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“Eu quero ter um futuro e o direito de envelhecer”, diz ativista sobre conferência do clima em Glasgow

Por Camila Doretto e Lu Sudré em Greenpeace Elas têm passado os últimos dias em mobilizações, mesas de debate, entrevistas, e estão entre as maiores potências da sociedade civil em Glasgow, na 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26). As juventudes globais conquistaram um protagonismo nunca antes visto em encontros como este.

“Eu acredito que as juventudes devem estar no máximo de lugares possível. Onde a gente puder ocupar, a gente tem que ocupar. Eu quero ter um futuro e o direito de envelhecer. A COP é o espaço onde os líderes mundiais vão decidir como vai ser a nossa vida. E a mensagem que queremos passar para eles é: a gente está de olho no que vocês estão fazendo e a gente está aqui disposta a lutar pela nossa sobrevivência”, afirma a ativista climática e estudante baiana, Mirela Coelho Pita, de 20 anos, nascida em Feira de Santana, e integrante da delegação do Engajamundo na COP26.

Mobilizadas e carregando nas mãos ferramentas para agir pelos rumos de sua própria história, as juventudes do mundo têm atuado de diversas maneiras para ocupar o espaço de voz que lhes é de direito e exigir dos líderes mundiais compromissos sérios e ações efetivas contra a Crise Climática. 

Um protagonismo que parece incomodar até mesmo a organização oficial do evento. Segundo relatos recebidos pelo Greenpeace Brasil, alguns ativistas chegaram a ser abordados por seguranças e, inclusive, ameaçados, mas não se intimidaram. 

Entre as lutas encampadas pelas juventudes está a por justiça climática, um recado que ganhou os olhos do mundo na última sexta-feira (5)durante marcha liderada pelo Fridays For Future, ou Sextas Pelo Futuro em tradução livre, na cidade sede da COP26. Estima-se que 30 mil pessoas participaram do ato. 

A crise do clima já impacta milhões de pessoas de forma desigual e ameaça de forma catastrófica as próximas gerações, e apesar do assunto não ser prioridade do evento, as juventudes não estão deixando isso ficar barato para os líderes mundiais.

“A gente se preocupa muito sobre como as populações em situação de vulnerabilidade estão sendo impactadas pelas mudanças climáticas. Enquanto Engajamundo, nós temos uma delegação composta na maior parte por nordestinos, então a gente já tem uma troca importante sobre esse processo de desertificação que está assolando o semiárido brasileiro. Um outro ponto latente para nós é a questão da adaptação e da mitigação. Qual o plano das cidades e dos estados brasileiros para lidar com essa crise? De que forma os governantes vão proteger a população?”, questiona a jovem.

“A gente sabe que muita coisa tem sido falada e prometida, mas ação, de fato, a gente não está vendo. Por isso nós vamos tentar dialogar com os atores subnacionais, e fazer com que de alguma forma nossas demandas sejam ouvidas, porque com o governo federal nós sabemos que há muito pouca abertura, ou melhor, nenhuma abertura para o diálogo com as juventudes”, complementa Mirela.

E foi isso o que fizeram. 

Mirela participou da ação que entregou à senadora Kátia Abreu uma “Missão (im)Possível”, como foi chamada pelos jovens que compõem a delegação do Engajamundo. Na ação, um grupo de jovens entregou uma caixa preta, inspirados pelos filmes de espiões que costumam receber suas missões em cartas e envelopes. A missão impossível consiste em barrar o Projeto de Lei 2.159/2021, do qual Abreu é relatora, conhecido como o “PL da Boiada” ou o “pai de todas as boiadas”.

Considerado um extremo retrocesso, se for aprovado vai acabar com o principal instrumento de proteção ambiental da sociedade brasileira: o licenciamento ambiental.

O objetivo foi chamar a atenção da senadora sobre as implicações negativas de sua aprovação da maneira que está, elaborado sem a participação da sociedade civil. 

A pauta indígena também está entre os destaques da luta das juventudes, com a única brasileira a discursar na abertura oficial do evento. Em um pronunciamento histórico, Txai Suruí, de 24 anos, nascida dos Povos Suruí, em Rondônia, apontou a necessidade de defender a Amazônia contra o desmatamento. Depois do discurso, foi intimidada por representantes da delegação brasileira.

E ainda na primeira semana, a juventude entregou o manifesto “Por uma Educação Climática” a governadores brasileiros presentes na conferência, entre eles João Doria (SP) e Renato Casagrande (ES). A iniciativa é do Fridays for Future e do Climate Reality Project Brasil, e reivindica a educação climática em todas as salas de aula do país como forma de impulsionar novos alunos a também se tornarem agentes de mudança contra o aquecimento global.

Entre os 12 ativistas que escreveram o manifesto, está Marina Guião, de 17 anos. A integrante do Fridays For Future não só está acompanhando os espaços e mobilizações da COP26 como chegou a Glasgow uma semana antes, para participar da Conferência da Juventude das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COY).

É a primeira vez que o movimento Sextas-Feiras pelo Clima Brasil participa de uma conferência da ONU com uma delegação de 16 pessoas. 

A alegria de Marina ao participar do encontro deixa claro que o esforço coletivo valeu a pena.  “Conseguir chegar na COP26, o maior evento sobre clima do mundo, é muito importante para mostrarmos que estamos nos articulando em nível regional, nacional e internacional. Nós representamos muitas pessoas. Só de termos conseguido nos mobilizar nesse país de desmonte ambiental, que realmente não está ligando pra crise climática, já é um marco muito importante”, ressalta a ativista.

Para ela, um ponto alto da conferência é justamente a troca de experiências e ideias entre a juventude de diversos países, o que permite que o Fridays For Future se fortaleça globalmente. Outro destaque é a atuação dos ativistas do Mapa – Most Affected People and Areas (Pessoas e áreas mais afetadas, em português). 

Além de fazer a demanda por justiça climática ganhar centralidade na COP26, Marina acredita que a presença da juventude brasileira na conferência é uma forma de deixar claro que o projeto antiambiental do governo federal enfrenta resistência. “Quando vamos enquanto juventude, o principal objetivo, além da educação climática e de mostrar nossa realidade, é mostrar que vamos além de Bolsonaro. Denunciar essa falta de representação, o desmonte total das políticas ambientais”, critica.