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Para cada dólar investido, a energia limpa e outros investimentos verdes criam, em geral, mais empregos no curto prazo

Por Joel Jaeger em WRI Brasil – A pandemia de coronavírus foi o maior abalo na força de trabalho global em décadas. E também acentuou a desigualdade. No segundo trimestre de 2021, o desemprego em escala global equivalia a 127 milhões de empregos em tempo integral. O número de pessoas que estão empregadas mas vivem na pobreza aumentou – desfazendo os avanços obtidos em cinco anos. Embora em alguns países o número de empregos esteja voltando aos níveis pré-pandêmicos, a maior parte do mundo ainda vive uma crise de desemprego e subemprego.

Ao mesmo tempo, ondas de calor, incêndios, furações e inundações trouxeram os impactos das mudanças climáticas bem mais perto de nós. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas alerta quanto a abalos severos no futuro se não houver uma ação urgente.

Felizmente, é possível combater o desemprego e a crise climática ao mesmo tempo.

Comparando os investimentos verdes e os não sustentáveis

Se você fosse um formulador de políticas públicas e tivesse US$ 1 milhão para investir na expansão ou no fortalecimento de seu sistema de energia, escolheria energia limpa ou combustíveis fósseis? Considerando os efeitos das mudanças climáticas, investir em energia limpa é a decisão óbvia.

Mas e se sua meta fosse apenas gerar o maior número de empregos possível? Felizmente, a resposta é a mesma.

Para cada dólar investido, a energia limpa e outros investimentos verdes normalmente geram mais empregos a curto prazo do que investimentos não sustentáveis, de acordo com uma nova análise de estudos de diversas partes do mundo publicada por WRI, Confederação Sindical Internacional e New Climate Economy.

Por exemplo:

  • Investir em energia solar fotovoltaica gera, em média, 1,5 vez mais empregos do que investir a mesma quantidade de dinheiro em combustíveis fósseis
  • A restauração de ecossistemas gera 3,7 vezes mais empregos por dólar do que a produção de petróleo e gás.
  • Adaptações para eficiência energética geram 2,8 vezes mais empregos por dólar do que combustíveis fósseis.
  • Investir no transporte coletivo gera 1,4 vez mais empregos por dólar do que a construção de ruas

Outros investimentos verdes também criam muitos de empregos em comparação a alternativas tradicionais, incluindo energia eólica, modernizações da rede elétrica, eficiência energética na indústria, infraestrutura para pedestres, bicicletas e para o carregamento de veículos elétricos.

Essa análise é baseada em uma revisão de dezenas de estudos que incluiu comparações minuciosas em termos de geração de empregos. Para alguns tipos de investimentos, como em energia eólica e solar, havia fontes de dados disponíveis de muitos países, incluindo Brasil, China, Indonésia, Alemanha, África do Sul, Coreia do Sul e Estados Unidos. Para outros, porém, havia apenas um estudo– como infraestrutura para pedestres, infraestrutura cicloviária e restauração de ecossistemas, para os quais havia estimativas disponíveis apenas sobre os Estados Unidos.

As descobertas até aqui são promissoras, mas é preciso realizar mais pesquisas, em particular referentes aos países de baixa renda e soluções baseadas na natureza para o clima.

comparação mostrando que investimentos verdes geram mais emprego do que os poluentes

Por que investimentos verdes geram mais empregos?

A instalação de painéis solares, a restauração de ecossistemas degradados ou a modernização de prédios para torná-los energeticamente mais eficientes são atividades trabalhosas e difíceis de terceirizar. Quer dizer: essas atividades criam empregos locais. A indústria de combustíveis fósseis, por sua vez, é altamente automatizada e intensiva em capital. Projetos como infraestrutura para caminhada e bicicleta envolvem mais planejadores urbanos, engenheiros e trabalhadores da construção civil por dólar se comparados à construção de ruas, em que uma parte maior do investimento é gasta em materiais como asfalto e brita.

Esta análise mostra que investimentos verdes são melhores em criar empregos na grande maioria dos casos, mas em alguns casos o impacto sobre os empregos é misto.

Os veículos elétricos são um exemplo. Espera-se que a transição de veículos a combustão para veículos elétricos gere impactos positivos nos empregos como um todo. Isso ocorre porque os proprietários de veículos elétricos gastam com eletricidade em vez de combustível, e o setor público de energia elétrica é mais intensivo em mão de obra do que o setor de petróleo. Além disso, proprietários de veículos elétricos gastam menos com eletricidade do que gastariam com combustível, e esses recursos poupados retornam para a economia como um todo, que exige mais mão de obra do que o setor de petróleo.

No entanto, apesar desses ganhos gerais, alguns empregos serão perdidos. Espera-se que os veículos elétricos criem um pouco menos empregos no setor de fabricação e manutenção de automóveis, porque são compostos de menos peças e menos complexos do que os veículos a combustão. Isso sem mencionar os impactos das técnicas de produção avançadas, da digitalização e da inteligência artificial, que estão prestes a reduzir drasticamente o número de trabalhadores necessários na fabricação de qualquer tipo de veículo. Por isso, é fundamental uma transição justa que capacite e reposicione os trabalhadores do setor automotivo tradicional.

Como melhorar a qualidade dos empregos verdes

A criação de empregos é importante, mas não é tudo. É preciso garantir que os trabalhos criados sejam de alta qualidade. Há desafios a superar, mas com políticas adequadas é possível melhorar os salários, os benefícios, a inclusão e a segurança no emprego nos setores verdes.

Em países de renda baixa e média, empregos formais em setores verdes podem oferecer bons salários. Mas muitas vezes os empregos no setor fazem parte da economia informal, portanto, têm baixos salários, acesso limitado à segurança no emprego e pouca proteção social.

Por exemplo, no setor de energia renovável “fora da rede” na Índia e na Nigéria, 60% a 70% dos empregos são informais. Este não é um problema exclusivo da energia renovável: nesses países, cerca de 90% de todos os empregos são informais. Para empregos verdes e similares, é essencial que os governos ajudem a formalizar a força de trabalho e promover a progressão na carreira por meio de treinamento, capacitação e certificação de habilidades.

Em países de alta renda, empregos verdes podem ser alternativas para a classe média, inclusive para trabalhadores que tenham apenas diploma de Ensino Médio.

Nos EUA, os trabalhadores em energia limpa ganham 25% mais do que o trabalhador médio. No entanto, os salários para energia limpa ainda são ligeiramente mais baixos os de combustíveis fósseis, que permanecem altos – em parte devido a décadas de representação sindical e negociações acirradas. Novos empregos verdes são menos propensos a ter os mesmos benefícios e direitos, e os trabalhadores hoje têm menos poder para reivindicar mudanças.

Precisamos evitar uma corrida ladeira abaixo, em que os custos decrescentes das tecnologias verdes sejam alcançados por meio de perdas em salários, segurança no emprego ou condições de trabalho. Uma nova pesquisa descobriu que o impacto da melhoria dos padrões de trabalho sobre o custo e o ritmo da transição energética pode ser muito menor do que se supõe, em parte porque os trabalhadores que recebem mais são mais produtivos.

Existem alguns modelos de como promover a qualidade do emprego verde que os países podem seguir.

Em 2018, a Espanha firmou um acordo para fechar suas minas de carvão e investir US$ 280 milhões nas regiões de mineração impactadas, incluindo treinamento para indústrias verdes, opções de aposentadoria antecipada e empregos na restauração ambiental. Em Illinois, EUA, os representantes sindicais estiveram fortemente envolvidos no desenvolvimento de uma lei climática de emissões líquidas zero recentemente aprovada; a lei inclui padrões trabalhistas rígidos e provisões de justiça ambiental.

É essencial garantir que os empregos verdes sejam acessíveis a todos, especialmente para grupos e comunidades que historicamente foram excluídos das oportunidades de emprego. A transição verde pode ser um benefício para as mulheres na força de trabalho. Cerca de 32% dos empregos de energia renovável em todo o mundo são ocupados por mulheres, mais do que a participação de 22% no setor de petróleo e gás. Mas isso ainda é muito pouco.

As indústrias de construção e manufatura que se beneficiam de investimentos em energia e transporte também são historicamente dominadas por homens. As barreiras à participação feminina podem ser mitigadas por meio de treinamento e auditorias para aumentar a conscientização, redes de apoio e mentorias para mulheres, metas e cotas de gênero, oferta de creches e políticas contra assédio sexual e violência de gênero.

Há exemplos emergentes de melhores práticas. Por exemplo, o programa sul-africano Working for Water tem como meta construir uma força de trabalho composta por 60% de mulheres, 20% de jovens e 5% de pessoas com deficiência.

Por fim, empregos verdes são geralmente mais seguros do que empregos em combustíveis fósseis e outras indústrias insustentáveis. O carvão tem mais de 500 vezes mais probabilidade de causar mortes por acidentes e poluição do ar em comparação com a energia solar ou eólica. E os agricultores que usam técnicas sustentáveis estão menos expostos a pesticidas e outros produtos químicos.

Mesmo assim, os empregos verdes apresentam seus próprios riscos, como trabalhadores de energia fotovoltaica lidando com materiais potencialmente tóxicos ou trabalhadores de soluções baseadas na natureza que enfrentam calor extremo. Por isso, são necessários medidas de segurança rigorosas e treinamento adequado.

Investimentos amigáveis ao clima: ganha-ganha ambiental e econômico

Os investimentos amigáveis ao clima devem ser uma parte essencial dos pacotes de estímulo à recuperação do coronavírus, bem como das estratégias econômicas de longo prazo. Eles são absolutamente necessários para atender às metas climáticas e, como mostra esta análise, costumam ser criadores de empregos eficazes em comparação com alternativas insustentáveis.

É essencial que os empregos criados tenham qualidade. Os governos devem trabalhar com sindicatos e empregadores para promover políticas e práticas que garantam salários e condições de trabalho justos, bem como direcionar a contratação de grupos sociais excluídos como condições para investimentos públicos e aquisições.

A maioria dos governos não parece ter recebido a mensagem ainda. Em resposta à Covid-19, os países canalizaram muito dinheiro para infraestrutura verde, mas ainda mais para infraestrutura insustentável e poluente. Isso não apenas ignora a urgência da crise climática, mas também significa que os países estão perdendo uma oportunidade importante de criação de empregos para os cidadãos que precisam dela mais do que nunca.

Para mais informações, leia The Green Jobs Advantage: How Climate-Friendly Investments Are Better Job Creators.


Este texto foi originalmente publicado por WRI Brasil de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original.