Após passarem por um programa de reabilitação, dez ursos-cinzentos morreram após um ano de soltura na natureza
Um programa realizado entre 2019 e 2023, responsável pelo monitoramento e reabilitação de 14 ursos-cinzentos órfãos, revelou que dez desses animais morreram após um ano de soltura na natureza. A descoberta foi publicada no jornal Frontiers, no começo deste mês.
Os filhotes foram criados em cativeiro e posteriormente soltos quando tinham cerca de um ano de idade; 13 deles foram monitorados via transmissores de satélite após a soltura. Porém, dos 13, apenas 12 tiveram destinos conhecidos: dois sobreviveram (17%) ao período de monitoramento e 10 morreram (83%).
O urso restante teve destino desconhecido, presumivelmente devido a uma falha na coleira.
Ademais, foi concluído que nove das dez mortes ocorreram antes do primeiro período de hibernação em tocas, e a décima ocorreu logo após a saída da toca.
Segundo a Dra. Lana M Ciarniello, especialista em ursos e líder da pesquisa, as mortes decorreram de conflitos entre humanos e ursos (50%), abates ilegais (20%) e mortes causadas por ursos selvagens (30%).
No entanto, a pesquisadora revelou que as descobertas a fizeram questionar algo mais importante: “A reabilitação de ursos-cinzentos funciona como uma ferramenta ética de conservação ou, principalmente, como uma forma de manejo motivada pela compaixão? Além disso, podemos aprender com esses resultados para preparar melhor os ursos órfãos para o sucesso após a soltura?”.
Anteriormente ao trabalho de Ciarniello, pesquisadores acreditavam que o primeiro passo para a reabilitação de ursos era maximizar o peso do animal no momento de sua soltura. Assim, isso aumentaria suas chances de sobrevivência ao reduziria o risco de predação.
Contudo, o resultado da pesquisa sugere que seguir essa estratégia de forma muito rigorosa pode criar uma barreira fisiológica crítica.
Durante o programa de reabilitação, os ursos atingiram 3,5 vezes o tamanho típico de animais de um ano criados na natureza. Acredita-se que por isso, foram incapazes de atender às suas necessidades calóricas após a liberação. Alguns ursos também pareciam não temer os humanos quando estavam em busca de comida — algo que possivelmente contribuiu para algumas casualidades.
Felizmente, o trabalho de Ciarniello pode ajudar próximos planos de reabilitação para os ursos-cinzentos.
“Para evitar isso, os centros de reabilitação devem adotar um manejo que minimize ao máximo o contato humano. Os recintos devem ser amplos e estar isolados, tanto geográfica quanto acusticamente, da atividade humana e de outros animais silvestres em cativeiro.
Deve-se eliminar a entrada de pessoas para a alimentação, substituindo o manejo direto por sistemas de fornecimento remoto de alimentos. O monitoramento deve ser realizado exclusivamente por meio de vigilância remota”, explica a especialista.