Apoio: Roche

Saiba onde descartar seus resíduos

Verifique o campo
Inserir um CEP válido
Verifique o campo
Lightbulb

Entenda o que é normose e como a patologia da normalidade atinge pessoas no mundo inteiro

Normose: você já parou para pensar se também foi acometido pela anomalia da normalidade? Algumas pessoas acreditam que o mundo pode estar sendo afetado por uma pandemia conhecida como normose: a obsessão doentia por ser normal. O conceito é aplicado por correntes da Filosofia, Psicanálise e Psicologia para designar comportamentos socialmente encarados como normais, mas que, na realidade, são patogênicos.

A normose define um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, atitudes e hábitos de pensar ou agir aprovados por consenso ou pela maior parte de uma sociedade, que podem causar angústia, doença e até a morte.

O conceito foi criado por Roberto Crema, antropólogo e psicólogo brasileiro, e pelo teólogo e também psicólogo francês Jean-Yves Leloup, em meados da década de 1980. Na época, os dois trabalhavam ao mesmo tempo, mas separadamente, no estudo dela, até que um terceiro psicólogo, Pierre Weil, indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 2003, se deu conta da coincidência.

Mais tarde, a conexão entre os estudiosos deu origem ao livro Normose: a patologia da normalidade, lançado em 2003 no Brasil pela Editora Vozes, com autoria conjunta de Jean-Yves Leloup, Pierre Weil e Roberto Crema. Antes disso, já existia o termo “normopatia”, cunhado em 1978 pela psicanalista Joyce McDougall na obra Em defesa de uma certa anormalidade.

A normopatia se refere a uma normalidade estereotipada e se aplica a indivíduos que vivem em função de exigências de comportamento moldadas pelo contexto social, ao mesmo tempo que experimentam a incapacidade de fazer um mergulho dentro de si, de desenvolver seu mundo interior.

Normose: a fuga da essência individual

Segundo Crema, “o normótico padece da falta de empenho em fazer florescer seus dons e enterra seus talentos com medo da própria grandeza, fugindo da sua missão individual e intransferível”. As anomalias da normalidade são letais, embora executadas sem que seus agentes estejam conscientes de sua natureza patológica. Ou seja, o normótico vive de acordo com o que acredita ser um “estado normal” das coisas, seguindo expectativas e tendências sociais sem nunca questioná-las.

A característica comum a todas as formas de normose é seu caráter automático e inconsciente. O normótico é absorvido pelo que se pode chamar de “espírito de rebanho”. De modo geral, seres humanos, por preguiça e autoindulgência, costumam seguir o exemplo da maioria.

Por conveniência ou necessidade de pertencimento, o comportamento predominante socialmente consiste em repetir discursos e narrativas impostos pela mídia, por grupos ideológicos, por religiões específicas ou por partidos políticos, por exemplo.

A certa altura, era normal na história da humanidade que duas pessoas lutassem até a morte para entreter a multidão, queimar mulheres acusadas de feitiçaria e fazer as pessoas trabalharem sem remuneração, com direito a castigo físico, por causa da cor da pele. Em alguns lugares, ainda é normal que homens e mulheres se casem sem amor.

O que é “normal”?

Trabalhar 44 horas semanais em troca de dinheiro, sem ter tempo para gastá-lo, é normal. Desmatar florestas em nome do progresso, então, é supernormal! De fato, muitas coisas no mínimo curiosas são socialmente tomadas como normais. Mas fica a questão: aquilo que é normalizado é, necessariamente, saudável?

De acordo com alguns psicólogos, não. A normose, conjunto de hábitos considerados normais pelo consenso social, não só é patogênica em diferentes graus como leva à infelicidade, ao desenvolvimento de transtornos mentais e à perda de sabedoria e qualidade de vida.

É comum justificar a manutenção de comportamentos não saudáveis por serem “normais”, coisas que “todo mundo faz”. No entanto, essa justificativa é falaciosa e acaba perpetuando normas desprovidas de qualquer fundamento. O cérebro confunde o que é familiar com o que é certo: ao ver ou sentir algo que desperta alguma memória, o cérebro define aquele “familiar” como “correto”, da mesma forma que decodifica o que é incerto e suscetível a desconfianças (ou o comportamento “anormal”).

Normoses gerais

Dizem respeito à sensação patológica do indivíduo normótico diante da coletividade. São discursos comuns que normalizam hábitos prejudiciais ao meio ambiente, às pessoas e ao planeta. Confira exemplos de normoses gerais.

A ilusão do isolamento

Sentir-se separado e independente de outras pessoas e da natureza.

“Guerras são justas”

Defender que guerras são métodos normais e necessários para resolver conflitos entre nações.

Sentimento geral de propriedade

Acreditar que os animais, a natureza e os produtos naturais são bens humanos.

Consumismo

Consumir tudo com relativa facilidade, sem pensar nas consequências sociais e ambientais.

Normoses específicas

Você sabe que refrigerante faz mal, mas consome dois litros da bebida diariamente, porque, afinal, “é normal e todo mundo toma”? Então a sua é específica. Conheça mais exemplos.

Normose alimentar

Consumir frituras, doces, refrigerantes, excesso de carne, excesso de sal, bebidas alcoólicas.

Normose relacional

Egoísmo; confundir amor com sensualidade; praticar irresponsabilidade emocional, afetiva e sexual.

Normose educacional

Confundir crenças pessoais com educação formal; rejeitar a ciência porque ela contraria determinada religião ou ideologia; rechaçar teorias cientificamente reconhecidas porque vão de encontro a convicções aceitas pelo senso comum.

Normose tem tratamento?

Então, você foi acometido pela doença da normalidade? A boa notícia é que a cura para ela pode ser alcançada por trabalho individual, mas alguns esforços sociais podem ajudar. Para começar, seria uma vantagem se tivéssemos um novo modelo educacional. A escola pode ser o espaço em que as crianças descobrem suas verdadeiras vocações, em vez de tentar padronizar os alunos e convencê-los a seguir padrões predeterminados e socialmente aceitos.

Utopia? Talvez. A explicação é que a ela pode ser um bug que todos nós carregamos no cérebro, responsável por nos fazer recusar novas formas de ver o mundo. Esse sistema de adaptação à maioria foi muito útil para nossos ancestrais, que corriam risco de morte caso comessem qualquer nova fruta que surgisse diante deles.

No entanto, rejeitar inovações pode ser, agora, um sinal de que você está se tornando obsoleto. Um mundo em constante mudança pede por novos olhares, novas maneiras de lidar com a ordem das coisas, novos questionamentos e novas atitudes. Afinal, se ser normal é uma doença, sair da caixa pode ser o remédio.