Com a ajuda de armadilhas fotográficas, um estudo realizado ao longo de mais de duas décadas na Amazônia boliviana registrou mais de 4.600 imagens e detectou 594 aparições do raríssimo cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas (Atelocynus microtis)
Por Iván Paredes Tamayo – Mongabay | Ele tem um focinho semelhante ao de uma raposa, patas palmadas como as de uma capivara e uma cauda grossa. No Brasil, é chamado de cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas (Atelocynus microtis). Já na vizinha Bolívia, ganha um nome mais misterioso: além de “cachorro amazônico”, é popularmente apelidado de “cachorro fantasma” (“perro fantasma”, em espanhol). O animal é um dos canídeos menos conhecidos do mundo — e um dos carnívoros avistados com menos frequência na América Latina.
Em busca de respostas sobre a espécie, um estudo realizado na Bolívia, ao longo de mais de duas décadas, reuniu cerca de 4.600 imagens de armadilhas fotográficas para entender como o animal vive, os lugares que habita e por que sua sobrevivência depende tanto de florestas sul-americanas intactas. Dos registros reunidos, cerca de 600 são considerados reveladores.
A pesquisa, realizada entre 2001 e 2024, destaca que o canídeo é de fato uma espécie amazônica — e, particularmente, florestal. Costuma habitar áreas de floresta amazônica contínua no Brasil e em países vizinhos, como Peru, Bolívia e Colômbia. Além de viver em áreas nos departamentos bolivianos de La Paz, Pando, Beni e Santa Cruz,, pode ser encontrado nas florestas pré-amazônicas da Cordilheira dos Andes, também chamadas de florestas de sopé (áreas vegetais de transição formadas na base de serras e montanhas), em altitudes de até 750 metros.
O biólogo britânico Robert Wallace, da Wildlife Conservation Society (WCS) na Bolívia e coautor do estudo, disse à Mongabay que sua equipe realizou uma revisão sistemática dos registros de distribuição do mamífero no país — tanto os publicados quanto os não publicados. Durante esses 23 anos, a pesquisa também realizou 34 levantamentos intensivos com armadilhas fotográficas nas áreas de baixa altitude da Grande Paisagem Madidi-Tambopata (Região Noroeste da Bolívia) e da Paisagem Biocultural Llanos de Moxos (Região Norte).

Wallace explicou que o cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas é nativo das florestas da Amazônia, não das savanas ou das planícies abertas amazônicas. “Os dados [que coletamos] mostram que o que [a espécie] mais busca é a própria floresta, evitando habitats de transição que a levam a áreas mais abertas. É uma espécie de floresta”, disse.
Segundo o biólogo, o uso de tecnologias ocultas na mata, como armadilhas fotográficas, tornou a tarefa de localizar o canídeo misterioso menos difícil do que se pensa. Mesmo assim, para o pesquisador, observar a espécie diretamente ainda é um desafio: trata-se de um animal bastante arisco e com olfato altamente desenvolvido, o que permite evitar encontros com seres humanos e com predadores naturais.
“A espécie é predominantemente diurna, mas também crepuscular. Ou seja, é bastante ativa ao amanhecer e ao entardecer. Pode ser ativa à noite, mas a grande maioria dos avistamentos por armadilha fotográfica ocorreu durante o dia”, disse Wallace.
Por fim, ele acrescentou que a vegetação preferida da espécie é a floresta de terra firme, “não exatamente ao lado do rio, mas na floresta madura, mais adentro”.
Um trabalho de mais de duas décadas
O estudo teve o apoio da WCS Bolívia e contou com armadilhas fotográficas instaladas todos os anos durante a estação seca.
O método revelou um animal de corpo relativamente baixo, pernas curtas, orelhas pequenas e arredondadas, cabeça grande e uma pelagem densa e escura que varia de um cinza quase preto ao marrom-avermelhado. Ele também exibe uma faixa dorsal escura e uma cauda longa e peluda que se arrasta pelo chão. Suas patas são parcialmente palmadas, com os dedos conectados por uma membrana. A característica é exclusiva entre os canídeos amazônicos.
Os levantamentos de captura fotográfica renderam um total de 4.635 fotos, com o registro de 594 eventos independentes envolvendo o A. microtis.
“As armadilhas fotográficas forneceram informações importantes sobre o comportamento e a abundância relativa do cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas, sugerindo que ele é mais abundante do que se acreditava, embora continue sendo um carnívoro relativamente raro”, disse Wallace.
O especialista considerou alentador o fato do animal ser relativamente mais abundante em áreas protegidas e em territórios indígenas (sobrepostos a essas áreas sob proteção), reforçando a importância desses locais para a conservação da biodiversidade.

“Esses resultados têm implicações importantes para a conservação. Sugerem que serão necessárias grandes extensões de floresta contínua, comparáveis em tamanho a grandes áreas protegidas, para manter viáveis as populações de cachorros-do-mato-de-orelhas-curtas no longo prazo”, disse Wallace.
De acordo com a organização ambiental boliviana ORÉ, seis espécies de canídeos são conhecidas na Bolívia, incluindo o cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas, também conhecido nas terras baixas amazônicas como cachorro-do-mato (ou perro de monte, em espanhol). A ORÉ alertou, no entanto, que ele não deve ser confundido com as espécies Speothos venaticus, conhecida no Brasil como cachorro-vinagre, e Cerdocyon thous, que, em território brasileiro, leva o nome de cachorro-do-mato ou graxaim-do-mato.
Em 2024, a ORÉ realizou um estudo em conjunto com o Museu de História Natural Noel Kempff Mercado, localizado em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia). A organização explicou que o cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas é a única espécie do seu gênero, além de ser um carnívoro solitário. Tem entre 70 e 100 centímetros de comprimento, 35 centímetros de altura e uma cauda escura e peluda — exceto na base —, que é longa o suficiente para tocar o chão.

As características do canídeo solitário
A cabeça do animal é grande e mais amarronzada do que o seu dorso cinzento. O focinho apresenta uma faixa preta visível, que vai do nariz até a região abaixo dos olhos. As orelhas são pequenas, o que dá origem ao nome, mas sobressaem acima da cabeça e são arredondadas e de cor marrom-clara, em contraste com o topo.
A espécie pode pesar entre 9 e 10 quilos, e as fêmeas são até 30% maiores que os machos. Acredita-se que sua dieta inclua anfíbios, peixes e répteis, embora também consumam frutas.
Marco Greminger, zootecnólogo e professor da Universidade Autônoma do Beni, na Bolívia, contou à Mongabay sobre a captura de um exemplar vivo do canídeo, perto do seu local de trabalho. O animal estava escondido em um duto de ar inutilizado e abandonado.
“Foi incrível como conseguimos capturar aquele ‘cachorro fantasma’ vivo. Eles me chamaram para ajudar, e foi o que eu fiz. O cachorro [de orelhas curtas] entrou no canil e estava bem fraquinho. Eu me lembro de dar a ele 350 gramas de fígado de galinha, rico em ácido fólico, além de pés de galinha e de uma solução de reidratação oral. Ele comeu todos os dez pedaços que eu dei”, disse Greminger.
O profissional acrescentou que o animal tem um odor marcante. “[O cheiro] é mais forte do que o de um porco-espinho ou de uma raposa — e mais azedo.”

A veterinária e ecologista Renata Leite Pitman, pesquisadora da Universidade Duke, nos Estados Unidos, estuda os cachorros-do-mato-de-orelhas-curtas há 14 anos e diz que os animais são “muito ariscos e difíceis de serem vistos”. Nesse período, Pitman localizou apenas cinco indivíduos na natureza, na Bacia Amazônica, onde realiza trabalhos de campo. Ela os equipou com colares de rastreamento para estudar seus hábitos.
“Eles são muito tímidos, totalmente diferentes dos animais de estimação”, disse, em entrevista.
Em 2023, ao encontrar o canídeo escondido no duto abandonado da universidade, Greminger entrou em contato com Pitman para obter orientações. “Eu contei o que estava dando para ele comer. Concordamos e combinamos alguns passos. Ela recomendou mamão, eu estava dando goiaba”, disse o zootecnólogo.
Este texto foi originalmente publicado pela Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.