O pesquisador especializado na área espacial, Othon Winter, comenta o lançamento da espaçonave em 1º de abril. A viagem deve durar 10 dias e será a primeira incursão de seres humanos no chamado espaço profundo desde 1972. O pouso, porém, só deverá ocorrer em missões posteriores do programa Artemis
Por Isis Bianco – Jornal da Unesp | Iniciou-se no dia 1º de abril a janela para o lançamento da missão espacial Artemis II. A missão é parte do programa Artemis, a cargo da agência espacial estadunidense, a NASA, cujo objetivo é conduzir voos tripulados ao satélite da Terra. Diferentemente do primeiro teste do programa, realizado de forma não tripulada, essa nova fase levará astronautas a bordo da espaçonave Orion, colocando à prova sistemas essenciais em condições reais de voo no espaço. A missão, prevista para durar 10 dias, integra um esforço mais amplo de retomada da exploração lunar realizada anteriormente durante o Programa Apollo, entre as décadas de 1960 e 1970, com impactos diretos para a ciência e a pesquisa.
Apesar dos avanços tecnológicos acumulados desde o século passado, a exploração espacial continua sendo um desafio de alta complexidade. Othon Winter, físico, astrônomo e professor do Campus da Unesp em Guaratinguetá, chama a atenção para a necessidade de testes envolvendo seres humanos. Nesse contexto, a Artemis II cumpre um papel fundamental dentro do programa, proporcionando um teste decisivo do desempenho dos sistemas desenvolvidos antes de missões mais ambiciosas.
“Quando uma nova tecnologia é desenvolvida, é essencial testá-la no espaço, já que seu desempenho pode ser diferente do observado na Terra. A missão Artemis II será crucial ao realizar testes com seres humanos em ambiente espacial, uma vez que esses resultados vão orientar futuras missões tripuladas, incluindo planos de exploração da Lua e de Marte”, explica o docente da Unesp.
Entre os principais desafios que a missão e seus tripulantes vão enfrentar estão a exposição à radiação no espaço profundo e a necessidade de garantir o pleno funcionamento dos sistemas de suporte à vida, comunicação e navegação. Esses fatores são determinantes para a viabilidade de missões futuras, especialmente aquelas que envolvem estadias mais longas fora da Terra.
A trajetória da missão também evidencia seu caráter experimental. A nave realizará um percurso complexo ao redor da Terra e da Lua, atingindo distâncias inéditas para voos tripulados. “Essa é uma distância que, até o momento, nenhuma das missões Apollo havia percorrido. Ou seja, é a primeira vez que astronautas alcançarão um ponto tão distante da Terra”, destaca Winter.
A missão também chama a atenção pela composição da tripulação, formada por quatro astronautas. O grupo inclui Christina Koch e Victor Glover, que se tornarão, respectivamente, a primeira mulher e o primeiro homem negro a integrarem uma missão na órbita lunar. “No espaço, abre-se um canal de colaboração internacional bastante interessante. É diferente do que geralmente se enfrenta aqui na Terra em termos de política internacional”, analisa o especialista da Unesp.
Em um cenário terrestre marcado por desafios como as mudanças climáticas, crises sanitárias e desigualdades sociais, a realização de missões espaciais de grande porte pode suscitar questionamentos sobre prioridades. Winter pondera que, embora a exploração espacial demande altos investimentos, a atividade também pode trazer retornos significativos. Tais iniciativas impulsionam o desenvolvimento tecnológico e científico e podem resultar até em aplicações de uso cotidiano. Também podem contribuir para a busca de soluções para importantes problemas globais, como a crise energética, o uso de combustíveis fósseis e a exploração de minérios e terras raras, que são escassas em nosso planeta.
Winter explica que, caso a Artemis II seja bem-sucedida, os próximos passos já estão definidos. Segundo o planejamento da NASA, a Artemis III será voltada principalmente para o treinamento de manobras em órbita terrestre, com foco em operações de acoplamento entre espaçonaves. Será uma espécie de ensaio prévio antes da viagem lunar propriamente dita. Caso tudo corra bem também com a Artemis III, o tão esperado pouso no satélite será realizado pela Artemis IV.
Ouça a entrevista completa com Othon Winter para o Podcast Unesp.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.