Impulsionada pelo ‘super El Niño’, a redução das chuvas em Roraima tem diminuído os níveis dos principais rios do estado, cortando o fluxo natural das cachoeiras sazonais que se formam nas serras. É o caso da queda d’água conhecida como Véu de Noiva
Por Felipe Medeiros – Mongabay | “Para quem vive do rio, a água não é só paisagem: ela também é estrada, trabalho e renda”. É assim que o guia turístico Fredson Guedes, conhecido como “Tarzan”, aprendeu a enxergar a natureza que o cerca ao longo de seus 55 anos de vida.
“Eu trabalho totalmente com a natureza e dependo muito dela. Um dia desses, eu estava na Serra Grande [destino de ecoturismo no município de Cantá, em Roraima], trabalhando na cachoeira Véu de Noiva, mas agora já não tem mais cachoeira. Secou.”.
Na região amazônica da Serra Grande, a aproximadamente 50 quilômetros da capital Boa Vista, a cachoeira sazonal que ganha o nome de Véu de Noiva recebe turistas de maio até o começo de setembro, período chuvoso no estado. Mas isso mudou em 2026: ainda era julho quando a água que enfeita a paisagem já não estava mais lá.
Segundo Fábio Wankler, geólogo e professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), o ‘super El Niño’ está por trás dessas mudanças. O fenômeno, atipicamente intenso este ano, responde por uma série de alterações no padrão climático que, em vários pontos do país, “têm causado períodos de seca mais prolongados e intensos”, disse.
Os efeitos são sentidos no dia a dia. A queda d’água, cujas formas lembram o tecido leve e rendado de um vestido de casamento, está entre as principais rotas percorridas por Fredson, que, ao menos duas vezes por semana, navega o rio Branco até lá. O mesmo rio banha e abastece a população de Boa Vista, ziguezagueia sob os pilares da ponte dos Macuxis e dá vida a diversas praias de água doce na Região Metropolitana da capital.
A Mongabay fez o percurso turístico até a cachoeira no final de julho, que, de forma atípica, seria a última expedição a ser liderada pelo guia em 2026. A falta de chuva era tamanha que a viagem quase foi adiada. “Se não tiver água, não compensa levar vocês”, confessou Fredson.

Sorrateiras, as mudanças no clima não demoraram a dar as caras durante o trajeto: enquanto se descia o rio Branco, bancos de areia e trechos rasos exigiam um avanço cuidadoso; na volta, em certo momento, a embarcação chegou a encalhar devido ao baixo nível da água.
As alterações percebidas por guias e moradores refletem a queda nos níveis de precipitação. De forma geral, ao longo de todo o ano, o volume de chuvas em Roraima tem permanecido abaixo das médias históricas, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A situação anômala vale inclusive para os meses historicamente mais chuvosos, como junho e julho.
A sazonalidade do ponto turístico está diretamente relacionada a um regime de chuvas estável e às características geológicas da região. Quando a água não chega e se acumula, não há cachoeira para contemplar.
“A água fica armazenada principalmente em falhas e fraturas [no rochedo] e em solos rasos e úmidos no alto da serra. O reabastecimento destes ‘reservatórios’ ocorre durante a estação chuvosa, enquanto a floresta evita a rápida evaporação da água”, explicou Wankler.
Ivaldo Araújo, proprietário da fazenda onde fica a cachoeira, disse que o sumiço das chuvas o atingiu no bolso. Em um ano normal, segundo ele, “a alta temporada dura cerca de cinco meses e recebemos, em média, 6 mil visitantes”. Recentemente, porém, o número de turistas caiu pela metade, fruto de apenas três meses de chuva. Ivaldo estimou o prejuízo em cerca de R$ 500 mil.
Fredson também deixou de ganhar dinheiro. “Eu tirava R$ 1.200 por semana trabalhando apenas dois dias [sábado e domingo]”, recordou. Agora, com o encerramento precoce das visitações à queda d’água, ele embolsa cerca de R$ 800. “Eu me adapto: faço passeios para as praias, alugo caiaques e pranchas de stand up e organizo trilhas, seja qual for o dia da semana”, disse à Mongabay.
Segundo Elen Dias, técnica em turismo e empresária do setor, a queda nas chuvas interrompeu um roteiro de visitação que estava “em alta” nos últimos anos, e do qual toda uma rede de pessoas depende para garantir seu sustento. “Por trás de cada passeio estão barcos, guias, transportadores, restaurantes, hospedagens e o comércio local”, disse. “É nos dias de chuva que a economia fica aquecida.”

Crise vai além do turismo
De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês), órgão dos Estados Unidos cujo monitoramento meteorológico é utilizado mundialmente, o El Niño de 2026 tem 75% de chance de ser o mais intenso registrado desde 1950 — o que lhe rendeu a alcunha de “super”.
O fenômeno ocorre com o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial e ganhou força a partir de junho, intensificando-se em agosto. A previsão é de que os efeitos se estendam até o início de 2027, alterando a distribuição e o regime das chuvas por vários meses, não apenas na Amazônia. Como consequência, segundo Wankler, os riscos ambientais tendem a se acumular.
O geólogo explica que a lista de possíveis consequências inclui “aumento de queimadas e incêndios florestais”, bem como “uma crise hídrica regional que pode resultar em desabastecimento e prejuízos à produção agropecuária”.
No início de setembro, em função dos distúrbios climáticos estimados para 2026, o governo de Roraima decretou situação de emergência e criou um gabinete integrado para coordenar ações de prevenção. A gestão estadual promete aumentar o efetivo de brigadistas para atuar em todos os 15 municípios roraimenses e perfurar poços artesianos, a fim de evitar a escassez de água. A medida vale por 180 dias.

Ato contínuo, na metade de setembro, uma equipe do Ministério da Saúde foi a Roraima “para avaliar a capacidade de resposta do estado aos impactos da seca e da estiagem sobre a saúde da população e o funcionamento dos serviços de saúde”. De acordo com Wankler, a crise sanitária pode ocorrer sobretudo devido à fumaça gerada por incêndios na região amazônica.
No mês de agosto, segundo o governo federal, foi registrado “o maior número de focos de calor da série histórica para o período em Roraima”, com 87 ocorrências contabilizadas até 27 de agosto — superando o recorde anterior para o mesmo mês, de 78 focos, registrado em 2023.
“É urgente modernizar a forma como os recursos hídricos são planejados e administrados. E é preciso desenvolver ações, como sistemas de alerta antecipado, planos de contingência, fundos para que as populações reconstruam suas atividades e incentivo à diversificação das fontes de renda para comunidades dependentes de uma única atividade produtiva”, concluiu Wankler.
Para Fredson, que faz parte dos diretamente impactados pelas mudanças climáticas, as transformações na paisagem de Roraima — assim como o fim do ciclo natural da cachoeira — também chegaram antes do esperado. “Antigamente eu pensava assim: ‘não, vai ser só [com os] nossos netos’. Mas [a crise climática] já vai começar com a gente. Agora, no presente. Agora mesmo nós já estamos sentindo isso”, lamentou.

Este texto foi originalmente publicado pelo Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.