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O conceito de heterossexualidade tem sofrido transformações profundas ao longo da história humana. Entenda por que, talvez, ninguém seja 100% hétero

Responda rápido: você é hétero? Agora pare, reflita por trinta segundos, revisite o filme da sua própria vida mentalmente e responda de novo: você é 100% hétero? Se na segunda vez você foi dominado por certa hesitação, saiba que está tudo bem: sua sexualidade pode ser flexível, como a de qualquer outra pessoa.

Na verdade, por incrível que pareça, a heterossexualidade é um conceito novo na história humana: ela só trinfou, de fato, como modelo dominante e santificado de sexualidade no final da década de 1920. Para entender esse complexo processo, é preciso voltar um pouco na linha do tempo da humanidade.

Uma área cinzenta desde a Antiguidade

Embora o senso comum goste de evocar a Antiguidade, sobretudo os gregos, como o “paraíso da homossexualidade”, a sexualidade sempre constituiu uma área cinzenta da psique humana, que se molda a partir de diferentes fatores: cultura, tendências internas, protocolos sociais, posição no espaço-tempo, instrução familiar e por aí vai. Na Grécia antiga, por exemplo, as relações afetivas eram condicionadas a uma série de elementos que pouco tinham a ver com a concepção moderna de “amor”.

Ali, a relação homossexual socialmente aceita, denominada paiderastia, tinha função pedagógica e se estabelecia entre mestre (o homem mais velho, sábio) e pupilo (jovem, aprendiz). Como explica o pesquisador Luiz Carlos Pinto Corino no artigo “Homoerotismo na Grécia antiga: homossexualidade e bissexualidade, mitos e verdades“, publicado em 2006 na revista Biblos:

A relação homossexual básica e aceita pela sociedade ateniense se dava no relacionamento amoroso de um homem mais velho, o erastes (amante), por um jovem a quem chamavam eromenos (amado) […]. Esse relacionamento era chamado paiderastia, ou, como pode ser melhor compreendido, homoerotismo, e tinha como finalidade a transmissão de conhecimento do erastes ao eromenos. O que para nós pode parecer anormal, para os gregos era o paradigma da educação masculina, a paideia (educação) que somente se realizava pela paiderastia.

Assim, como ilustra o artigo de Corino, os gregos estavam longe de compor uma sociedade sexualmente livre, uma vez que a aceitação social de comportamentos sexuais e/ou afetivos era condicionada a uma série de pressupostos culturais que, nos dias de hoje, não fazem sentido – e que, ademais, são moral e eticamente condenáveis nas sociedades ocidentais contemporâneas.

Ali, a heterossexualidade tinha função reprodutiva, enquanto a homossexualidade era aceita somente dentro do contexto pedagógico. O que a sociedade ateniense da Antiguidade nos revela é que, ao longo da história humana, a sexualidade tem se configurado sempre a partir de uma determinada conjuntura, subordinada muito mais a elementos políticos, sócio-históricos e culturais do que à afetividade como a entendemos hoje.

O papel da mulher

Vale ressaltar aqui o papel da mulher na sociedade ateniense, onde a figura feminina, em geral, servia a um único propósito: o de reprodução. Uma vez que às esposas cabia a função de procriar, permitia-se aos homens mais velhos a busca do prazer da juventude, representado na beleza física do pupilo, com rapazes por eles instruídos.

É curioso notar como a prática da paiderastia reflete uma visão de afetividade e sexualidade completamente estranha àquela vigente nas sociedades ocidentais contemporâneas. Esse fato não surpreende, dado o abismo temporal que nos afasta da antiga Atenas; no entanto, provoca alguns insights a respeito das transformações que recaem sobre o entendimento de sexualidade ao longo do tempo, bem como das múltiplas perspectivas que se tem do assunto em diferentes culturas e sociedades.

Safo de Lesbos

Cabe também um adendo – ou uma menção honrosa – à poeta Safo, que teria nascido, segundo historiadores, entre 630 a.C. e 604 a.C, em Mitilene, na ilha grega de Lesbos. Embora saibamos muito pouco de sua biografia, é consenso que Safo, proveniente de uma família rica da aristocracia local, fundou uma escola para mulheres em sua cidade natal, após um período de exílio na Sicília por causa de suas posições políticas. Ali, a poeta ensinava às alunas poesia, dança, música e outras artes, destacando-se culturalmente em uma sociedade dominada por homens.

A Safo de Lesbos se deve o termo lésbica, que designa mulheres que se relacionam afetiva e sexualmente com mulheres. No entanto, a sexualidade da poeta é, até hoje, alvo de controvérsias e discussões. De sua vida, sabe-se pouco; de sua obra poética, restaram apenas fragmentos, dos quais muitos estudiosos têm extraído, no decorrer dos séculos, indícios de relações afetivas e sexuais com outras mulheres (e também com homens).

A escassez de evidências não nos permite assegurar, de fato, que Safo se relacionava romanticamente com pessoas do mesmo sexo; mas é seguro afirmar que a poeta era, no mínimo, uma mulher bem à frente de seu tempo.

“Apetite pervertido em relação ao sexo oposto”

Nos primeiros anos do século 20, heterossexual e homossexual ainda eram termos médicos obscuros, que ainda não figuravam no inglês padrão. Na primeira edição de 1901 do volume “H” do abrangente Oxford English Dictionary, por exemplo, esses vocábulos simplesmente não existiam.

Em 1901, o Dorland’s Medical Dictionary, publicado na Filadélfia (EUA), definia a heterossexualidade como um “apetite anormal ou pervertido em relação ao sexo oposto”.

Pouco tempo depois, em 1923, o conceito estreou no confiável New International Dictionary de Merriam Webster, no qual, quatorze anos antes, a homossexualidade passou a figurar como um termo médico que significava “paixão sexual mórbida por alguém do mesmo sexo”.

Seguindo essa linha de raciocínio, o dicionário de Merriam Webster assim definiu, pela primeira vez, a heterossexualidade: “paixão sexual mórbida por alguém do sexo oposto”.

Somente em 1934 a heterossexualidade apareceu na robusta segunda edição do Webster Unabridged Dictionary como o modelo de sexualidade dominante, definida como “manifestação de paixão sexual por alguém do sexo oposto; sexualidade normal”. Foi aí que a heterossexualidade finalmente atingiu o status de norma.

Heterossexualidade: o novo normal

O século 20 testemunhou a diminuição da legitimidade desse imperativo procriativo e a crescente aceitação pública de um novo princípio do “prazer hétero”. Gradualmente, a heterossexualidade passou a se referir a uma atração sexual normal pelo sexo oposto, livre de qualquer vínculo essencial com a procriação. Mas apenas em meados da década de 1960 o heteroerotismo se distinguiria completamente da reprodução, e o sexo entre homens e mulheres por prazer se justificaria por si mesmo.

Além disso, o “culto à domesticidade” após a Segunda Guerra Mundial, que incluía a reassociação das mulheres com o lar, a maternidade e os cuidados com os filhos, a paternidade e o trabalho assalariado fora de casa, encorajou a predominância do hétero, que finalmente se institui como norma praticamente incontestável.

No final dos anos 1940 e nos anos 1950, profissionais conservadores de saúde mental reafirmaram a velha ligação entre heterossexualidade e procriação. A partir daí, enquanto uma se estabelecia como modelo de normalidade, a outra se reiterava como um transtorno, um desvio grave de conduta, tornando-se cada vez mais relegada à marginalidade.

Sexualidade não é transtorno

Somente em 1990 a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID).

Muitas décadas antes, no entanto, estudiosos proeminentes do tema – como Sigmund Freud (1856-1939), considerado o pai da Psicanálise, e o sexólogo Alfred Kinsey – já defendiam a ideia de que a sexualidade humana é bem menos rigorosa do que querem nos fazer crer. Aliás, os textos freudianos partem do princípio de que somos, todos, bissexuais originalmente – e que a homossexualidade é “uma posição libidinal como qualquer outra”, longe de constituir um comportamento patológico.

Em 1948, Kinsey elaborou uma escala para medir e avaliar o comportamento sexual dos indivíduos ao longo do tempo. A escala Kinsey contempla categorias que fluem entre 0 (exclusivamente heterossexual) e 6 (exclusivamente homossexual) no decorrer da vida. Com ela, o sexólogo pretendia lançar luz sobre pesquisas que mostravam que nem todas as pessoas se encaixam exclusivamente nas categorias heterossexual e homossexual.

Para ele, a sexualidade é muito mais ampla do que simplesmente o comportamento vivido e abrange nuances que vão muito além de classificações absolutas e restritas. Kinsey acreditava que a divisão hétero-homo não é obra da natureza, mas da sociedade. Embora tenha suas limitações, a escala Kinsey abriu caminho para outros estudos, cujas conclusões parecem sempre apontar para o mesmo prognótisco: quando se trata de sexualidade humana, é difícil falar em certezas.

Você tem certeza que é 100% hétero?

Se tem uma coisa sobre a qual há consenso científico é que a sexualidade se insere em um espectro. O desafio é determinar até que ponto as pessoas têm certeza de onde elas se encaixam.

Um estudo publicado em agosto de 2021 na revista Nature’s Scientific Reports descobriu que a exposição a teorias sobre fluidez sexual poderia levar indivíduos heterossexuais a flexibilizar a própria sexualidade.

Os pesquisadores da universidade de Sydney, na Austrália, conduziram um experimento que consistia em oferecer a pessoas declaradamente heterossexuais artigos informativos sobre sexualidade fluida. Após a leitura, os participantes se mostravam mais dispostos a viver experiências homossexuais do que no início da pesquisa, relatando também menor rigidez em relação à própria orientação sexual.

Informação promove a diversidade

Dr. James Morandini, autor principal do estudo, acredita que a intervenção externa não é capaz de mudar a orientação afetivossexual das pessoas. Para ele, o que explica os resultados obtidos é que o acesso à informação pode transformar a maneira como os indivíduos interpretam os próprios desejos, tendências e sentimentos sexuais.

Em outras palavras, duas pessoas que se dizem igualmente heterossexuais podem descrever a própria orientação de maneiras muito distintas, dependendo de seu conhecimento sobre fluidez sexual e de sua exposição prévia a perspectivas menos severas de compreensão da sexualidade.

Em comparação com um grupo de controle, depois da leitura do primeiro artigo, os participantes apresentaram 28% mais probabilidade de se identificar como heterossexuais não exclusivos; além disso, 19% deles relataram maior propensão para se envolver em atividades sexuais com pessoas do mesmo sexo.

No geral, a taxa de “heterossexualidade não exclusiva” mais do que quadruplicou após essa atividade. Efeitos semelhantes foram encontrados depois que os participantes leram artigos que defendiam a ideia de que a orientação sexual é mais bem caracterizada como fluida do que como estável ao longo da vida.

Que tal a definição “principalmente hétero”?

Em 2018, Ritch Savin-Williams, professor de psicologia do desenvolvimento humano na Universidade Cornell (EUA), sugeriu a definição “principalmente hétero” para definir um ponto no espectro sexual que não é hétero, nem gay, nem bissexual.

Em um de seus estudo, participantes homens e mulheres cisgênero e heterossexuais foram expostos a diferentes tipos de pornografia. Ao medir a dilatação de suas pupilas – um indicador de excitação sexual, como comprovado por um estudo anterior publicado no Journal of Personality and Social Psychology –, Savin-Williams e sua equipe concluíram que as mulheres eram excitadas tanto pelo conteúdo heterossexual como pelo material que exibia atividades sexuais entre duas mulheres. Os homens mostraram resultados semelhantes, definindo uma inclinação que Savin-Williams chama de “principalmente heterossexual”.

Esses resultados, evidentemente, não querem dizer que não existem pessoas heterossexuais. “Eu não diria que ‘ninguém é totalmente heterossexual’; nunca disse isso”, afirmou Savin-Williams ao portal INSIDER. “Eu acredito, aliás, que a maioria dos homens seja exclusivamente heterossexual”.

Todavia, ele defende que, embora a sexualidade seja um espectro, a sociedade nem sempre concede espaço para as “transgressões” masculinas. Savin-Williams não é o primeiro pesquisador a lidar com a ideia de que as inclinações sexuais não são tão rígidas como se acreditava anteriormente. No entanto, os homens têm sido amplamente excluídos da narrativa da fluidez sexual, inclusive pela ciência.

“Poucos pesquisadores parecem notar a existência de indivíduos sexualmente fluidos ou principalmente heterossexuais, exceto quando falamos em mulheres”, aponta Savin-Williams.

“Mas, entrevistando homens heterossexuais para um estudo, descobri que muitos deles relatam não ser exclusivamente heterossexuais, e sim principalmente heterossexuais. Esses relatos pessoais foram confirmados por suas pesquisas confidenciais e por suas reações fisiológicas à pornografia, que, embora demonstrassem maior excitação diante de mulheres, também revelavam uma excitação mais discreta diante de homens”, diz ele.

Héteros devem sair do armário, diz pesquisador

Essa tendência a excluir homens cisgênero e heterossexuais da fluidez sexual talvez se deva ao fato de que, como sugere Savin-Williams, nossa sociedade não fornece muito espaço para a variação ou elasticidade da sexualidade masculina.

“Os homens são afetados pela crença de que qualquer nível de atração pelo mesmo sexo implica, necessariamente, homossexualidade. Nossa cultura gosta de homens ‘simples’: ou totalmente gays ou 100% heterossexuais”, explica o pesquisador. “Damos às mulheres maior liberdade para que sejam flexíveis e afetadas pelo meio ambiente. Elas podem agir de maneira mais ‘masculina’ sem serem rotuladas como lésbicas, por exemplo. Os homens, por outro lado, a qualquer sinal de ‘feminilidade’ são categorizados como gays”, diz.

A boa notícia é que, aparentemente, as coisas estão começando a mudar. Celebridades “saindo do armário”, por exemplo, representam um estímulo extra para que as pessoas, sobretudo os homens heterossexuais, se sintam mais confortáveis para assumir orientações mais maleáveis e menos restritivas.

“Existem mais indivíduos ‘principalmente heterossexuais’ na geração do milênio do que nas gerações anteriores, principalmente porque há uma incrível aceitação e celebração da diversidade sexual, romântica e de gênero. Os jovens acreditam no espectro da sexualidade e do afeto”, garante Savin-Williams. “Aliás, já há mais mulheres e homens ‘principalmente heterossexuais’ do que indivíduos bissexuais, gays e lésbicas. Ainda bem, porque a maioria dos heterossexuais precisa ser libertada de seus armários”, conclui.