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Estudo dos textos bíblicos é feito a partir da abordagem da crítica literária, olhando para as obras como literatura produzida em língua hebraica e editada ao longo de séculos

A maioria das pessoas aprendeu sobre os textos bíblicos através de uma interpretação religiosa, judaico-cristã. Mas quantas realmente leram uma história como a de Adão e Eva como literatura, com todas as nuances de um texto literário? É esse o objetivo de um grupo de pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, coordenado pela professora Suzana Chwarts, que se propõe a estudar a figura da mulher e do feminino nas Bíblias hebraica, cristã e na Cabala a partir da leitura desses escritos como texto literário.

Mas como estudar cientificamente textos sagrados? A ideia do grupo não é dessacralizar os escritos, pois isso seria alterar a sua essência, visto que não foram compostos como textos seculares, mas sim sagrados.

“Uma vez no âmbito da investigação acadêmica, temos que descartar alguns dos critérios da teologia e da religião: “Isso é verdade? Isso é fé?”. E aplicar aos textos critérios científicos, como o princípio da dúvida e a prática do livre questionamento. Podemos e devemos questionar o texto e formatar, a partir dessa liberdade, um comentário crítico cujo objetivo é elucidar, iluminar”, explica ao Jornal da USP a professora Suzana Chwarts, professora de Estudos Interdisciplinares da Bíblia Hebraica no Departamento de Letras Orientais da FFLCH e diretora do Centro de Estudos Judaicos da USP.

A pesquisadora reforça também que não cabe a ela ou ao grupo colocar em dúvida nenhuma tradição religiosa — porque todas são lícitas. Segundo ela, a grande chave para analisar essas escrituras é a crítica literária: ler o texto como qualquer outro da literatura e fazer uma leitura desapaixonada: há um narrador, vários personagens, verbos usados para denotar as ações, a narrativa toma um determinado curso, etc. (leia ao final deste texto a história do Éden, a partir de uma leitura no hebraico original).

Os pesquisadores se pautam pela liberdade de interrogar e questionar o texto bíblico e pelo objetivo de formar um comentário crítico-acadêmico e, portanto, interdisciplinar sobre esses textos e tudo que está contido neles: o contexto social, político, histórico, os postulados de fé, as narrativas, todos os aspectos literários, a recepção e o impacto deles. 

Bíblia

Bíblia hebraicaé uma antologia de gêneros diversos e diferentes. Foi editada e reeditada inúmeras vezes durante, pelo menos, nove séculos. São livros que falam de tradições orais, narrativas, leis, provérbios, poemas, discursos de reis e de profetas, fábulas e todo tipo de gênero literário, ordenados segundo critérios canônicos. Porém, cada livro traz suas características autorais e de linguística.

De acordo com a professora Suzana, “é preciso apreender nessa pluralidade as várias visões de mundo que têm expressão na Bíblia hebraica. O que lemos no Deuteronômio está diferente no Êxodo Levítico, que está diferente em Crônicas. É preciso levar em conta a didática inerente a cada conjunto de textos, suas qualidades referenciais e suas relações internas, além das marcas de seus diversos redatores-editores.”

Bíblia hebraica

É o Antigo Testamento para o cristianismo. Tem 46 livros (39 na versão usada pelos cristãos protestantes).

Os cinco primeiros livros são conhecidos como Torá ou Pentateuco e sua autoria, segundo a tradição religiosa da Antiguidade, é atribuída a Moisés, o profeta mais importante para o judaísmo:

Gênesis
Êxodo
Levítico
Números
Deuteronômio

Bíblia cristã

É o Novo Testamento dos cristãos. Fala sobre a vida de Jesus, de seus ensinamentos e dos eventos ligados aos primórdios do cristianismo. É composta de 27 livros, divididos em:

Quatro Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas, João

Livro Histórico: Atos dos Apóstolos

21 epístolas

Livro Profético: Apocalipse

Cabala

Segundo a professora Suzana, Cabala é um termo geral (que significa receber uma tradição) atribuído a todo um movimento religioso em pleno processo de desenvolvimento – desde a Idade Média até os dias de hoje. Trata-se de uma interpretação mística da Torá, inclusive das letras usadas nos textos.

A professora aponta que esse aspecto é muito interessante, porque na literatura a letra impressa não tem nenhuma importância, enquanto símbolo grafado, mas na mística judaica cada letra exibe um incomensurável significado divino.

O grupo vai se basear no Zohar (Livro do Esplendor) escrito em aramaico, no século XIII, na Espanha, para estudar a exaltação do feminino na representação do sagrado e da divindade.

A mulher e o feminino na Bíblia

A professora diz que o grupo se organizou em torno de um tema de suprema importância nas Bíblias hebraica e cristã: a mulher e o feminino. Segundo ela, a tradução de obras críticas sobre a Bíblia para a língua portuguesa é empreendida, em sua maioria, por editoras de cunho teológico, alinhadas a vertentes religiosas – católica, protestante e judaica. “E em termos de estudos da mulher, não há nada”, diz. No mundo acadêmico ela diz que predominam os estudos feministas, pós-colonialistas e outras hermenêuticas que não são foco do grupo.

Suzana conta que os estudos do feminino e da mulher na Bíblia tambémjá foram relegados à esfera do folclore ou considerados “não sérios” na academia, pois a ideia corrente era a de que um estudo sério deveria focalizar patriarcas, profetas, reis e sábios.

“Ainda existem um certo preconceito e uma reação de estranheza quando se analisa a narrativa patriarcal sob a perspectiva das matriarcas ou a predominância da mulher no Cântico dos Cânticos.”

O pecado original e a expulsão do paraíso, retratando a perdição de Adão e Eva no Jardim do Éden – Foto: Wikipedia/CC BY-SA 3.0

Segundo a pesquisadora, na ótica da exegese (estudo da interpretação gramatical e sistemática das Escrituras) judaica e cristã, o Cântico dos Cânticos é um poema que fala do amor entre Deus e uma personificação de Israel ou entre Deus e a Igreja – e não sobre o amor erótico entre um homem e uma mulher. “No Cântico dos Cânticos, temos um homem que fala dos seios e das coxas da sua amada e uma mulher que descreve até suas fantasias sexuais, como o desejo de amamentar o amado, na casa de sua mãe.”

Suzana reconhece que a questão da sexualidade feminina, eminente na Bíblia, é um tema que intimida, difícil de ser tratado. Homens são comumente retratados como herói ou anti-herói, patriarca, juiz, rei ou profeta. E, apesar de se conhecer uma mulher juíza e três profetizas nas escrituras, a imagem da mulher bíblica é construída, principalmente, a partir de sua função na família – onde está atrelada à autoridade do pai ou do marido – e de aspectos da sua sexualidade, como beleza e desejo e fenômenos fisiológicos, como a menstruação.

Culturalmente, o sangue menstrual é um tabu universal; mas em várias versões bíblicas, esse tabu é ainda mais reforçado pela tradução como “imundície”. A professora explica que na Bíblia existe um sistema de pureza/impureza para ordenar as relações humanas e alinhá-las à ideia de santidade. Aquilo que é caótico, desordenado e poderoso por natureza, tudo o que o homem antigo não consegue entender direito – como a relação sexual, o parto e a menstruação – é inserido na categoria de impureza ritual, um estado transitório onde é preciso um ritual para reinserir a pessoa na ordem e no convívio social. Apenas a morte constitui um estado de impureza ritual permanente. Para todos os outros, há rituais próprios para restabelecer a pureza. Para a menstruação, é um banho e o uso de roupas limpas.

Adornos femininos

Um dos temas de pesquisa do grupo são os adornos femininos enquanto identidade e insígnia. A professora conta que os textos bíblicos fazem referência a eles às vezes os exaltando, às vezes os condenando.

Na ótica positiva, há o adornar a noiva para encontrar o noivo das Bíblias hebraica e cristã. Na negativa, o profeta Isaías critica os adornos femininos que denotam a altivez da mulher.

A ideia é reunir pesquisadores que possam trazer insights para essa questão.

Tradução grega e patrimônio da humanidade

Suzana lembra que a Bíblia hebraica foi escrita em hebraico.Como esse texto sagrado rompeu as fronteiras de um povo da antiguidade e se tornou patrimônio de toda a humanidade? “Exatamente através da sua tradução para o grego”, revela a pesquisadora.

Ela conta que a Bíblia foi traduzida para o grego no século III a.E.C. (antes da Era Comum), em Alexandria, no Egito, para atender à comunidade judaica que já não dominava o hebraico das escrituras, porém, muito das possibilidades de expressão e flexibilidade da língua semita se perdeu nessa tradução. “Cada tradução é uma apropriação, mas quando a gente passa de uma cultura para outra e de uma língua semita para uma língua ocidental, há muitas rupturas.”

Quem comenta sobre isso é o mestrando André Kanasiro, um dos participantes do grupo. Ele lembra que a Bíblia foi feita para ser lida em voz alta, para uma audiência (público). E acabou educando através de suas narrativas, porque, segundo o pesquisador, são histórias que transmitem as complexidades de como é ser humano em um mundo comandado por um Deus único, absoluto. Mas, ao mesmo tempo, há uma série de contradições dialéticas entre o homem e Deus.

“O texto bíblico assume um caráter social, público, de leitura para as audiências, porque o próprio texto diz que deve ser lido periodicamente para preservar a memória, com suas contradições e ambiguidades. Tudo o que Deus implementa para Israel, ele faz com base na memória do que ele fez antes. E os profetas vão fazer o mesmo, remetendo à Tora, e assim por diante. É uma tradição que se constrói uma em cima da outra e sempre engajada com essa audiência. Isso é muito importante porque vai ditar as interpretações dos textos”, esclarece.

O grupo analisa as escrituras a partir da matriz do texto em hebraico, mas também empregam outras traduções, como a Septuaginta —a mais antiga tradução para o grego da Bíblia hebraica. Os pesquisadores também estudam os Manuscritos do Mar Morto, os textos bíblicos mais antigos encontrados, versões aramaicas e outras, inclusive as mais modernas.

Grupo de pesquisa

Suzana afirma que aqui, no Ocidente, estamos acostumados a pensar na Bíblia como um produto da cultura ocidental, mas ela é um produto oriental. “Então é importante fazer esse resgate, devolvendo a Bíblia hebraica ao contexto das civilizações do Oriente Médio antigo, estudando-a através da língua e da linguagem que lhe são próprias, de modo a permitir a esses textos falar em seus próprios termos.”

“Para isso, estamos reunindo um grupo de pesquisadores de várias áreas do conhecimento, que possam contribuir para a formatação de um comentário crítico e interdisciplinar, que dê conta das distintas dimensões do registro bíblico, um comentário ao mesmo tempo abrangente e minucioso”, destaca a professora.

O grupo, que está no momento consolidando parcerias com pesquisadores de universidades estrangeiras, conta com o apoio do Centro de Estudos Judaicos da USP e do Programa de Pós-Graduação em Letras da FFLCH/USP.

Entre os integrantes, está o mestrando André Kanasiro, que estuda a caracterização de YHWH na narrativa de Balaão (Números, 22-24). YHWH é um tetragrama que, na Bíblia hebraica, indica o nome próprio de Deus.

Já a doutoranda Quéfren de Moura Eggers pesquisa a caracterização da filha na literatura bíblica e se dedica também aos estudos sobre tradução bíblica para línguas minoritárias e de sinais no programa de formação de consultores de tradução das United Bible Societies (UBS).

Jonas Araujo Saboia é aluno de mestrado e sua pesquisa tem como tema as leis de divórcio no Deuteronômio.

O grupo conta ainda com Daniela Susana Segre Guertzenstein, que pesquisa o feminino na exegese judaica; Manu Marcus Hubner, pesquisador do Centro de Estudos Judaicos da USP; os professores Pedro Paulo Abreu Funari (Unicamp), arqueólogo e historiador da Antiguidade Clássica; João Cesário Leonel Ferreira (Universidade Presbiteriana Mackenzie), que aplica a análise literária ao Novo Testamento; e Jacyntho Lins Brandão (Universidade Federal de Minas Gerais ), helenista e tradutor dos épicos mesopotâmicos para a língua portuguesa.

A criação do humano

Contando a história do Éden, a partir da possibilidade de compreensão ensejada pela leitura no hebraico original:

“Deus cria adam [humano, sem gênero] do pó da terra, sopra em suas narinas um sopro de vida e o coloca em um jardim.

Deus declara: “não é bom que o humano seja só. Farei para ele um auxiliar [sem gênero] que lhe corresponda”.

Deus modela os animais da terra e os conduz ao humano, que dá nome a todos, mas não encontra, entre eles, um auxiliar que lhe corresponda.

Deus faz dormir o humano e lhe tira um de seus lados [em hebraico, a palavra costela é também “lado”] e fecha a carne embaixo.

Deus constrói o lado que tirou como mulher e a conduz ao humano [que agora, é só metade].

Ele diz: “esta, sim, é osso dos meus ossos e carne de minha carne; a esta se chamará mulher [ishá] porque do homem [ish] foi tirada”.

Nota do editor bíblico:
Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe; ele adere à sua mulher e se tornam uma só carne (refazendo a unidade original do ser humano através da relação sexual).