A chave para as sociedades de milhões de indivíduos está no que os insetos perderam ao longo da evolução
O segredo por trás das imponentes sociedades das térmitas – colônias que abrigam milhões de indivíduos em uma organização complexa – pode estar não no que esses insetos adquiriram ao longo da evolução, mas no que perderam. Uma pesquisa internacional liderada pela Universidade de Sydney desvendou que a monogamia dos reis e rainhas, pedra angular dessas sociedades, está intimamente ligada a uma simplificação genômica. O estudo traça a jornada evolutiva que transformou ancestrais solitários, semelhantes a baratas, nos engenheiros de ecossistemas altamente sociais que conhecemos hoje.
A transformação começou com uma mudança de cardápio. Ancestrais das baratas domésticas atuais começaram a se alimentar de madeira morta, um recurso nutritivamente pobre. Especializar-se nessa dieta desencadeou uma cascata de adaptações. Ao comparar genomas de alta qualidade de baratas, baratas-de-madeira (parentes próximos que vivem em pequenos grupos familiares) e diversas espécies de térmitas, os pesquisadores notaram um padrão intrigante: os genomas das térmitas e baratas-de-madeira são menores e mais simples.
Muitos genes associados ao metabolismo, digestão e, surpreendentemente, à reprodução, foram perdidos. À medida que a cooperação e o compartilhamento de alimentos dentro da colônia se tornaram a norma, a pressão para manter certas capacidades genéticas diminuiu. O estudo, publicado na revista Science, revela que a complexidade social avançou em paralelo com uma redução na complexidade genética.
Uma das perdas genéticas mais reveladoras ocorreu nos genes responsáveis pela formação da cauda (flagelo) dos espermatozoides. Diferente da maioria dos animais, incluindo as baratas, os espermatozoides das térmitas são imóveis e não possuem cauda. Essa característica não é a causa da monogamia, mas um forte indicador de que ela já estava estabelecida. Em espécies onde as fêmeas acasalam com múltiplos machos, a competição espermática favorece os gametas mais rápidos e nadadores.
Com o advento da monogamia estrita nos ancestrais das térmitas, essa competição desapareceu. Sem pressão evolutiva para manter espermatozoides móveis, os genes responsáveis por essa função se perderam ao longo das gerações. A monogamia, portanto, precede e possibilita a simplificação genética observada.
A organização interna das colônias também foi elucidada. O destino de uma jovem térmita – se será uma obreira estéril ou um futuro rei ou rainha reprodutor – é determinado nos primeiros estágios de desenvolvimento pela nutrição. Larvas que recebem alimento abundante das irmãs mais velhas desenvolvem um metabolismo energético alto e se tornam obreiras. Aquelas que recebem menos comida crescem mais devagar inicialmente, mantendo o potencial para se tornarem reprodutores mais tarde na vida.
Esses ciclos de retroalimentação baseados no compartilhamento de alimento permitem que a colônia ajuste sua força de trabalho de maneira precisa, sustentando sociedades estáveis e eficientes por longos períodos. Quando um casal real morre, a monogamia persiste: seu papel é geralmente assumido por um de seus próprios descendentes, intensificando a relação genética dentro da colônia.
A pesquisa oferece uma nova perspectiva sobre o debate científico acerca dos requisitos para o surgimento de sociedades complexas. Ao combinar genômica, fisiologia e estudo do comportamento, o trabalho demonstra que, no caso das térmitas, a monogamia e a alta relação genética foram fundamentais para essa transição. A evolução social, conclui-se, nem sempre é uma história de aquisição de novas ferramentas genéticas. Pode ser, também, uma história de perdas estratégicas que libertam os organismos para novas formas de cooperação em escala monumental.