Indicação Geográfica desde 2021, o mel do Planalto Sul brasileiro tem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias comprovadas por estudos científicos
O mel de melato de bracatinga é um tipo raro de mel que não vem do néctar das flores, mas da seiva da árvore bracatinga (Mimosa scabrella), que é sugada e transformada por um inseto antes de chegar às abelhas.
Produzido no Planalto Sul do Brasil — região que reúne municípios de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul —, o mel tem Indicação Geográfica desde 2021, na modalidade Denominação de Origem, concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
De onde vem um mel que não é feito de flores?
O processo de produção do mel de melato de bracatinga começa na própria árvore que dá nome a ele.
Um pequeno inseto — a cochonilha — parasita a bracatinga, suga sua seiva e, ao digeri-la, excreta um líquido açucarado (o melato) por meio de finos fios brancos que saem do próprio corpo do inseto.
É esse melato, não o néctar de nenhuma flor, que as abelhas coletam e levam para as colmeias. Isso ocorre, principalmente, em períodos de baixa florada, quando outras fontes de alimento escasseiam. Dali em diante, o processo segue as etapas comuns da produção de mel: extração em centrífuga, peneiração, decantação e envase.
Uma safra que só acontece a cada dois anos
A produção do mel de melato de bracatinga segue o próprio ciclo de vida da cochonilha, que é bienal. No primeiro semestre dos anos pares — entre fevereiro e julho —, o inseto atinge o estágio em que forma os longos fios brancos por onde secreta mais melato, viabilizando a produção em maior escala; no ano seguinte, a quantidade coletada cai bastante. A colheita se concentra entre março e maio, e a produção nos anos pares chega a cerca de 450 toneladas na região mais tradicional de produção, no Planalto Serrano Catarinense.
Ainda há bastante variação natural entre as árvores.
“Tem árvores que são bem infestadas de cochonilha, tem algumas que não têm nada e outras totalmente escuras, com bastante filamento”, descreve Saulo Poffo, engenheiro agrônomo da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina).
Para ele, a relação entre a bracatinga e o inseto ainda demanda pesquisa — inclusive sobre a possibilidade de ajudar a colonizar árvores novas com a cochonilha, o que tornaria a produção mais previsível.
Possíveis benefícios do mel de melato de bracatinga
Diferente do mel floral, o mel de melato de bracatinga é bem mais escuro — o que lhe rendeu o apelido de “ouro negro” entre apicultores da região —, menos doce, mais ácido e não cristaliza, por ter menores quantidades de glicose e frutose em sua composição.
Um estudo publicado na revista Food Research International em 2019, conduzido por pesquisadores da UFSC, comparou 16 amostras de mel de melato de bracatinga com 25 amostras de mel floral coletadas em Santa Catarina. Foi observado que o mel de bracatinga possui maior acidez livre, maior condutividade elétrica e maior capacidade antioxidante, além de menor teor de glicose — diferenças suficientes para distinguir quimicamente os dois tipos de mel.
Outro estudo, publicado no Journal of Food Science and Technology em 2021, analisou amostras de cinco localidades diferentes de Santa Catarina e encontrou até 6.395 miligramas de minerais por quilo e até 2.393 microgramas de compostos fenólicos por 100 gramas no mel de melato de bracatinga. Esses valores, segundo os autores, sustentam o potencial do produto como alimento funcional, com atividade antioxidante e antimicrobiana relevante contra quatro cepas de bactérias.
Já uma pesquisa publicada no Journal of Functional Foods em 2020 testou o efeito do mel de melato de bracatinga em células de defesa do organismo (macrófagos) estimuladas para gerar inflamação em laboratório. O mel reduziu a liberação de óxido nítrico e de diversos mediadores inflamatórios — em uma das medições, a redução da citocina IL-12p70 (91,1%) superou até o efeito do medicamento anti-inflamatório usado como controle no experimento (65,9%).
Os autores apontam o mel de melato de bracatinga como candidato a coadjuvante no tratamento de distúrbios inflamatórios, sempre como parte de uma alimentação funcional — não como substituto de tratamento médico.
Selo do mel de melato de bracatinga
Em 20 de julho de 2021, o INPI concedeu ao mel de melato de bracatinga a Denominação de Origem “Planalto Sul Brasileiro” — a quinta Indicação Geográfica catarinense. Denominação de Origem é a modalidade mais rigorosa de Indicação Geográfica do INPI: diferente de uma Indicação de Procedência, que basta provar que um lugar ficou conhecido como centro de produção de determinado item, a Denominação de Origem exige comprovar que as características do produto vêm exclusiva ou essencialmente daquele território.
Nesse caso, a combinação entre as florestas nativas de bracatinga com araucária, a relação entre a árvore e a cochonilha, o clima da região serrana e o saber-fazer tradicional dos apicultores locais. Na prática, o selo garante que só produtores dentro da área demarcada podem usar esse nome no rótulo, protege o mel de melato de bracatinga contra cópias feitas fora da região e funciona como garantia de autenticidade para quem compra.
O selo abrange 134 municípios distribuídos por três estados: 107 em Santa Catarina, 12 no Paraná e 15 no Rio Grande do Sul.
“Essa Indicação Geográfica é a comprovação da excelência do mel de melato produzido no Planalto Sul Brasileiro”, afirmou Edilene Steinwandter, presidente da Epagri, ao ND+.
A produção mais tradicional do mel de melato de bracatinga, segundo a organização internacional Slow Food — que incluiu o produto em sua Arca do Gosto, catálogo de alimentos tradicionais ameaçados de desaparecer —, se concentra em oito municípios do Planalto Serrano Catarinense: Bom Retiro, Urubici, Rio Rufino, Lages, Bocaína do Sul, Correia Pinto, Otacílio Costa e Ponte Alta.
Valorizado lá fora, redescoberto por aqui
Apesar da raridade, o mel de melato de bracatinga por muito tempo valeu pouco dentro do próprio Brasil — segundo a Slow Food, os apicultores catarinenses inicialmente chegavam a evitar sua produção, temendo que ele “contaminasse” o mel floral nas colmeias. A virada veio de fora: a Alemanha importa o mel de bracatinga desde os anos 2000 e hoje é a maior compradora do produto, que segue majoritariamente para exportação — cerca de 90%, principalmente para a Europa.
O preço acompanhou esse interesse.
“Encontraram dez vezes mais minerais no mel de bracatinga e aí a gente viu que tinha ouro, um ouro negro aqui da nossa região”, relata o apicultor Joel de Souza Rosa. Segundo ele, o quilo do mel, antes vendido por 70 centavos de dólar, hoje chega a valer até cinco vezes mais — o que tornou o mel de bracatinga um dos mais caros do país, segundo a Slow Food.
Esse cenário começa a mudar dentro do Brasil. Com a Indicação Geográfica e a divulgação crescente das propriedades do mel de melato de bracatinga, nove empresas credenciadas no projeto de IG — reunindo cerca de 40 apicultores da região — relatam aumento de até 30% nas vendas no mercado nacional. Ainda assim, para Joel, falta mais divulgação: “A gente já nota a procura das pessoas, mas falta ainda mais divulgação, por ser um mel tão importante em minerais, que podemos consumir.”
Bracatinga
A bracatinga não é só a base de um mel raro — é também uma espécie de grande valor ecológico. Nativa das florestas com araucária do Sul do Brasil, do estado de São Paulo ao Rio Grande do Sul, é uma árvore pioneira de crescimento rápido, com alta capacidade de colonizar terrenos degradados.
Isso significa que cobre rapidamente o solo, inibe vegetação invasora e cria um microclima que favorece o estabelecimento de outras espécies nativas mais exigentes — por isso é recomendada em projetos de recuperação de áreas degradadas e reposição de mata ciliar, segundo a Apremavi (Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida).
Por outro lado, a árvore também sofre pressão por seu uso direto. Por exemplo, a madeira é usada para lenha e construção civil e, na região serrana catarinense, tradicionalmente também para a secagem de fumo.
A Slow Food destaca que a sobrevivência do mel de melato de bracatinga depende diretamente da manutenção das florestas úmidas de araucária e de seus processos regenerativos naturais — o que conecta a preservação da bracatinga tanto à floresta quanto à cadeia produtiva do mel.
O mel de melato de bracatinga reúne, em um único produto, uma relação ecológica rara entre árvore, inseto e abelha, uma cadeia produtiva ainda pouco previsível e um corpo crescente de evidência científica sobre suas propriedades.
Apesar do reconhecimento internacional antigo e do selo de Denominação de Origem mais recente, o desafio que segue em aberto é justamente esse: tornar mais estável — e mais conhecida dentro do próprio Brasil — a produção de um mel que, até hoje, nasce fora do controle humano.