Pesquisa mostra que cisterna e sistemas de reúso de água cinza reduzem alagamentos e aliviam sistemas de drenagem em áreas vulneráveis às mudanças climáticas
O avanço das enchentes urbanas e o aumento da pressão sobre sistemas de esgoto têm levado cidades costeiras a buscar alternativas dentro das próprias residências. Um estudo conduzido por pesquisadores da Drexel University revelou que estratégias domésticas de retenção e reaproveitamento de água conseguem diminuir significativamente o volume de alagamentos e transbordamentos de esgoto em regiões urbanas sujeitas a tempestades intensas e à elevação do nível do mar.
A pesquisa analisou medidas descentralizadas de gestão hídrica, como cisternas, e sistemas de reutilização de águas cinzas. Segundo os cientistas, a adoção ampla dessas práticas pode reduzir entre 11% e 13% o volume de enchentes e descargas de esgoto sem tratamento em cidades costeiras.
O trabalho foi publicado na revista científica Urban Climate e traz um dos primeiros modelos capazes de medir o impacto combinado dessas soluções em escala urbana. A análise também incorporou projeções climáticas futuras, incluindo aumento do nível do mar e intensificação das chuvas extremas.
Em muitas cidades antigas dos Estados Unidos, redes de drenagem e esgoto funcionam de forma integrada. Durante tempestades severas, a quantidade de água excede a capacidade do sistema e provoca o despejo de esgoto bruto em rios e áreas costeiras. Eventos como o Hurricane Irene, a Hurricane Sandy e o Hurricane Ida ampliaram a preocupação com esse tipo de infraestrutura vulnerável.
Cidades como Philadelphia, New York City e Boston convivem com sistemas combinados de esgoto e águas pluviais. Em períodos de precipitação intensa, o excesso de água impede o tratamento adequado dos resíduos e aumenta o risco de contaminação ambiental.
Os pesquisadores concentraram parte da análise em Camden, município localizado em uma área costeira vulnerável a marés elevadas e ressacas. A cidade vem implementando, nas últimas décadas, um plano de gestão de águas pluviais baseado em infraestrutura verde e ações descentralizadas.
Para avaliar os resultados dessas políticas, a equipe criou um modelo computacional utilizando dados do bairro de Cramer Hill, região frequentemente atingida por enchentes. O sistema simulou 16 combinações diferentes de medidas domésticas, incluindo tamanhos variados de reservatórios de água, reaproveitamento de água de pias para descarga sanitária e instalação de equipamentos hidráulicos mais eficientes.
Os cenários utilizaram dados reais de chuva e maré registrados em 2014. As simulações mediram impactos em pontos de drenagem que deságuam no Delaware River, um dos corpos d’água afetados por transbordamentos de esgoto.
Os resultados mostraram que, quando 75% das residências adotam simultaneamente cisterna e sistemas de reúso de águas cinzas, o volume de enchentes pode cair até 13%, enquanto os transbordamentos de esgoto diminuem cerca de 11%.
Além da contenção de alagamentos, as medidas reduzem o consumo de água tratada e a demanda energética associada ao abastecimento urbano. O estudo aponta que pequenas mudanças em escala residencial geram efeitos coletivos relevantes para cidades densamente povoadas.
Os pesquisadores também testaram a resistência dessas estratégias diante de cenários climáticos mais severos. O modelo simulou aumentos de até 30% na intensidade das chuvas e elevação do nível do mar em até 1,8 metro.
As projeções confirmaram agravamento das enchentes e maior pressão sobre as redes de drenagem. A subida do mar cria barreiras hidráulicas que dificultam o escoamento da água urbana e favorecem alagamentos de superfície. Mesmo assim, as soluções descentralizadas mantiveram desempenho semelhante ao observado nos cenários atuais.
Segundo os autores, o enfrentamento das enchentes urbanas exige integração entre grandes obras de infraestrutura e medidas domésticas de retenção e reaproveitamento de água. A combinação dessas estratégias amplia a capacidade de adaptação das cidades costeiras diante das mudanças climáticas.
O estudo também destaca a necessidade de investigar obstáculos sociais e econômicos que dificultam a adoção dessas práticas pela população. Questões como custo de instalação, acesso à informação e percepção pública ainda influenciam a expansão desse tipo de solução urbana sustentável.