Pesquisadores fizeram um panorama do tráfico de animais na Amazônia por meio de uma ampla revisão de estudos científicos, ajudando a preencher a lacuna de informações sobre o tema na região
Por Fernanda Wenzel – Mongabay | Berço da maior biodiversidade do mundo, a Amazônia brasileira é um dos principais polos do tráfico internacional de animais silvestres. Todos os dias, milhares de animais são retirados da floresta para serem vendidos em outras partes do país e no exterior. Apesar de seu papel central nesse mercado ilegal, ainda faltam informações sobre o tráfico de animais na região.
Os dados sobre apreensões de animais estão dispersos em órgãos municipais, estaduais e federais. Além da ausência de um sistema integrado, os vastos territórios amazônicos e a falta de controle nas fronteiras dificultam a produção de inteligência sobre este crime ambiental.
“Todo rio que você for na Amazônia vai ter eventos de tráfico”, disse à Mongabay o especialista em inteligência de conservação Antônio de Carvalho, da ONG de conservação WCS Brasil.
A organização está desenvolvendo um observatório global de tráfico de animais, que vai usar inteligência artificial para coletar informações em sites de notícias e pesquisas acadêmicas. O objetivo é apoiar o trabalho de investigadores, agentes ambientais e jornalistas.
“Muitos dados de apreensões são perdidos porque os animais são soltos ali mesmo, no local da apreensão, e aquilo não vira nem estatística institucional”, explicou Carvalho.

Em mais uma tentativa de preencher esse vazio de informações e ajudar a definir estratégias para proteger a fauna brasileira, pesquisadores analisaram 34 artigos científicos sobre o tráfico de animais silvestres na Amazônia para identificar as principais causas, rotas e espécies visadas. O estudo foi publicado em julho na revista Human Ecology.
“Eu sentia que faltava uma visão ampla [sobre o tema], como uma fotografia de cima”, disse à Mongabay a pesquisadora Marta Custódio Lopes, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
O estudo identificou 137 espécies de animais silvestres sendo comercializadas ilegalmente na Amazônia brasileira. A maior parte delas era de aves (36,4%), seguidas por mamíferos (28,4%), répteis (18,9%) e peixes (15,3%).
“Em todo o Brasil, o que mais move o tráfico são as aves, e na Amazônia eu encontrei uma grande diversidade de espécies de aves [sendo comercializadas ilegalmente]”, relatou Lopes.
Ao contrário de outras regiões do país, o comércio de animais de estimação não é o único fator que impulsiona o tráfico de aves na Amazônia. “Havia muitas espécies de aves de grande e médio porte que eram utilizadas na alimentação, o que é uma característica mais local”, ela explicou.
A alimentação também é um vetor do tráfico de tartarugas e seus ovos, que são consumidos no Brasil e contrabandeados para os países vizinhos. Segundo Carvalho, uma rota bem conhecida atravessa a fronteira com o Peru e chega até países asiáticos. “Os filhotes de Podocnemis [gênero de tartarugas de água doce] chegam na Ásia e entram em fazendas de produção, onde são alimentados como se fossem peixes. Aí eles vão crescendo e são abatidos”, disse ele.
Fins medicinais, espirituais e religiosos também aparecem entre os principais motivadores do tráfico de animais na Amazônia, segundo a pesquisa de Lopes.

“Achei interessante que mais de um terço das espécies traficadas são para fins mágico-religiosos”, mencionou a consultora em biodiversidade Sandra Charity em entrevista à Mongabay. “Mas senti falta de resultados que justifiquem uma finalidade voltada ao turismo, por exemplo, experiências de ‘ecoturismo’ de nadar com botos mantidos em cativeiro, assim como as dezenas de mini-zoos espalhados pela Amazônia.”
Em 2020, Charity e Juliana Ferreira, diretora-executiva da Freeland Brasil, fizeram um relatório abrangente sobre o tráfico de animais silvestres no Brasil para a ONG internacional Traffic. Elas recorreram a diversos dados, como apreensões de animais silvestres pelo Ibama, reportagens na imprensa e entrevistas com agentes ambientais.
O estudo de Lopes, por sua vez, baseia-se exclusivamente em artigos revisados por pares e publicados em revistas científicas. O resultado é que o estudo ficou restrito às regiões amazônicas mais acessíveis aos pesquisadores. “A gente tem vários pontos cegos onde não encontramos artigos”, comentou Lopes. “O pesquisador não tem dinheiro para fazer pesquisa muito distante das calhas dos rios ou das capitais.”
Países vizinhos servem como rotas de exportação
Muitos traficantes utilizam os países vizinhos como plataformas de exportação da fauna brasileira. Um exemplo é o cascudo-zebra (Hypancistrus zebra), um peixe criticamente ameaçado de extinção, que só existe em um trecho do rio Xingu, no Pará. Muito cobiçada como peixe ornamental, a espécie percorre dois mil quilômetros nas mãos de traficantes para chegar à tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.
“Ele sai lá do Xingu e atravessa todo o estado do Amazonas para chegar à fronteira, e depois que entra na Colômbia ele é comercializado para países como os Estados Unidos e a Alemanha”, disse Carvalho. No início de setembro, a Mongabay mostrou que o cascudo-zebra também estava à venda no Mercado Chatuchak, em Bangcoc, na Tailândia. Segundo Carvalho, os ribeirinhos recebem cerca de um real por cada peixe, que é vendido por até 300 reais nos Estados Unidos. “Ele se torna muito valioso.”

O município amazonense de Tabatinga, no Brasil, e a cidade de Leticia, na Colômbia, são separados por uma única rua e considerados “pontos de passagem obrigatórios na rota do tráfico”, segundo o relatório de 2020 da Traffic. “Nesta região de fronteira, animais silvestres como quelônios de água doce e peixes para consumo são transportados e vendidos em grandes quantidades”, afirma o relatório.
Outras importantes rotas de tráfico passam pela Guiana e pelo Suriname. Ao contrário do Brasil, esses países permitem a captura e o comércio de determinadas quantidades de animais silvestres. Segundo especialistas, animais capturados ilegalmente no Brasil são “lavados” nesses países e, em seguida, enviados para outros mercados internacionais como se fossem legais.
“As rotas são determinadas pela relativa facilidade de lavagem da procedência ilegal de muitas espécies pan-amazônicas”, disse Charity. Segundo ela, o tráfico de animais na Amazônia brasileira tem estado cada vez mais ligado a outros crimes ambientais, como o desmatamento ilegal, e às facções criminosas.
Este texto foi originalmente publicado pelo Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.