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Por Shanna Hanbury em Mongabay

  • Sessenta cientistas assinaram uma carta pedindo que instituições políticas limitem a pesquisa em geoengenharia solar para que ela não possa ser utilizada unilateralmente por países, empresas ou indivíduos.
  • Intervenções de longo prazo desse tipo de geoengenharia em nível planetário são inéditas e extremamente perigosas, dizem os acadêmicos que assinam a carta, e não deveriam ser experimentadas ao ar livre, receber patentes, financiamentos públicos ou apoio internacional.
  • A principal proposta da geoengenharia solar – injetar bilhões de partículas de aerossol na estratosfera da Terra – poderia ter consequências graves, indesejadas e imprevisíveis. Os modelos sugerem que ela pode secar a Floresta Amazônica.
  • Além disso, se a geoengenharia fosse utilizada, seria preciso mantê-la por décadas. A interrupção súbita resultaria num choque terminal para a Terra, segundo os cientistas, com um aumento repentino de temperatura devido às emissões atmosféricas de carbono existentes que teriam sido mascaradas pelo resfriamento causado pelos aerossóis.

Bloquear os raios solares com um escudo artificial de partículas lançadas em grandes altitudes na atmosfera da Terra para atenuar as temperaturas globais é uma “solução” tecnológica que ganha tração como último recurso para conter a crise climática – mas precisa ser detida, escreveu uma coalizão de mais de 60 acadêmicos em uma carta aberta e artigo lançado na publicação online WIREs (Wiley Interdisciplinary Reviews) Climate Change em janeiro.

“Devemos restringir algumas coisas logo no início”, disse à Mongabay um dos autores principais do artigo, Aarti Gupta, professor de Governança Ambiental Global na Universidade de Wageningen, na Holanda. Gupta colocou a geoengenharia solar na categoria de tecnologias de alto risco, como a clonagem humana e as armas químicas, que precisam ser proibidas. “Pode ser possível fazer, mas é muito arriscado.”

A cor do céu pode mudar. A composição química da camada de ozônio e os oceanos podem ser alterados de forma permanente. A fotossíntese, que depende da luz solar, pode desacelerar, possivelmente prejudicando a biodiversidade e a agricultura. E os padrões climáticos globais podem mudar de forma imprevisível.

Apesar dos potenciais perigos, não existe hoje nenhum mecanismo para impedir que um indivíduo, empresa ou país lance uma missão solo, disse Gupta. Para evitar isso, a carta aberta sugere cinco medidas de proteção urgentes: nenhum experimento ao ar livre, nenhuma implementação, nenhuma patente, nenhum financiamento público e nenhum apoio de instituições internacionais como as Nações Unidas.

A erupção do vulcão Monte Pinatubo em 1991 nas Filipinas lançou na estratosfera sulfato e outras partículas de aerossol capazes de esfriar a Terra. Imagem de Sgt. Val Gempis.

Geoengenharia solar: riscos demais

Mais de 60 acadêmicos assinaram a carta, incluindo Dirk Messner, presidente da Agência Ambiental Alemã; Mike Hulme, climatologista da Universidade de Cambridge; Åsa Persson, diretora de pesquisa do Instituto Ambiental de Estocolmo; e o premiado autor Amitav Ghosh.

Os cientistas sabem que as partículas de aerossol podem resfriar temporariamente a superfície da terra. As cinzas finas da erupção do Monte Pinatubo em 1991 – a maior erupção vulcânica dos últimos cem anos – reduziram as temperaturas globais em 0,5 graus Celsius por quase dois anos.

Mas para compensar o aquecimento global causado pelas emissões de carbono, um escudo de partículas de aerossol precisaria ser continuamente reabastecido durante várias décadas, contrariando um objetivo da Convenção das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas para prevenir “a perigosa interferência humana no sistema climático.”

Se esse abastecimento fosse interrompido de forma abrupta, o efeito de resfriamento da nuvem de aerossol protetora diminuiria rapidamente, permitindo que todos os gases de efeito estufa acumulados na atmosfera afetassem o planeta de uma só vez. As temperaturas globais poderiam disparar subitamente quatro a seis vezes mais rápido que a recente mudança climática, de acordo com um estudo de Yale de 2018, publicado na Nature Ecology & Evolution.

“Como poderíamos garantir às futuras gerações que nossos sistemas de governança são tão robustos a ponto de evitar um choque pela interrupção [do escudo]?”, questiona Gupta.

De acordo com especialistas em políticas públicas que publicaram a carta aberta, um consenso internacional que abranja várias gerações simplesmente não é viável em termos democráticos entre todos os governos do mundo.

A NOAA [Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA] está usando balões como este (mostrado na foto em time-lapse) para medir o tamanho e o número de aerossóis na atmosfera; aerossóis produzidos pelos seres humanos já causam grandes problemas ambientais na Terra, incluindo a vasta nuvem marrom de poluição sobre a Ásia, que está relacionada a distúrbios nas monções. Foto: Patrick Cullis, CIRES/NOAA GML.

Da ficção científica à ciência real

Propostas de geoengenharia de grande escala se limitaram à ficção científica por décadas. Mas nos últimos anos, essas tecnologias se infiltraram nas principais discussões sobre o clima como uma opção política de última hora, atraindo atenção e milhões em financiamento.

Em 2019, o Congresso dos Estados Unidos concedeu à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) US$ 4 milhões para pesquisa em geoengenharia solar. Em março de 2021, as Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA pediram que o país investisse entre US$ 100 a US$ 200 milhões. O bilionário Bill Gates fez doações pessoais à principal unidade de pesquisa em geoengenharia solar, da Universidade de Harvard.

David Keith, um dos principais pesquisadores que lideram a iniciativa de geoengenharia solar e professor de Física Aplicada em Harvard, respondeu à carta aberta dizendo que compartilha das preocupações sobre a incerteza, o risco moral e os desafios de governança, mas discorda de uma proibição permanente da geoengenharia solar.

Poluição causada por aerossóeis sobre o leste da China. O uso crescente da queima de carvão e madeira para aquecer as residências durante o inverno na Ásia costuma provocar uma nuvem que se espalha por regiões inteiras, como vista nesta imagem do satélite Terra em 9 de fevereiro de 2004. A topografia acentua o efeito, uma vez que a região tem formato de tigela e é cercada por terrenos montanhossos a oeste, o que impede que a poluição se disperse. Outros terrenos do globo, como a Cordilheira dos Andes, poderiam ter impactos imprevistos sobre os aerossóis atmosféricos à deriva. Imagem: Jacques Descloitres, MODIS Rapid Response Team, NASA/GSFC.

“É difícil justificar um acordo permanente de não uso de uma tecnologia que – segundo a literatura e resumos do IPCC [o Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas] e da Academia Nacional [de Ciência] dos EUA – podem reduzir substancialmente os riscos climáticos”, disse Keith à Mongabay por e-mail. “Parece um exagero sugerir que devemos proibir a pesquisa sobre tecnologias potencialmente úteis porque os mecanismos de governança não são ideais”. Ele acrescentou que as preocupações de governança também surgiram com a tecnologia de mRNA responsável por várias vacinas contra a covid-19, e com o desenvolvimento da internet, mas nenhum dos receios justificou uma proibição permanente.

No ano passado, a equipe de Harvard foi obrigada a cancelar seu primeiro teste de geoengenharia ao ar livre, que seria feito em parceria com a Corporação Espacial da Suécia, após um protesto público no país, liderado pelo povo indígena Sami.

“É possível modelar e fazer experimentos, mas só podemos conhecer os efeitos finais da geoengenharia solar em escala planetária depois de sua implantação”, alertou Frank Biermann, professor de governança global de sustentabilidade na Universidade de Utrecht e um dos responsáveis pela iniciativa da carta, em entrevista por telefone; ele apoia a oposição liderada pelos Sami contra os voos de teste de alta altitude de Harvard. “É uma proposta extremamente arriscada”, concluiu.

Partículas de poluição do ar como as da nuvem marrom da Ásia podem viajar ao redor do mundo e se distribuírem de forma desigual pelos ventos, com impactos variados. Em abril de 2001, os satélites da Nasa observaram esta enorme tempestade de poeira sobre a China. A parte mais densa da nuvem de aerossol viajou para o leste sobre o Japão, o Oceano Pacífico e, em uma semana, chegou aos Estados Unidos. Modelar o comportamento dos aerossóis com precisão é muito difícil, já que isso requer um profundo conhecimento dos tipos e misturas de partículas, seu tamanho, cor e até mesmo forma. Imagem: Nasa.

Possíveis impactos planetários

A geoengenharia solar reduziria a quantidade de radiação solar que alcança a superfície do planeta, e portanto teria efeitos profundos. O planeta se resfriaria, mas não uniformemente. A região Amazônica poderia se tornar mais quente e seca, de acordo com modelos de computador, aumentando a probabilidade de grandes incêndios florestais e de mortandade da floresta, levando a uma possível liberação massiva de carbono antes sequestrado.

Esta enorme liberação de carbono na atmosfera significaria um desastre para o planeta, aumentando dramaticamente o aquecimento global e reduzindo a biodiversidade. Esses impactos poderiam acabar sendo piores do que os cenários moderados de mudança climática do IPCC.

Dependendo do tipo de partículas de aerossol usadas para formar o escudo, a implantação poderia também tornar mais fina ou mais espessa a camada de ozônio, com consequências desconhecidas. Sem uma forte redução das emissões de carbono, a acidificação oceânica continuaria piorando.

Reduzir a radiação solar que chega à superfície da terra também seria contraproducente, frustrando a produção de energia solar, uma das alternativas mais promissoras para substituir os combustíveis fósseis.

Embora os defensores da geoengenharia solar argumentem que a nova tecnologia só pode ser bem sucedida se for realizada juntamente com uma agressiva descarbonização, os críticos acreditam que sua utilização prejudicaria os esforços de redução de emissões de carbono. Eles rebatem dizendo que os lobistas da indústria, os negacionistas das mudanças climáticas e alguns governos utilizariam a solução de geoengenharia como arma política, posicionando-a como uma forma de postergar a regulação do carbono.

“A melhor opção é manter o gênio na garrafa e não começar a pesquisar essas tecnologias tão perigosas”, diz Biermann. “Em vez focar nessas fantasias de tecnologias que não existem, precisamos nos concentrar no verdadeiro problema, que é a descarbonização.”

Imagem do banner: Um voo de teste de tecnologia de geoengenharia com um balão estratosférico foi planejado por uma unidade de pesquisa de Harvard em parceria com a Corporação Espacial Sueca. Ele foi adiado após um protesto público. Imagem: Corporação Espacial Sueca.