Formações geológicas raras em Campos Belos (GO) poderão receber até 50 pessoas por dia
Por Luiz Felipe Fernandes – Jornal UFG | As formações geológicas conhecidas como Chaminés de Fada, localizadas em uma propriedade rural no município de Campos Belos, no nordeste de Goiás, estão abertas à visitação turística. O acesso, porém, será controlado: os passeios precisam ser agendados previamente no site oficial do atrativo, têm acompanhamento obrigatório de condutores credenciados e seguem um percurso definido com a participação de pesquisadores, com o objetivo de reduzir os impactos sobre uma área considerada extremamente frágil.
A abertura ocorre cerca de três anos depois da primeira visita de pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) ao local. Até então praticamente desconhecidas fora da propriedade onde estão localizadas, as estruturas chamaram a atenção pela extensão, pela quantidade e pelo tamanho — algumas chegam a aproximadamente três metros de altura. O registro realizado pela equipe foi considerado inédito no Brasil nessa escala.
A geóloga Joana Paula Sánchez, do Laboratório de Geologia e Áreas Turísticas da UFG, acompanha o local desde 2023 e permanece como responsável técnica pelo trabalho desenvolvido em parceria com os proprietários da área.
A pesquisadora conta que, depois que imagens das formações ganharam repercussão nacional, no ano passado, começou um trabalho mais intenso de organização e mapeamento da área. Em janeiro deste ano, pesquisadores da UFG realizaram um levantamento com apoio da Universidade Estadual Paulista (Unesp), com a utilização de um radar para produzir imagens aéreas e dimensionar a área.
A etapa seguinte envolveu sucessivas idas a campo para determinar por onde os visitantes poderiam circular sem colocar as formações em risco. Segundo a pesquisadora, existe uma área destinada à visitação e outra mantida fora do acesso turístico, para conservação.

Visitação terá limite diário
A trilha tem aproximadamente três quilômetros, dificuldade classificada como moderada e duração estimada de duas horas. A capacidade máxima prevista é de 50 visitantes por dia. O ingresso custa a partir de R$ 70 por pessoa, e o acompanhamento por condutor credenciado é obrigatório. O serviço do condutor custa R$ 200 por grupo de até seis pessoas e é pago separadamente.
O fluxo foi organizado para evitar que grupos diferentes permaneçam simultaneamente na área mais sensível das formações. Um novo grupo só deve acessar o trecho das Chaminés de Fada depois da saída do anterior.
Entre as regras estão a obrigação de permanecer apenas nas áreas autorizadas e a proibição de subir nas estruturas, retirar pedras, minerais ou outros materiais naturais e realizar qualquer atividade capaz de provocar danos ao patrimônio.
Torres moldadas pela erosão
As Chaminés de Fada também são conhecidas como demoiselles — palavra francesa para “moças” ou “donzelas”, em alusão às formas esguias e elegantes. Alguns dos exemplos mais famosos são as formações da Capadócia, na Turquia, mas elas também estão no Bryce Canyon (Estados Unidos) e nos Alpes franceses.
Sua origem está relacionada à chamada erosão diferencial. Ao longo do tempo, materiais com resistências diferentes são desgastados em velocidades também distintas. Em Campos Belos, a passagem de um antigo curso d’água removeu progressivamente os sedimentos mais frágeis, enquanto blocos mais resistentes funcionaram como uma espécie de proteção sobre as colunas abaixo deles. O resultado é uma paisagem marcada por dezenas de torres, pilares e blocos de formatos variados.
A repercussão da descoberta no município goiano ampliou também a preocupação sobre o que poderia ocorrer caso um fluxo de visitantes começasse antes da definição de regras. Segundo Joana, o caráter frágil das formações tornou necessário estabelecer limites antes da abertura.
O ordenamento resultou na delimitação da trilha, na instalação de sinalização e na definição das atividades permitidas e proibidas. A equipe também participou do treinamento inicial de condutores locais.
Turismo e conservação
Além da preservação geológica, a abertura das Chaminés de Fada cria a expectativa de desenvolver uma nova atividade econômica na região. A pesquisadora da UFG conta que, paralelamente ao trabalho na área, foram promovidas conversas com moradores para discutir como a comunidade poderia se preparar para receber visitantes.
“Treinamos os guias locais e fizemos uma rodada de palestras com as pessoas da comunidade, para entenderem o que o turismo vai levar para elas e para que se organizem”, relata. Isso porque a estrutura turística ainda é limitada nas proximidades da propriedade. Hospedagens e restaurantes estão concentrados principalmente em Campos Belos, a cerca de uma hora de deslocamento.
A expectativa, segundo a pesquisadora, é que o processo contribua para a construção de um modelo de turismo sustentável, que combine geração de renda e conservação. A experiência com as Chaminés de Fada também pode servir de ponto de partida para conhecer e organizar outros atrativos naturais da região.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal UFG, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.