Produtos programados para morrerem

Crise econômica e consumo em baixa foram os motivadores para a criação da obsolescência programada, na década de 30, mas ainda vigentes nos dias atuais

celulares velhos

Você descarta frequentemente objetos sem antes avaliar a possibilidade de consertá-los? Costuma trocar aparelhos ainda em funcionamento por uma versão mais nova do mesmo? Já comprou alguma vez por impulso, mesmo sabendo que aquele objeto não seria muito útil para você? Se você respondeu sim para as perguntas acima, saiba que você é vítima da obsolescência programada.

A obsolescência programada é uma técnica utilizada por fabricantes. Ela consiste em produzir itens já estabelecendo o término da vida útil deles. Esse conceito surgiu entre 1929 e 1930, tendo como pano de fundo a Grande Depressão, e visava incentivar um modelo de mercado baseado na produção em série e no consumo, a fim de recuperar a economia dos países naquele período - algo parecido ao que ocorre atualmente, em que o crédito é facilitado e os governantes incentivam o consumo. Um caso emblemático dessa prática foi o Cartel Phoebus, que, sediado em Genebra, teve a participação das principais fabricantes de lâmpadas da Europa e dos Estados Unidos, que propuseram a redução de custos e da expectativa de vida das lâmpadas de 2,5 mil horas para mil horas.

Algumas vozes, contudo, vêm surgindo e alertando sobre essa prática. Um exemplo é o empresário espanhol Benito Muros, fundador da empresa OEP Electrics e do movimento Sem Obsolescência Programada (SOP). O movimento SOP, diz Muros, tem três objetivos: “Difundir o que é a obsolescência programada e como isso nos afeta; tentar colocar no mercado mais produtos com duração mais longa, a fim de forçar a competição; e tentar unir todos os movimentos sociais para tentar mudar o modelo econômico atual”. Ele diz ser possível comprar produtos que tenham vida útil prolongada e cita o exemplo da lâmpada que brilha na sede de bombeiros de Livermore, na Califórnia, há mais de 100 anos.

Conforme Muros, geralmente os fabricantes planejam um produto já antevendo o fim de seu funcionamento, obrigando, assim, o consumidor a comprar outro ou consertá-lo. O caso da primeira geração do iPod ilustra esse problema. Casey Neistat, um artista de Nova York, pagou US$ 500 por um iPod cuja bateria parou de funcionar 8 meses depois. Ele reclamou. A resposta da Apple foi: “vale mais a pena comprar um iPod novo”. O caso virou uma ação de rua, com vários cartazes publicitários da Apple pichados, como mostra o vídeo iPod’s Dirty Secret (assista abaixo). Depois de toda a repercussão negativa desse caso, a Apple fez um acordo com os consumidores. Elaborou um programa de substituição das baterias e estendeu a garantia dos iPods por US$ 59.

No documentário "The Light Bulb Conspiracy" (A conspiração da lâmpada elétrica), a diretora Cosima Dannoritzer mostra casos semelhantes. Um deles é das impressoras a jato de tinta que teriam um sistema especialmente desenvolvido para travar o equipamento depois de um certo número de páginas impressas, sem a possibilidade de reparo. No filme, um rapaz vai à assistência para consertar sua impressora. Os técnicos dizem que não há conserto. O rapaz então procura na internet maneiras de resolver o problema. Ele descobre um chip, chamado Eeprom, que determina a duração do produto. Quando um determinado número de páginas impressas é atingido, a impressora trava.

O reparo de um produto, no entanto, às vezes não é possível. Annie Leonard criou um vídeo na internet que virou sensação, o “Story of Stuff” (“Histórias das coisas”, em português), no qual relata que abriu dois computadores para ver o que havia de diferente dentro deles. Ela descobriu que é uma pecinha que muda a cada nova versão lançada. Contudo, a forma dessa peça também é alterada, o que obriga o consumidor a comprar um computador novo, em vez de apenas trocar a peça.

No mesmo vídeo, Leonard lembra que além da obsolescência programada, há também a obsolescência percebida, que “nos convence a jogar fora coisas que são perfeitamente úteis”. Isso acontece porque a aparência das coisas muda, os objetos ganham novas funções e a publicidade está em todos os lugares. Como afirma Dannoritzer, “muitas formas de obsolescência programada estão juntas. Na forma tecnológica pura, mas também na forma psicológica, em que um consumidor voluntariamente substitui algo que ainda funciona só porque quer ter o último modelo”.

Lixo eletrônico

O problema disso tudo são os desperdícios de recursos naturais e o lixo criado de forma desnecessária, que, em muitos casos, são enviados para os países pobres como se fossem produtos de segunda mão. Uma lei internacional proíbe que lixo eletrônico seja levado de um país para outro, mas alguns países não a respeitam. Novamente no documentário “The Light Bulb Conspiracy”, a diretora registra tal descaso ao mostrar Agbogbloshie, localizado no subúrbio de Accra, em Gana, que se tornou um depósito de lixo eletrônico de países desenvolvidos, como Dinamarca, Alemanha, Estados Unidos e Reino Unido, que enviam seus resíduos sob o pretexto de ajuda aos países pobres, alegando que tais eletrônicos ainda podem ser reutilizados. No entanto, Dannoritzer aponta em seu filme que mais de 80% desses resíduos são, de fato, lixo e não podem mais serem reaproveitados.

O problema é que um vasto número desses aparelhos é composto de materiais não biodegradáveis​​ ou com um longo tempo para que esse processo ocorra. Os equipamentos eletrônicos, por exemplo, contêm materiais contaminantes como o plástico, que demora 100 a mil anos para se degradar. Além disso, eles possuem outras substâncias altamente poluentes (veja mais). Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), das 2,5 milhões de toneladas de chumbo geradas anualmente em todo o mundo, três quartos desse total são para fazer baterias, que são utilizados em carros, telefones e laptops ou indústrias.

Ainda segundo o Pnuma, o Brasil é o país emergente que mais gera lixo eletrônico por pessoa a cada ano, devido à estabilidade econômica e a facilidade de obtenção de crédito. Mas ainda não há, no país, um destino correto para esse tipo de resíduo.

Alternativas

Os governos de alguns países estão atentos a esse problema. A União Europeia, por exemplo, solicitou aos fabricantes que produzissem itens mais duráveis. Já a Bélgica aprovou uma resolução no senado para lutar contra a obsolescência planejada. Na França, um partido ambientalista apresentou no senado um texto em que critica a produção de itens com uma data de validade já planejada, seja por um defeito, uma peça frágil, ou outro problema parecido. Quem infringir essa lei pode pegar mais de 10 anos de prisão e pagar multa de até 37,5 mil euros.

No Brasil, em fevereiro de 2013, o Instituto Brasileiro de Direito da Informática (IBDI) moveu uma ação contra a afiliada brasileira da empresa norte-americana Apple. O advogado responsável pelo processo, Sérgio Palomares, alegava um intervalo um pouco maior de 5 meses para o lançamento do iPad 4, que, segundo ele, apresentava poucas mudanças em relação a versão anterior, iPad 3. Nos EUA, o intervalo foi de sete meses e a Apple trocou o produto dos consumidores que tinham comprado a versão anterior há pouco tempo. O juiz que julgou a ação, no entanto, não reconheceu nenhum prejuízo ao consumidor nesse caso.

História das coisas

A autora do “The Story of Stuff”, Annie Leonard, já mencionada neste texto, é ex-funcionária do Greenpeace e professora. O primeiro vídeo de sua série recebeu diversos prêmios e já foi visto por mais de 15 milhões de pessoas ao redor do mundo. Isso tudo rendeu um livro, que foi publicado em papel reciclado e impresso com tinta a base de soja, mais ecológica, nos EUA. Em seu vídeo, Leonard diz que comprar produtos verdes e tomar banhos mais curtos, por exemplo, são os primeiros passos para alterar a realidade que vivemos. Ela diz que é preciso agir e pensar como um coletivo, demandando dos governantes, por meio do direito ao voto, leis mais sustentáveis, menos apoio a compras com cartões de crédito.

Leonard diz que a interação que teve com a audiência de seu blog a inspirou a fazer esse vídeo. Segundo ela, as respostas dadas pelas pessoas à pergunta "o que era possível para ter um mundo melhor?" eram individualistas - voltadas para o uso de ecobags, compra de produtos orgânicos e ter hábitos saudáveis, como andar de bicicleta. Para ela, essas são coisas boas a se fazer, mas o real poder está em agir em conjunto, como cidadãos engajados.

O filme foi lançado em 2007. O que era para ser apenas um vídeo, financiado por diversas fundações ambientais, deu origem ao projeto Story of the Stuff, uma organização sem fins lucrativos, com um orçamento de US$ 950 mil e uma equipe de quatro pessoas. O assunto do filme entrou no currículo das escolas e foi lançado um guia de estudo para igrejas intitulado "Let There Be … Stuff?".

Alguns criticam o vídeo, pois dizem que passa uma mensagem anticapitalista e apresenta apenas um ponto de vista. A essa acusação, ela responde: “Eu não sou anticapitalista, mas sim contra um sistema que nos envenena e protege o rico em detrimento do pobre”.

Leonard enxerga um legado positivo na crise econômica, que culminou em 2008 e que afeta principalmente alguns países da Europa e os Estados Unidos, pode deixar. “Quando há menos dólares para gastar, temos que pensar: 'será que realmente vale gastar o dinheiro daquele bico que fizemos no fim de semana para comprar esse carro novo? Ou aquele par de sapatos que está em promoção?”. Confira o famoso vídeo abaixo:


 

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