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Antidepressivo comum na água prejudica navegação de peixes, mas só do sexo masculino

Um antidepressivo amplamente encontrado em rios e córregos de diversos países está afetando a capacidade de aprendizado dos peixes, mas de forma intrigante e desigual: enquanto os machos perdem desempenho espacial e cometem até 34% mais erros, as fêmeas seguem imunes. A descoberta, feita por pesquisadores da Universidade Monash, acende um alerta sobre os efeitos invisíveis da poluição farmacêutica sobre a vida aquática.

A substância amitriptilina, presente em medicamentos descartados de maneira inadequada ou que escapam do tratamento de esgoto, foi testada em concentrações já detectadas na natureza. Para isso, cientistas colocaram peixes-guppy selvagens em um labirinto repetidas vezes, monitorando agilidade e precisão.

Com o tempo, todos os animais melhoraram a navegação. Porém, a exposição ao fármaco alterou drasticamente esse quadro: machos intoxicados passaram a errar mais, perdendo a superioridade natural que costumavam ter sobre as fêmeas. Em concentrações altas, o desempenho dos machos tornou-se significativamente pior.

Jack Manera, doutorando e autor principal do estudo publicado na revista Environmental Science & Technology, explica que, em condições normais, os machos aprendem mais rápido e com mais exatidão. Contudo, o contaminante apagou essa vantagem. O trabalho também mostrou que, apesar das diferenças individuais entre os peixes — alguns naturalmente mais precisos, outros mais propensos a erros — a capacidade de aprender em si permaneceu preservada.

A habilidade de orientação espacial é vital para peixes na busca por comida, parceiros e fuga de predadores. Quando apenas um dos sexos tem essa capacidade reduzida pela poluição, os efeitos podem se espalhar por populações inteiras e desestabilizar ecossistemas.

Os pesquisadores apontam falhas nas avaliações ambientais atuais, que costumam focar apenas na sobrevivência dos organismos. Mais do que manter os animais vivos, é necessário investigar se eles conseguem funcionar normalmente em seus habitats. O estudo reforça que poluentes neuroativos são capazes de reprogramar comportamentos de forma sutil, porém perigosa, e pede uma revisão dos critérios de risco ecológico.


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