alguns santuários devem ser observados com atenção, estando igualmente sujeitos a críticas e à revisão de seus métodos, quando necessário. “Há, por exemplo, santuários que fornecem dietas equivocadas aos animais. É importante ressaltar: não é o nome — zoológico, bioparque, ecoparque ou santuário — que define se a instituição maneja os animais adequadamente. O que define são as práticas adotadas.”

Desde a sua criação, o SEB já resgatou nove elefantes, incluindo as cinco fêmeas que vivem na propriedade atualmente. Todos os mamíferos vieram da Ásia e, segundo seus criadores, possuem personalidades próprias e bem diferentes.

Por esses motivos, o processo de reabilitação do elefante traumatizado — uma tarefa naturalmente árdua — também se torna uma missão individual. Após chegarem ao santuário por meio de doações ou resgates, passam por exames minuciosos e, se necessário, são submetidos a tratamentos de suporte específicos.

Impasse e resolução

Em 2025, o SEB enfrentou um de seus momentos mais delicados: a morte dos elefantes Pupy, de 35 anos, e Kenya, de 44 anos, em um intervalo de dois meses. Enquanto o primeiro animal morreu de forma repentina, dias após um quadro gastrointestinal, o segundo padeceu pouco depois de receber um diagnóstico de problemas respiratórios e articulares. A entidade se pronunciou por meio de publicação nas redes sociais e divulgou informações preliminares sobre as necrópsias.

O caso chamou a atenção do Ibama, que iniciou uma investigação no último mês de dezembro. Em reportagens, no entanto, o órgão afirmou que o santuário dispõe de estruturas adequadas e de profissionais habilitados, além de licenciamento concedido pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Mato Grosso (Sema-MT).

No início de janeiro, em resposta à ação do Ibama, a Sema suspendeu a autorização para o ingresso de novos elefantes ao santuário até a conclusão das investigações. A medida, de caráter cautelar, não alterou a situação dos animais que já vivem no SEB. O órgão estadual também reiterou que o local dispõe das devidas certificações ambientais de funcionamento.

Em nota, o santuário criticou o surgimento de “alegações falsas e negativas”, em especial nas redes sociais, e disse que a Sema tomou uma “decisão apressada”. “A verdade é que nenhuma das elefantas que chegaram ao SEB vindas de zoológicos no Brasil havia recebido cuidados médicos adequados antes da transferência”, disseram.

O SEB declarou, ainda, que acolhe investigações e fiscalizações rigorosas “com seriedade” e que “essas análises ajudarão a evidenciar a negligência prolongada que muitos desses elefantes sofreram antes de chegar ao santuário”.

A licença para a recepção de novos elefantes só seria restabelecida semanas depois, conforme comunicado pelo SEB em 16 de fevereiro. Segundo a organização, a decisão “reforça a capacidade técnica do nosso trabalho e valida a transparência e a ética que orientam, diariamente, todas as nossas práticas e procedimentos”. O Ibama, por sua vez, prometeu novas vistorias.

Animais se alimentando próximos a uma barreira de proteção do Santuário de Elefantes Brasil | Foto: SEB/divulgação

Em busca de um futuro melhor para os elefantes

Em função das marcas profundas que o cativeiro e os maus-tratos deixam nos animais, o espaço no Mato Grosso não está aberto ao público, apesar de seu tamanho.

“A visitação foi bastante discutida entre nós. Há muita recuperação emocional que precisa acontecer. Nós teremos elefantes com grandes inseguranças e problemas de confiança. O fato de haver pessoas que os elefantes não conhecem pode ser um problema para alguns deles”, diz o SEB em seu site oficial. “Eles não estão mais em exposição e nem precisam se apresentar para um público.”

Ainda segundo a entidade, devolvê-los a seus habitats naturais também não é algo viável no momento — diante das limitações físicas, sociais e emocionais geradas pelo cativeiro. “Nós não salvaremos a espécie ao reintroduzir elefantes em cativeiro; precisamos preservar espaços selvagens e proteger populações selvagens se quisermos compartilhar o mundo com elefantes no futuro.”

Uma vez integrados ao santuário, os animais contam com o trabalho em tempo integral de uma equipe de veterinários, biólogos e tratadores. Eles explicam que a manada tem o hábito de explorar o habitat, caminhando quase 20 horas por dia.

Os elefantes também consomem um cardápio variado: capim nativo, folhas, galhos, raízes, frutas e até flores. “A massa vegetal média ingerida por dia gira em torno de 150 kg ou mais”, disse Ronis da Silveira, biólogo e professor titular na Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Segundo o especialista, quando criados livres, os elefantes têm “vida longa, maturidade tardia, prole reduzida, capacidade cerebral elevada e cuidado parental acentuado”. “O comando de uma manada é tipicamente matriarcal, na qual uma fêmea mais experiente, maior e mais idosa conduz o grupo”, disse à Mongabay.

Um dos elefantes do SEB usa a tromba para se molhar | Foto: SEB

Atualmente, considerando apenas a América do Sul, Bolívia, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru já aprovaram leis nacionais para proibir o uso de animais em apresentações públicas. Até o momento, o Brasil não conta com uma legislação federal que vete o uso deles em circos — ainda que a prática já encontre proibição em 12 estados.

O projeto de lei mais recente sobre o tema, o PL 174/2023, busca impedir a utilização de animais para “atividades de entretenimento, de malabarismo e espetáculos similares”, estendendo-se a eventos online e a práticas divulgadas em plataformas digitais. A medida, porém, segue em análise e não tem data para avançar na Câmara dos Deputados.

Moura, do SEB, lamentou a falta de avanços legislativos em nível nacional e disse torcer por novas alternativas de conservação. “É preciso que os interesses dos animais venham antes do interesse dos seres humanos, considerando suas necessidades individuais e coletivas — além da ampliação do número de santuários e de Centros de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres [Cetras] em todo o Brasil.”

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Este texto foi originalmente publicado pelo Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.


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