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País busca ampliar relação com o Oriente Médio e atrair investimento do Ocidente, mas protestos e denúncias contra a exploração dos trabalhadores incomodam comunidade internacional

Durante a última rodada de jogos das eliminatórias europeias para a Copa do Mundo de 2022, jogadores de Holanda, Alemanha e Noruega protestaram contra as condições dos operários que trabalham nas obras do Catar. De maneira semelhante ao que aconteceu no Brasil com a Copa América, os noruegueses cogitam um boicote à competição. Essa possibilidade será definida ainda em junho, por meio de um congresso organizado pelos clubes do país.

De acordo com Marco Bettine de Almeida, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, é provável que esse boicote não aconteça, assim como no caso da Copa América. “Quem é a Noruega no cenário do futebol?”, questiona. “A força da Fifa dentro do futebol é muito grande, a maioria dos países não tem força suficiente para uma mudança que, em tese, foi do colegiado da Fifa e tem representantes desses países.” Para o professor, é mais viável questionar a corrupção na escolha do país sede, mas isso não deve acontecer.


Violação dos direitos humanos

Os protestos e a possibilidade de boicote são motivados por denúncias da Anistia Internacional, que acusa o Catar de violar os direitos humanos nas obras para a Copa. Além da baixa remuneração, os trabalhadores vivem em alojamentos precários e superlotados, em regimes de trabalho excessivo dentro de um país que registra temperaturas de 50ºC no verão. Esses são apontados como os principais motivos pela morte de cerca de 6,5 mil pessoas desde o início das construções. Justamente pelas temperaturas elevadas, o mundial será disputado durante o inverno no país, em novembro de 2022, e não em junho, como ocorre normalmente.

Tanto Fifa quanto Catar contestam o número de mortos e ressaltam as mudanças feitas nas leis trabalhistas. A partir dessas mudanças, foi estabelecido um salário mínimo com ajuda de custo e melhorias estruturais nos alojamentos e canteiros de obras. Também está estabelecida a possibilidade de os trabalhadores, a maioria estrangeiros indianos e bengalis, se demitirem, o que antes só era possível com a autorização do patrão. A Anistia Internacional ainda questiona o cumprimento das leis adotadas.

Almeida acredita que o número de mortos deve ser relativizado e não analisado de maneira fria. “Meu ponto de vista seria de pensar todo o ataque às instituições que a Fifa promove, como, por exemplo, os locais onde as pessoas são desalojadas, as ações policiais um tanto quanto truculentas e ações em morros e periferias, promovendo uma gentrificação”, afirma. 

“Pegar o número de trabalhadores mortos e fazer uma comparação de nove [no Brasil] e 6,5 mil [no Catar] tem que ser colocado entre aspas, para fazer uma análise mais ampla de como é a Fifa dentro de um Estado nacional.” Para o professor, o processo de urbanização forçado, a não melhoria das condições de vida após o evento e a limpeza étnico-racial promovida pelos países são aspectos que devem ser considerados.

Copa do Mundo: um produto à venda

Almeida afirma que a Copa do Mundo é um produto comercializado pela Fifa. “Para vender esse produto, está a ideia de soft power, isto é, a nação que recebe o evento vai estar no holofote do mundo e vai ter a possibilidade de constituir parceiros políticos e econômicos.” A ênfase da Copa está no consumo do espetáculo esportivo, das marcas patrocinadoras e dos turistas.

O professor utiliza o conceito de soft power, de Joseph Nye Jr., para analisar os interesses dos países em sediar o evento. A partir desse conceito, o país promove valores culturais e políticos para exercer sua influência, sem a necessidade de impor a força militar. “A relação diplomática nesses eventos é muito grande, dada a presença dos chefes de Estado nos jogos de suas seleções”, afirma. Segundo Almeida, os interesses do Catar envolvem a abertura para os países do Ocidente, o fortalecimento da relação com o Oriente Médio e uma ideia de transformação da visão ocidental sobre os povos árabes.

Na análise do professor, há um certo incômodo das nações islâmicas, que enxergam a mercantilização da religião por parte do Catar, o que pode interferir na relação com esses países. Em relação ao Ocidente, o Catar abre as portas para novas parcerias comerciais e diplomáticas e para o investimento econômico. Para Almeida, entretanto, casos como as denúncias de trabalho análogo à escravidão e violação dos direitos humanos podem atrapalhar a imagem e os interesses do país. “Há um incômodo mundial, entre os países desenvolvidos, sobre esse aspecto”, afirma.