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Conservacionistas defendem que haja transparência quanto a qualquer acordo firmado com o zoológico, que é alvo de investigações no Brasil e no exterior pela suposta ligação com o tráfico de animais silvestres

Por Fernanda Wenzel – Mongabay | O Vantara, zoológico privado indiano que abriga mais de 150 mil animais, negociou uma “parceria estratégica de conservação” com autoridades do Brasil, de acordo com documentos obtidos pela Mongabay pela Lei de Acesso à Informação (LAI).

A correspondência entre representantes do Vantara e autoridades brasileiras revela que as negociações, iniciadas pelo Vantara, começaram em agosto de 2025 e envolveram algumas espécies ameaçadas do Brasil. O zoológico, localizado no estado de Gujarat, no oeste da Índia, foi fundado em 2025 por Anant Ambani. Ele é o filho mais novo da pessoa mais rica da Índia, Mukesh Ambani, que dirige a Reliance Industries, um conglomerado atualmente avaliado em 167 bilhões de dólares (R$ 865 bilhões).

Um representante do Vantara enviou uma carta por e-mail a três funcionários do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio, em 30 de agosto de 2025. A identidade do remetente foi ocultada no documento enviado por LAI. O assunto da mensagem é: “Proposta de Parceria Estratégica de Conservação com o Governo do Brasil”.

O cabeçalho da carta usa o nome oficial do Vantara, Greens Zoological Rescue and Rehabilitation Centre Society (GZRRC). O documento é endereçado a Mauro Pires, presidente do ICMBio; Marcelo Marcelino de Oliveira, diretor do instituto; e Raul Fontoura, chefe da Divisão de Assuntos Internacionais.

Carta enviada pelo Vantara ao ICMBio propondo uma “parceria estratégica de conservação”, obtida pela Mongabay por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

A carta afirma que o Vantara está “bem posicionado para auxiliar outras espécies brasileiras que necessitam de intervenção ex situ urgente”, referindo-se à estratégia de conservação que consiste em manter animais em zoológicos e centros de reprodução, em vez de em seus habitats naturais.

A correspondência não cita espécies específicas, mas destaca os supostos benefícios de tal acordo. “O Brasil terá acesso à infraestrutura avançada, ao conhecimento técnico e às redes globais de conservação do Vantara, enquanto o Vantara ganha a oportunidade de contribuir de forma significativa para uma das nações com maior biodiversidade do mundo”, afirma.

O Vantara também convidou autoridades brasileiras a visitar suas instalações na cidade de Jamnagar, um complexo de 1.400 hectares administrado pelo braço filantrópico da Reliance Industries. Uma cópia da carta está disponível aqui.

O mico-leão-de-cara-dourada (Leontopithecus chrysomelas) é uma espécie ameaçada de extinção, endêmica do Brasil. Foto: © iagox212 via iNaturalist (CC BY-NC).

Alegações de tráfico e polêmica sobre ararinhas-azuis

Desde sua inauguração, em março de 2025, o Vantara tem sido alvo de acusações de que alguns animais importados pelo zoológico podem ter sido traficados ilegalmente. Em setembro de 2025, uma investigação conduzida pela Suprema Corte da Índia não constatou irregularidades nas aquisições de animais pelo Vantara.

O zoológico também foi alvo de inspeções da Cites, um tratado que regula o comércio internacional de espécies ameaçadas de extinção, assinado por 184 nações e pela União Europeia. Após visitar o Vantara em setembro de 2025, a Secretaria da Cites solicitou que a Índia “não emitisse mais nenhuma licença de importação” para espécies ameaçadas de extinção devido a discrepâncias entre os dados de exportação e importação do país.

Entre as transferências suspeitas mencionadas no relatório da Cites estão remessas de chimpanzés (Pan troglodytes) da República Democrática do Congo, leopardos-das-neves (Panthera uncia) da Alemanha e um bonobo (Pan paniscus) dos Emirados Árabes Unidos.

No entanto, essa recomendação para suspender as importações foi rejeitada em uma reunião da Cites no Uzbequistão, em novembro de 2025, com votos decisivos do Brasil, do Japão e dos EUA.

Em agosto de 2026, o Vantara anunciou um embargo voluntário de 12 meses para todas as importações de animais, em vigor desde 5 de junho de 2026. O zoológico não reconheceu qualquer irregularidade, nem explicou o que fará com os animais que já estão sob seus cuidados.

A instituição afirmou que, durante essa proibição, o Vantara vai se concentrar em “aprimorar a expertise em governança e os procedimentos de due diligence” e que “realizaria ações estruturadas de divulgação, buscaria acreditação internacional e faria análises comparativas”.

Uma inspeção realizada pelo Secretariado da Cites em 2025 identificou irregularidades em alguns dos animais adquiridos pelo Vantara, incluindo chimpanzés “criados em cativeiro” provenientes da República Democrática do Congo. Não há centros de criação em cativeiro para esses grandes primatas no país. Foto: © Ad Konings via iNaturalist (CC BY-NC 4.0).

Após o anúncio do Vantara, uma coalizão de 27 ONGs internacionais pediu ao zoológico indiano que encerrasse definitivamente todas as importações de animais selvagens e que se concentrasse na conservação de seus habitats e no cuidado e resgate dos animais em seus países de origem.

Diante das acusações contra o Vantara, especialistas dizem que a proposta de parceria com o Brasil envolvendo espécies ameaçadas merece uma análise cuidadosa.

“O princípio da precaução deve ser observado, dadas as preocupações generalizadas levantadas por várias organizações em diferentes países em relação a diversos animais”, disse Juliana Machado Ferreira, diretora-executiva da Freeland Brasil, organização sul-americana de monitoramento do tráfico de animais silvestres, em entrevista à Mongabay.

A carta do Vantara às autoridades brasileiras chegou em um momento delicado para as relações entre as duas partes: o Brasil estava insatisfeito com um carregamento de ararinhas-azuis enviado ao Vantara em 2023.

Espécie endêmica do Brasil, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) é muito cobiçada por colecionadores em todo o mundo, especialmente na Europa e nos EUA, graças à sua cor e raridade. Essas aves não podem ser vendidas legalmente, e não há estimativas atuais sobre seu preço no mercado ilegal. Dados históricos, no entanto, indicam que elas chegavam a ser vendidas por até US$ 40 mil (R$ 208 mil).

A caça ilegal para atender a este comércio lucrativo, somada à perda de habitat, levou à extinção da espécie: a ave foi declarada extinta na natureza em 2019. No entanto, mais de 300 indivíduos estão espalhados em centros de reprodução em todo o mundo, segundo o Ministério do Meio Ambiente e da Mudança do Clima.

Desde a década de 1990, o Brasil vem tentando devolver parte dessa preciosa população à natureza. Como parte desse esforço, em 2001 o país solicitou que todos os signatários da Cites consultassem as autoridades brasileiras antes de emitir qualquer licença de importação ou exportação para a ararinha-azul.

Uma ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) no Zoológico de São Paulo. A caça ilegal dessas aves levou à sua extinção na natureza. Foto: Zoológico de São Paulo.

O país também criou um programa de conservação para reintroduzir essas aves ao seu habitat de origem na Caatinga. O primeiro grupo, composto por 20 ararinhas, foi reintroduzido em 2022 — mas as aves foram recapturadas em novembro de 2025 devido a um surto de circovírus. O vírus causa a doença do bico e das penas em papagaios, araras e periquitos, e pode ser fatal.

“Foi o maior balde de água fria”, disse Luís Fábio Silveira, curador das coleções ornitológicas do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista à Mongabay. “O projeto estava indo bem, mas um animal foi infectado e contaminou todos os outros.”

Em 2023, o Vantara obteve 26 ararinhas-azuis da Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP), com sede na Alemanha. A transferência incomodou as autoridades brasileiras, pois as araras estavam sendo criadas como parte do programa de conservação e foram enviadas ao zoológico indiano sem o consentimento do Brasil.

Segundo Silveira, da USP, a transferência comprometeu o programa de reintrodução da espécie. “Para a reintrodução dar certo você tem que soltar muitos bichos e constantemente, às vezes durante décadas”, ele disse. “Precisava ter esse fluxo [de animais] e a ACTP não cumpriu o acordo com o governo.”

Em 2024, o Brasil encerrou a parceria com a ACTP devido à transferência não autorizada para o Vantara. A organização alemã já foi acusada de lucrar indevidamente com a captura, criação e venda de papagaios raros, de acordo com uma investigação de 2018 do jornal britânico The Guardian.

O Brasil também apresentou uma objeção formal a transferência das ararinhas-azuis em uma reunião do Comitê Permanente da Cites, em fevereiro de 2025. “A fim de gerar o maior benefício possível para a conservação da espécie, as transferências internacionais de espécimes da ararinha-azul só serão reconhecidas e autorizadas se estiverem em conformidade com o plano de manejo coordenado pelas autoridades brasileiras”, escreveram as autoridades ambientais brasileiras.

Representantes do Vantara visitaram o Brasil

Os documentos compartilhados por LAI com a Mongabay não incluem a resposta do Brasil àquela primeira carta de agosto, na qual o Vantara propôs uma parceria. Em outubro de 2025, no entanto, representantes do Vantara visitaram o Brasil, conforme confirmado pelo ICMBio em outra resposta a um pedido de LAI.

O ICMBio confirmou que “recebeu, em reunião, representantes do Vantara/GZRRC com o objetivo de discutir ações voltadas à conservação da ararinha-azul no território brasileiro, bem como eventual contribuição no Programa de Manejo Populacional.”

A agência disse não possuir uma lista dos participantes da reunião, mas informou que representantes de três órgãos governamentais se reuniram com a equipe do GZRRC: a Divisão de Assuntos Internacionais do ICMBio, a Assessoria Especial de Assuntos Internacionais do Ministério do Meio Ambiente e a Divisão de Biodiversidade do Ministério das Relações Exteriores (MRE). Também não se sabe quem representou o Vantara na reunião.

Em resposta à Mongabay por meio de LAI, o MRE confirmou ter participado da reunião e afirmou que “de fato, existe diálogo preliminar em curso entre o ICMBio e o Vantara para explorar maneiras de fortalecer atividades que visem à conservação e a reintrodução da ararinha-azul na natureza”.

No dia da reunião, 23 de outubro de 2025, um representante do Vantara enviou uma segunda carta ao ICMBio propondo uma cooperação com o Brasil especificamente para a conservação das ararinhas-azuis. O nome do remetente foi ocultado.

Anteriormente, em janeiro de 2025, a ACTP havia enviado 41 ararinhas-azuis de seu centro de reprodução em Berlim para uma instalação em Curaçá, na Bahia. O Vantara afirmou ter participado com “orientação especializada e recursos essenciais” na operação, que foi amplamente divulgada pela mídia indiana.

Capturas de tela da postagem do Instagram do Vantara sobre a transferência das ararinhas-azuis da ACTP para o Brasil em janeiro de 2025. Foto: Instagram (fair use).

Esta segunda carta foi endereçada a Marcelo Marcelino, então presidente interino e diretor do ICMBio. Nela, o Vantara propõe um “marco de cooperação” para orientar “esforços conjuntos no avanço da recuperação e da sobrevivência a longo prazo” da ararinha-azul. O acordo proposto inclui colaboração científica, apoio veterinário e técnico, infraestrutura de reabilitação, entre outros itens.

“Dentro desse quadro, o GZRRC se encarregará da reprodução, dos cuidados veterinários e do manejo das ararinhas-azuis mantidas em suas instalações na Índia”, informa o documento. O representante do zoológico também afirma que “as aves serão disponibilizadas para reintrodução em seu habitat natural no Brasil, como parte de um processo coordenado e cientificamente orientado, supervisionado conjuntamente pelo ICMBio e pelo GZRRC”.

Nesse contexto, diz a carta, o Brasil e o GZRRC poderiam dar um exemplo global “mostrando como a Índia e o Brasil podem se unir para liderar a próxima era de restauração da biodiversidade”.

Para Ferreira, da Freeland Brasil, os recursos do Vantara podem beneficiar o programa de reintrodução das ararinhas. Mas os termos de uma possível colaboração devem ser muito claros, especialmente após as recentes controvérsias sobre o envio das aves da ACTP para o Vantara e o surto de circovírus. Ela acrescenta que o Brasil “tem excelência” em termos de conhecimento técnico, e é capaz de seguir com o programa de conservação das ararinhas-azuis de forma independente.

Um casal de macacos-prego-dourados (Sapajus flavius), espécie brasileira ameaçada de extinção. Muitos primatas do país são alvo de cobiça no comércio ilegal internacional de animais silvestres. Foto: © elbysilva via iNaturalist (CC BY-NC 4.0).

Em uma resposta enviada em 13 de dezembro de 2025, o presidente do ICMBio, Pires, instruiu o Vantara a aderir formalmente ao programa brasileiro de manejo populacional das ararinhas-azuis, assim como outras organizações de conservação e reprodução de animais, como a Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (Azab) e a Fundação Loro Parque, nas Ilhas Canárias.

Liderado pelo ICMBio, o programa de manejo estabelece regras para a reprodução em cativeiro e a reintrodução das ararinhas-azuis na natureza. No final de cada ano, as organizações parceiras devem compartilhar dados com os coordenadores brasileiros detalhando nascimentos, transferências e mortes, bem como informações sobre a saúde e a alimentação dos animais.

Em sua resposta, Pires levantou uma preocupação: uma parte significativa da população de ararinhas-azuis vive fora do Brasil, o que “gerou dúvidas e expectativas”. Ele também observou que o Vantara não havia compartilhado nenhuma informação sobre o “estado de saúde, manejo e condições individuais” das 26 araras que recebeu em 2023, o que, segundo ele, “é essencial para orientar a tomada de decisões estratégicas no âmbito do Programa de Manejo Populacional”.

Em 24 de dezembro de 2025, o Vantara respondeu a Fontoura, chefe de relações internacionais do ICMBio, afirmando que consideraria aderir ao programa de conservação. Acrescentou ainda que poderiam discutir as condições das araras sob seus cuidados “durante a visita de você e de sua equipe a Jamnagar no início do próximo ano”.

Três meses depois, em março de 2026, o Vantara enviou ao ICMBio um relatório contendo informações como o sexo das ararinhas-azuis, o número de identificação dos microchips, o ano de nascimento, o estado de saúde e os resultados dos exames para doenças transmissíveis. A instituição também enviou fotos e descrições de algumas das aves sob seus cuidados, de seus laboratórios e instalações de saúde.

As araras-azuis-de-Lear (Anodorhynchus leari) são outra espécie ameaçada de extinção, nativa do bioma semiárido da Caatinga. Foto: © Nina Wenoli via iNaturalist (Domínio Público).

Visita brasileira ao Vantara é cancelada poucos dias antes

O ICMBio afirmou que a possível contribuição do Vantara para o programa de reprodução da ararinha-azul “está em discussão” e que “qualquer acordo que venha a ser firmado será entre os governos do Brasil e da Índia”, de acordo com uma resposta a um pedido de LAI datada de 13 de maio de 2026.

A Mongabay perguntou à embaixada da Índia no Brasil se o governo indiano estava ciente dessas discussões. Em resposta, um porta-voz afirmou que essas negociações eram entre uma “entidade privada” e o governo do Brasil.

A Mongabay também perguntou à autoridade indiana responsável pela gestão da Cites e ao Ministério do Meio Ambiente, Florestas e Mudanças Climáticas da Índia se o Brasil havia entrado em contato a respeito do projeto de conservação da ararinha-azul, mas não recebeu resposta até o momento desta publicação.

Como parte das discussões em andamento, autoridades ambientais brasileiras tinham uma visita marcada ao zoológico indiano em março de 2026. No entanto, poucos dias antes da data prevista para a partida, o ICMBio informou que teria que adiar a viagem “por motivo de força maior”.

Em um e-mail enviado à Mongabay, o ICMBio afirmou que não há “previsão ou indicativo de que a viagem venha a ocorrer”. O órgão não esclareceu o motivo do cancelamento da visita. Leia a resposta completa do instituto aqui.

Os micos-leões-dourados (Leontopithecus rosalia) estão ameaçados de extinção e vivem apenas na Mata Atlântica brasileira. Foto: © Tanja via iNaturalist (CC BY-NC).

Em maio de 2026, a Polícia Federal brasileira apreendeu três celulares e um computador do renomado especialista em aves Tony Silva, em uma investigação ligada ao Vantara.

Na época, uma nota da Polícia Federal informou que a ação fazia parte de uma investigação “que apurava o tráfico internacional de micos-leões-dourados e outras espécies ameaçadas da fauna brasileira”.

Silva, que se autodenomina especialista em papagaios e estava no Brasil para uma conferência de criadores de aves, foi condenado nos EUA na década de 1990 a sete anos de prisão por tráfico de animais silvestres.

Em maio, fontes informaram à Mongabay que Silva é suspeito de coordenar a compra de animais comercializados ilegalmente para o Vantara. O Vantara negou qualquer irregularidade em um e-mail enviado à Mongabay e afirmou que Silva “foi contratado [para trabalhar para o Vantara] por um prestador de serviços independente para prestar consultoria limitada”. A instituição se recusou a fornecer mais detalhes sobre o trabalho dele para o zoológico.

A investigação continua em andamento.

Dadas as atuais denúncias e investigações no Brasil envolvendo o Vantara, o país deve ser transparente sobre qualquer acordo a ser assinado com o zoológico, disse Ferreira, da Freeland Brasil. “Devemos tomar cuidado para garantir que isso não se torne uma forma de facilitar o envio de animais para o Vantara ou servir como uma estratégia de greenwashing.”

O Vantara não respondeu às perguntas da Mongabay sobre as negociações em andamento com o Brasil, os objetivos dessas negociações e em que estágio elas se encontram.

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Este texto foi originalmente publicado pelo Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.


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