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Em testes com roedores, a inovação ajudou a regenerar os músculos da região pélvica que haviam perdido a capacidade contrátil. Pesquisadores buscam parceiros para dar início aos testes clínicos

Por Agência FAPESP* – Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) desenvolveram uma nova tecnologia feita com borracha natural (látex) e células-tronco que poderá revolucionar o tratamento e a prevenção da incontinência urinária em mulheres que desenvolvem diabetes gestacional, condição que favorece a atrofia dos músculos da região pélvica, dificultando sua contração. De baixo custo, fácil manuseio e produzido com matéria-prima brasileira, o biomaterial é capaz de regenerar a parte afetada sem causar dor ou demandar sessões de fisioterapia. Testes realizados com animais mostraram que o produto é eficaz e não gera efeitos tóxicos.

A tecnologia, que poderá ser introduzida durante o parto cesárea, é uma membrana que funciona como uma rede para guardar as células-tronco. Após ser inserido na paciente e entrar em contato com os músculos da região pélvica, o material passa a liberar aos poucos proteínas bioativas presentes no látex que, em conjunto com as células-tronco, auxiliam na recuperação do tecido e resgatam sua funcionalidade.

“O material oferece condições para que as células ali colocadas se proliferem sem que elas migrem para outros locais do organismo. Como a borracha custa barato, a tecnologia desenvolvida é acessível e tem um alto potencial de ser aplicada”, explica Juliana Floriano, pós-doutoranda da Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu, e uma das responsáveis pela inovação. O trabalho contou com apoio da FAPESP por meio de três projetos (19/02405-418/25410-0 e 17/21783-4).

Para atender às mulheres que realizam parto normal, a cientista desenvolveu uma “segunda versão” do produto: um dispositivo vaginal que pode ser introduzido pela própria gestante sem causar desconforto. A diferença é que, em vez de possuir células-tronco, o dispositivo de látex apenas libera proteínas que atraem esse tipo de célula regenerativa para o local que precisa ser tratado.

“Mulheres que não forem para a cesárea e tenham incontinência urinária podem usar esse segundo produto, que é um dispositivo que a própria paciente insere. Ela mesma coloca e remove dez dias depois”, destaca Floriano.

As proteínas liberadas pelo material emitem um sinal, como se fosse uma inflamação, atraindo as células-tronco que saem da medula óssea, passam pelos vasos sanguíneos e chegam até os tecidos. Essas células, por sua vez, também emitem sinais que ativam as células-tronco musculares (células-satélite), que se proliferam e constroem novas fibras saudáveis que recuperam a função da musculatura.

“Não precisa de cirurgia e não dói nada. Esse dispositivo vaginal, desenvolvido em parceria com pesquisadores dos Estados Unidos, possui grande biodisponibilidade em todos os músculos e órgãos importantes para a continência urinária: uretra, bexiga e assoalho pélvico. Ou seja, além de regenerar, também poderá atuar na prevenção, já que a mulher também pode desenvolver incontinência urinária após o parto”, diz a pesquisadora.

De acordo com registros médicos, muitas pacientes podem sofrer desse tipo de problema por até dois anos após o parto.

“Muitas puérperas procuram por fisioterapia ou cirurgia, mas nem a operação é garantia de que a questão será resolvida. Cerca de 30% voltam a apresentar o distúrbio, já que o tratamento é muito complexo. Elas ficam constrangidas, muitas deixam o mercado de trabalho, além de elevar muito os custos em saúde pública”, relata Floriano.

As invenções foram testadas em ratas diabéticas gestantes com miopatia muscular com a ajuda de um modelo experimental que reproduziu nas roedoras o mesmo problema encontrado nas mulheres. As fêmeas tiveram os produtos introduzidos e passaram a ser acompanhadas pelos pesquisadores. Em apenas dois meses, a musculatura da região pélvica dos animais já havia sido recuperada, respondendo normalmente a estímulos elétricos induzidos pelos cientistas. Além disso, nenhum tipo de efeito tóxico foi observado nas roedoras.

As duas novas tecnologias, já patenteadas pela Agência Unesp de Inovação (Auin), poderão mudar a vida de milhares de mulheres com diabetes gestacional, caracterizada pelo aumento dos níveis de glicose no sangue durante a gravidez. O problema é capaz de desencadear uma série de complicações à saúde da paciente, como prejuízos aos rins, hipertensão e, principalmente, a incontinência urinária já durante a gestação, causada por uma miopatia no assoalho pélvico e nos músculos retos abdominais. Essa atrofia muscular provoca várias alterações, entre elas, a diminuição de fibras, o que causa a perda da capacidade de contração.

Matéria-prima nacional

A borracha natural, também chamada de látex, é um produto extraído da seringueira, árvore natural da Amazônia. O professor Carlos Frederico de Oliveira Graeff, docente do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Unesp, em Bauru, e orientador dos estudos que resultaram nas tecnologias, esclarece que a principal função do látex na natureza é a regeneração vegetal.

“Quando é feito um corte em um tronco, a função do látex é recuperar aquela árvore. No organismo humano, esse material é estável, compatível e apresenta características próprias que promovem por si só o crescimento de vasos sanguíneos, o que é fundamental para o reparo de tecidos. Nós buscamos o caminho mais natural possível para induzir o corpo humano a fazer aquilo que ele poderia fazer sozinho”, descreve.

A pesquisa foi desenvolvida a partir de seringueiras cultivadas na Fazenda Experimental da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, em Botucatu, e contou com especialistas de diferentes áreas, como biólogos, engenheiros florestais, físicos, químicos, entre outros. Para criar a membrana, foi preciso elaborar um novo método de extração da borracha, com uma série de cuidados e tratamentos específicos, sem aditivos químicos. Para que o líquido não coagulasse, como geralmente acontece quando ele é retirado da árvore, o material foi extraído em baixa temperatura e depois passou por uma centrifugação para remover possíveis impurezas coletadas durante o processo. Em seguida, uma camada fina de látex foi depositada em uma placa, formando membranas que secam por sete dias em uma estufa a 50°C. “Fizemos testes de toxicidade e biocompatibilidade. O risco do corpo rejeitar o material é muito pequeno”, ressalta o professor.

Agora, os cientistas buscam empresas parceiras, do Brasil ou do exterior, que possam colaborar com o início de testes clínicos. “São anos de estudos, porém, ainda temos um bom caminho a ser percorrido. É um processo lento, mas vamos vencer as barreiras. Queremos fazer com que esses tratamentos cheguem ao mercado”, conclui Graeff.

Com informações da Agência Unesp de Inovação.

Este texto foi originalmente publicado por Agência Fapesp de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original.