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Por Marcos Fava Neves, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, Vinícius Cambaúva e Vitor Nardini Marques, mestrandos na FEA-RP

Por Marcos Fava Neves, inícius Cambaúva e Vitor Nardini Marques em Jornal da USPVamos às reflexões dos fatos e números do agro em novembro e à lista do que acompanhar em dezembro. Na economia brasileira seguimos com deterioração do cenário econômico, considerando os principais indicadores. O relatório Focus do Banco Central do Brasil (Bacen) de 16 de novembro trouxe expectativas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2021 em 9,77%, e de 2022 em 4,79%. Já para o Produto Interno Bruto (PIB), espera-se um crescimento de 4,88% neste ano e de 0,93% em 2022. Para taxa Selic, o mercado espera 9,25% e 11,0%, respectivamente, e no câmbio, R$ 5,50 no final de 2021 e no final do próximo ano. Inflação de volta, juros altos, câmbio excessivamente desvalorizado e crescimento econômico bem mais fraco. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), o comércio global de mercadorias está desacelerando neste final de ano. Os cálculos do barômetro (mecanismo que mostra em tempo real a trajetória do comércio mundial) apontam valores de 99,5, contra 110,4 em agosto; lembrando que, quando o valor está acima de 100, temos um crescimento acima da tendência esperada. Na conjuntura atual, o índice de componentes eletrônicos está em 99,6; o de transporte em contêineres em 100,3; o de matérias-primas em 100,00; e o de frete aéreo em 106,1 (único que permaneceu de forma relevante acima da tendência). Mas as perspectivas para a economia mundial no ano que vem se mantêm ao redor de 4,7%, o que é um bom número. Foi um mês de piora nos indicadores.

No agro mundial e brasileiro, nas estimativas de novembro do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) para safra global 2021/22, a produção de milho nos EUA foi revista de 381,5 (relatório anterior) para 382,6 milhões de toneladas (+0,3%). A produção na União Europeia também foi acrescida, saindo de 66,3 milhões de toneladas para 67,9 milhões de toneladas (+2,4%). A Argentina, de 53,0 para 54,5 milhões de toneladas (+2,8%). Brasil e China tiveram seus números mantidos em 118 e 273 milhões de toneladas, respectivamente. Com isso, a produção global do cereal deve ficar em 1.204,62 milhões de toneladas; 7,6% maior que em 2020/21. As estimativas para os estoques globais do milho estão em 304,4 milhões de toneladas, um crescimento de 4,3% em relação ao ciclo passado.

Na soja, o relatório de novembro indicou uma produção pouco menor nos EUA: de 121,05 milhões de toneladas do relatório passado, para 120,4 milhões de toneladas na nova previsão (-0,5%). A produção na Argentina também foi reduzida para 49,5 milhões de toneladas (-2,9%); era de 51,0 milhões de toneladas em outubro. No Brasil, a produção foi mantida em 144 milhões de toneladas, alta de 4,3% em relação a 2020/21. Como resultado, a oferta global da oleaginosa deve ser de 384,01 milhões de toneladas em 2021/22, crescimento de 4,8% em relação ao ciclo passado. Já os estoques finais devem ficar em 103,8 milhões de toneladas, também acima da safra passada, em 3,7%. Ou seja, milho e soja vêm vindo com bons crescimentos em relação à safra anterior.

No Brasil, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a produção de grãos da safra 2021/22 irá atingir 289,8 milhões de toneladas, um incrível crescimento de 14,8% frente à temporada passada. Se tudo correr bem, teremos 37 milhões de toneladas de grãos a mais. O salto na área produtiva também é impressionante, de 69 milhões de hectares na safra 2020/21 para quase 71,85 milhões nesta (+4,1%). Na cultura da soja, a produção deve totalizar recorde de 142 milhões de toneladas (+3,4%), em uma área cultivada de 40,3 milhões de hectares (+3,5%). Já no milho, a primeira safra está estimada em 28,6 milhões de toneladas (+15,7%), alcançando área cultivada de 4,35 milhões de hectares (+2,5%). No acumulado das três safras do cereal, projeta-se um crescimento de 15,7% no volume colhido, chegando a 116,7 milhões de toneladas. Finalmente, no algodão, espera-se uma produção de pluma 12,6% superior, somando 2,65 milhões de toneladas, em consequência do aumento da área de plantio em 9,3%, que ficou em 1,5 milhão de hectares. Expectativas são altas para a consolidação de uma supersafra!

Também segundo a Conab, até o final da primeira semana de novembro, 67,3% das áreas de soja no Brasil já haviam sido semeadas, contra 55,1% no mesmo período do ciclo 2020/21. O Mato Grosso, principal produtor da oleaginosa, é o Estado com maiores avanços até aqui, com 96,0% do plantio já concluído. No milho verão, o progresso era de 54,4%, pouco acima dos 53,1% registrados na mesma data de 2020/21. O Paraná lidera os avanços, com 98,0% das áreas já plantadas com o cereal.

Em outubro, as exportações do agronegócio brasileiro alcançaram US$ 8,84 bilhões, valor recorde para o mês (mais uma vez!), crescimento 10,0% em relação ao mesmo mês de 2020. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a elevação nas receitas foi resultado de alta de 25,8% nos preços dos produtos, já que os volumes caíram 12,5% no comparativo mensal. No top 5 dos produtos que mais arrecadaram, temos: na liderança, o complexo soja com US$ 2,47 bilhões (+75,7%), dos quais a soja em grão representou 70% (US$ 1,51 bilhão); na segunda posição estão as carnes, que exportaram US$ 1,51 bilhão (+3,6%), sendo que a carne de frango foi a fonte com maior participação, de 46,2% (a bovina, por sua vez, registrou queda de 31,6%, impacto das restrições nas importações da China); em terceiro, ficaram os produtos florestais, com US$ 1,20 bilhão (+17,3%); na quarta colocação aparece o complexo sucroalcooleiro, com vendas em US$ 910,9 milhões (-30,0%), setor que apresentou redução significativa nos embarques, especialmente pela queda de 28,6% nas vendas do açúcar; e fechando o top 5, em quinto, temos o café, que exportou US$ 606,7 milhões (+18,9%).

As importações, por sua vez, somaram US$ 1,4 bilhão em outubro, crescimento de 16,7% em comparação com o mesmo mês de 2020. Como resultado, o agro brasileiro entregou um saldo positivo de US$ 7,44 bilhões (+8,8%). No acumulado de 2021 (janeiro-outubro), as exportações do agro brasileiro somam US$ 102,36 bilhões, crescimento de 19,5% no comparativo com o mesmo período do ano passado. É o recorde anual em valores nominais em dólar, faltando ainda dois meses para terminar o ano.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento também reestimou o Valor Bruto da Produção Agropecuária em 2021, com dados do mês de outubro. Agora, o órgão estima um VBP total de R$ 1,119 trilhão, 1,45% maior que a estimativa de setembro e 9,9% superior ao de 2020. As lavouras devem entregar R$ 757,23 bilhões (67,6%), com crescimento anual de 11,8%, e as cadeias da pecuária apresentarão VBP de R$ 362,72 bilhões (32,4%), alta de 6,2% no comparativo com o ano passado.

De acordo com o estudo Perspectivas para o Agronegócio 2022, divulgado pelo Rabobank, teremos mais um ano de preços atrativos para as principais commodities agrícolas, vista a retomada econômica global e oferta/estoques ainda limitados. A principal preocupação recai sobre o cenário fiscal brasileiro, vista a aproximação do ano de eleições, o que deve manter o real desvalorizado frente ao dólar. O banco holandês projeta a moeda americana em R$ 5,61 na média de 2022, beneficiando as exportações, mas gerando apreensão no que se refere aos custos de produção.

Com a colheita recorde de soja esperada para 2021/22 no Brasil e os EUA consolidando a 2ª melhor safra, os preços da oleaginosa não devem se sustentar nos patamares atuais, mesmo com o aumento de importações da China em 3 milhões de toneladas, totalizando volume de 101 milhões ao longo de 2021/22. Dessa forma, as cotações da soja devem ficar entre US$ 12,55 e US$ 12,70/bushel na média em 2022, longe dos US$ 16/bushel evidenciados em 2021.

Já no milho, com uma reposição de estoques mais lenta e forte posição comprada da China sobre o cereal americano, os preços tendem a se manter entre US$ 5,35 e US$ 5,50/bushel. Esse cenário deve manter as cadeias de proteína animal com margens apertadas.

No entanto, apesar das boas expectativas de produção neste ciclo, agricultores já relatam dificuldade em encontrar fertilizantes e defensivos no mercado, em decorrência da crise energética que assola China, Índia e Rússia, somada aos problemas logísticos marítimos globais com a escassez de contêineres e navios. O grande impacto disso deve ser evidenciado na temporada 2022/23, visto que para o atual ciclo grande parte dos insumos utilizados já foi comprada e armazenada. Além do aumento de preços, há também alguns riscos de desabastecimento, visto que, com a menor oferta, os países fornecedores devem priorizar o abastecimento doméstico ao invés das exportações. Vale lembrar que cerca de 60% dos ingredientes de defensivos e 70% dos de fertilizantes são adquiridos de fora, gerando grande dependência das importações. Sinal de alerta ligado!

Nesse contexto, um estudo divulgado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apontou as culturas com maior variação no custo operacional efetivo na safra 2020/21, quando comparadas com a safra 2019/20. O arroz liderou a lista, com custos 34,0% maiores no ciclo passado, seguido do café conilon, com 31,3%, e da soja, que teve custos 16,4% maiores no último ciclo.

O mês de novembro também foi marcado pela realização da COP-26, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Glasgow, na Escócia. Diversos acordos e compromissos foram firmados por lideranças globais, durante o evento, como: a redução do desmatamento ilegal; acordos de neutralidade nas emissões; e avanços na área de créditos e financiamento verde. Durante o evento, a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) lançou o Manifesto de Cooperação Ambiental, um posicionamento das cooperativas diante da agenda sustentável e que descreve os princípios do setor para contribuir na redução do aquecimento global. O manifesto também aponta algumas demandas, como a regulamentação do mercado de carbono mundial, a criação de leis para pagamento por serviços ambientais e os incentivos para produção renovável no ramo agropecuário.

A consultoria especializada em sustentabilidade WayCarbon, sob encomenda da ICC Brasil (International Chamber of Commerce Brasil), realizou um estudo recente onde mostrou que nosso país tem capacidade de gerar até R$ 100 bilhões em créditos de carbono apenas no setor do agronegócio, floresta e energia até 2030. O montante seria o equivalente a um bilhão de toneladas de CO2 equivalente.

A Geo Energética, maior empresa brasileira de biogás produzido a partir de resíduos do setor sucroenergético, anunciou que pretende investir entre R$ 300 e R$ 450 milhões em 2022. De acordo com a companhia, três novos projetos já estão confirmados: a construção de novas unidades produtoras de biogás no Mato Grosso, uma em São Paulo e outra em estado do Sul (ainda não revelado). Representantes da empresa afirmam que pode haver um quarto projeto, que ainda está em negociação.

A política brasileira de biodiesel tem sido alvo de discussões recentes entre entidades do setor. Neste ano, houve redução na mistura de biodiesel ao diesel convencional de 13% para 10%, justificada pela forte demanda e altos preços de comercialização da principal matéria-prima para o biocombustível, a soja. Por outro lado, muitos especialistas consideraram tal medida um retrocesso e uma fragilização da política nacional do biodiesel, visto que no atual cenário as importações estão sendo favorecidas em detrimento da indústria de biodiesel. Além disso, há preocupações de como essa mudança pode ferir a reputação do País, que vinha se consolidando com um dos principais países da pauta das energias renováveis.

Ainda dentro da temática do biodiesel, a partir de 1º de janeiro de 2022 os leilões para o produto deixarão de existir, ficando vigente apenas a negociação direta entre produtores e distribuidores. A União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio) sinalizou preocupações quanto à medida, alegando que as grandes distribuidoras devem concentrar as aquisições, reduzindo os estoques disponíveis e pressionando os preços.

Para concluir a nossa análise geral do agro, os preços dos principais produtos no fechamento desta coluna eram: a soja para entrega em cooperativa de São Paulo estava em R$ 158/sc e R$ 150/sc para fevereiro de 2022. No milho, a cotação atual está em R$ 82,00/saca e a entrega em maio de 2022 fechou em R$ 83/saca (B3). O algodão fechou em R$ 199/arroba e para junho de 2022 em 186/arroba; e o boi gordo em R$ 303/arroba, sensivelmente acima do mês passado.

Nossa leitura de preços pelos fatos disponíveis hoje:

• preços de soja, milho e algodão: tendências de manutenção com viés de baixa.

• Preços de cana, laranja e café, tendências de manutenção.

• Preços das carnes: tendência de manutenção e ligeiro viés de alta.

Os cinco fatos do agro para acompanhar em dezembro são:

• A conclusão dos plantios da primeira safra e a qualidade das lavouras;
• O comportamento de compra, de preços e da oferta de defensivos e fertilizantes;
• O fechamento da safra americana, com a consolidação dos números finais. Devem variar muito pouco em relação ao que já conhecemos;
• Uma possível volta da China às compras de carne bovina;
• A situação mundial de crise energética (escassez de carvão, preços do petróleo, do gás natural e outros), aumento da incidência do coronavírus na Europa e Ásia, acompanhar dia a dia o que acontece na China, Índia e em outros produtores de químicos e fertilizantes para entendermos o que serão os próximos meses.