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Experimentos em laboratório da UnB avaliam como condições ambientais afetam o desenvolvimento da planta e a produção de moléculas de interesse terapêutico

Por Luis Gustavo Prado – UnB Ciência | Morador de Natal, no Rio Grande do Norte, Cassiano Lamartine tinha 70 anos quando começou a usar o óleo derivado da cannabis em busca de alívio para as dores causadas pela neuralgia do trigêmeo, doença que afeta os nervos da face. A prescrição foi feita em 2018 por sua médica neurologista, que também indicou o produto para auxiliar no tratamento do Parkinson. “A neuralgia do trigêmeo traz uma dor absurda, papai até já operou. O óleo ajuda no controle dessa dor”, conta a filha Adriana Lamartine, que acompanha o processo desde o início.

As pessoas que convivem com Cassiano logo perceberam os benefícios da cannabis nas rotinas do patriarca. “É sensacional para a qualidade de vida do idoso. Era muito difícil ver meu pai definhando, sem comer. O óleo trouxe o seu apetite e o seu sono de volta. Só isso já foi um ganho absurdo na saúde dele”, relata Adriana.

Com autorização da Justiça, família Lamartine cultiva cannabis para fins medicinais, que minimizam as dores de Cassiano. Para Adriana, o óleo “é sensacional para a qualidade de vida do idoso”. Foto: Arquivo pessoal

Como a importação do produto era onerosa, filha e pai conseguiram autorização judicial para o cultivo próprio da Cannabis sativa, planta da qual o óleo é extraído. “Hoje, papai cultiva, eu faço o remédio e ele toma.” 

Quase 2,5 mil quilômetros de distância separam a Universidade de Brasília da família Lamartine. Em comum, o interesse pelas propriedades medicinais da cannabis, com evidências científicas, para melhorar a qualidade de vida das pessoas.

No Laboratório de Termobiologia, duas câmaras de crescimento, similares a uma estufa, guardam exemplares de cannabis, cultivados especificamente para uma pesquisa de doutorado no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Botânica (PPGBOT), vinculado ao Instituto de Ciências Biológicas (IB) da UnB.

Divididas em dois grupos, as plantas se desenvolvem sob condições ambientais distintas. A primeira das estruturas reproduz o clima atual. Ao lado, a segunda câmara simula um cenário previsto para 2060, com temperatura 3°C mais elevada e maior concentração de gás carbônico.

O experimento, controlado e supervisionado pela equipe técnica, busca compreender como fatores como temperatura, luminosidade, umidade e concentração de dióxido de carbono afetam o crescimento da planta e a produção de compostos de interesse medicinal, como fitocanabinoides e terpenos. São moléculas encontradas nos óleos medicinais produzidos a partir das flores femininas das plantas.

A expectativa é gerar conhecimento científico adaptado às condições climáticas brasileiras, contribuindo para as análises sobre cultivo, controle de qualidade e estabilidade dos produtos derivados da cannabis. 

A PESQUISA

Conduzida pela doutoranda Sabrina Bartz Pereira e sob orientação do professor Fabian Borghetti, a iniciativa envolve o cultivo direto da planta para estudos, desde a germinação das sementes até a obtenção e análise dos extratos.

Engenheira agrônoma e farmacêutica, a doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Botânica do IB explica que as plantas medicinais podem alterar a produção das moléculas ativas em resposta ao ambiente no qual são cultivadas. 

“Estamos cultivando em algumas condições específicas para ver quais as moléculas químicas que a planta vai dar, e qual a quantidade dessas moléculas. Se mudar esses parâmetros de crescimento? A planta vai reagir como? Estamos observando isso”, afirma. 

Professor do IB e orientador da pesquisa, Fabian Borgheti, e doutoranda Sabrina Bartz. Resultados podem contribuir para o avanço da regulamentação do cultivo da planta para fins medicinais no Brasil. Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB

AMBIENTE CONTROLADO

O acesso às duas cabines em que são cultivadas as plantas é restrito. São quatro portas até chegar às câmaras de crescimento do tipo fitotron, incluindo controles de abertura por reconhecimento facial, monitoramento por vídeo e porteiros. 

Nelas, os pesquisadores determinam, por controlador lógico programável, a quantidade de horas de luz recebida diariamente pelas plantas (fotoperíodo), as temperaturas máxima e mínima e a concentração de gás carbônico do ambiente. Além disso, lâmpadas que reproduzem o espectro da radiação solar fornecem a iluminação necessária ao desenvolvimento das plantas. 

As mudas foram produzidas a partir de sementes fornecidas por associações, legalmente autorizadas, parceiras do projeto. Após aproximadamente um mês de enraizamento, elas são transferidas para recipientes com substrato orgânico, onde permanecem para crescimento e floração até a conclusão do ciclo de cultivo e colheita das flores, que dura de três a quatro meses. 

Durante o desenvolvimento, a equipe realiza medidas de crescimento, biomassa, teor de água dos tecidos e outros indicadores fisiológicos, além de medir o potencial hídrico do solo e das folhas e avaliar o aproveitamento de água pelas plantas.

“O estudo ainda está em andamento, mas já podemos pensar um pouquinho. Na câmara que simula o clima futuro, a planta está se desenvolvendo mais rápido e apresentando uma altura maior do que a de clima atual, mas ainda temos muitas etapas pela frente antes de antecipar algum resultado”, avalia Sabrina. 

Este é o segundo cultivo realizado pelo grupo. No primeiro, a equipe comparou plantas mantidas em ambiente fechado com outras cultivadas ao ar livre. Os dados de crescimento, produtividade e fisiologia estão em análise, mas as observações iniciais apontam que a planta também conseguiu se desenvolver e produzir em campo aberto.

O primeiro cultivo já passou por testes microbiológicos e pela análise de terpenos. A etapa seguinte deverá identificar quais fitocanabinoides foram produzidos e em que quantidade. 

A doutoranda justifica a necessidade de mais estudos sobre a relação entre o cultivo e seus impactos nos compostos medicinais da planta porque, até hoje, as referências científicas sobre a cannabis são fundamentadas a partir de estudos do cultivo fechado, com a maior parte das pesquisas nesta área feitas em países de clima temperado.

“Não sabemos como a planta se comporta em ambientes externos e sob as condições climáticas tropicais daqui. Vamos começar, agora, a ter uma ideia desse comportamento e isso tem desdobramentos importantes para a regulamentação do cultivo no território nacional”, pontua Sabrina.

Para Fabian Borghetti, compreender a relação entre a cannabis e o ambiente é importante para entender como a produção de substâncias pelas plantas respondem às condições ambientais. “O que a gente está buscando é pesquisar a planta, entender melhor as suas respostas ao meio ambiente de maneira que a produção dos óleos medicinais tenham maior estabilidade e tragam maior segurança ao paciente final”, resume o docente do IB. 

DO CULTIVO AO EXTRATO

A pesquisa também envolve as etapas de produção do extrato e do óleo, cujas amostras serão submetidas a testes de controle de qualidade e rastreabilidade para determinar a presença dos fitocanabinoides, terpenos e outras substâncias ao longo do processo. 

“Aqui, vamos comparar e determinar de que forma o manejo das plantas determina a quantidade e qualidade dos fitocanabinoides e dos terpenos”, explica Sabrina. Na prática, a investigação pode ajudar a identificar quais as condições adequadas de manejo e, assim, subsidiar futuras decisões relacionadas ao cultivo para fins medicinais.

Além dos pesquisadores, Laboratório de Termobiologia conta com apoio de estudantes da graduação e da pós-graduação. Estudos integram experiências do Observatório Brasileiro Interdisciplinar da Cannabis. Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB

As análises mobilizam diferentes estruturas da Universidade. O Laboratório de Termobiologia conduz os experimentos de cultivo e preparo dos extratos, e outros grupos de pesquisa colaboram na caracterização química dos compostos e na realização dos testes microbiológicos.

A pesquisa também poderá gerar informações sobre a influência do ambiente na concentração de tetraidrocanabinol, o THC. A porcentagem desse composto nos extratos produzidos é fator importante para as regras de cultivo adotadas em diferentes países, mas no território brasileiro carece de diretrizes científicas contundentes que determinem sua concentração limite nas plantas.

HISTÓRIAS QUE SE CRUZAM

Sabrina Bartz conta que o interesse pelo estudo do manejo e cultivo da Cannabis sativa também está relacionado à sua trajetória familiar. Sua mãe foi diagnosticada com Alzheimer há 13 anos e, desde 2020, consome o óleo de cannabis. Ao constatar a melhora na vida da mãe com o uso do produto, a engenheira agrônoma decidiu produzir conhecimento científico sobre a planta.

Borghetti, que também recorreu ao tratamento auxiliar com produtos derivados da cannabis para seu filho, pondera que a UnB tem outras pesquisas nesse campo conduzidas por docentes do IB, do Instituto de Química (IQ) e da Faculdade de Ciências e Tecnologias em Saúde (FCTS). Junto ao estudo que orienta, são iniciativas que integram o Observatório Brasileiro Interdisciplinar da Cannabis.

Em 2025, a Universidade também formalizou acordo de cooperação técnica com a Associação Brasileira do Pito do Pango (Abrapango). Pela parceria, a associação fornece amostras de produtos à base de cannabis, enquanto a UnB disponibiliza estudantes, infraestrutura e suporte técnico-científico para as pesquisas. 

Entre as propostas do Observatório está a construção de um banco de dados sobre a produção de medicamentos à base de cannabis no Brasil. As informações deverão abranger características do cultivo, origem e genótipo das sementes, métodos de extração e resultados de análises químicas, incluindo os teores de canabinoides e terpenos. 

PERSPECTIVAS

Os desafios regulatórios ainda atravessam o cotidiano da produção de conhecimento científico sobre a Cannabis sativa no Brasil, segundo os pesquisadores. Antes de iniciar os experimentos, a equipe precisou buscar caminhos institucionais e jurídicos para trabalhar com a planta, incluindo a adaptação de espaços e protocolos de segurança às exigências previstas para esse campo de investigação. 

Apesar das dificuldades, o professor Fabian Borghetti avalia que a pesquisa ganhou respaldo dentro da Universidade e tende a se expandir. A criação do Observatório, a participação de diferentes unidades acadêmicas e a entrada de novos estudantes no projeto indicam a consolidação gradual de uma rede institucional dedicada ao tema. A perspectiva da equipe é que os resultados do cultivo forneçam a base para novos projetos na botânica, agronomia, química, farmácia, microbiologia, nutrição e outras áreas.

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Este texto foi originalmente publicado pela UnB Ciência, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle. 


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