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Um dos assuntos para se observar em 2022 é se o mundo substituirá de vez o carvão por energias limpas

Por Sadof Alexander em WRI BrasilNeste momento sem precedentes que vivemos, é grande a incerteza sobre o futuro. A pandemia de Covid-19 não terminou, os efeitos das mudanças climáticas já são sentidos em todos os lugares e muitas pessoas pelo mundo seguem sofrendo com a desigualdade. E isso é apenas o que acontece no cenário geral, sem contar como essas questões afetam umas às outras. Em um mundo em constante transformação, com histórias que surgem e evoluem diariamente, quais terão o maior impacto nas pessoas e no planeta?

O Stories to Watch, evento anual realizado pelo WRI, destaca essa importante questão. O evento é movido pela crença de que entender as histórias mais urgentes do nosso tempo – e os momentos que podem mudar a narrativa – empodera as pessoas para que possam fazer a sua parte por um mundo mais sustentável.

Em sua 19ª edição, o Stories to Watch 2022 se volta para uma das perguntas mais relevantes desta década de ação climática: este será o ano em que os líderes transformarão as promessas em ação? Apresentado pela primeira vez por Ani Dasgupta, o novo presidente e CEO do WRI, o evento analisa compromissos recentes e momentos que determinarão se o mundo enfim entrará em um rumo mais sustentável neste ano.

A seguir, veja as seis perguntas mais importantes para 2022 e os momentos e ações que ajudarão a respondê-las:

1. Os líderes mundiais vão agir em seus compromissos pelo zero líquido?

As evidências mais recentes da ciência climática revelam uma imagem clara: o mundo está amplamente fora do caminho para limitar o aquecimento global a 1,5°C e evitar os piores impactos das mudanças climáticas. Cumprir essa meta ainda é possível, mas apenas se o mundo conseguir atingir o zero líquido nas emissões de gases de efeito estufa até a metade do século.

Os compromissos pelo zero líquido ganharam um impulso nos últimos anos. A COP26, no final de 2021, trouxe ainda mais de otimismo, com 81 paísescentenas de empresas e mais de mil cidades assumindo compromissos pelo zero líquido durante a conferência. No entanto, muitos desses compromissos estão sob escrutínio devido a preocupações sobre sua credibilidade, ambição e transparência.

Este ano, líderes de todos os setores precisam respaldar seus compromissos com ações robustas. Uma das grandes questões é o que os países do G20 – que representam 75% das emissões globais de gases do efeito estufa – farão para avançar em suas metas antes da COP27. Essas questões incluem, por exemplo, se a China fortalecerá seus compromissos climáticos de 2030 e se os Estados Unidos aprovarão o Build Back Better Act. Além disso, neste ano devemos observar se mais empresas assumirão compromissos pelo zero líquido e se as instituições financeiras irão cortar o financiamento para combustíveis fósseis.

2. Nós enfim faremos uma transição justa e suave do carvão para a energia renovável?

O setor de energia, particularmente sua dependência do carvão, será um fator determinante para a possibilidade de o mundo atingir o zero líquido até a metade do século. O carvão é a origem de 40% das emissões globais de CO2, sendo a principal fonte de CO2 em todo o mundo.

Embora esteja claro que o mundo precisa se afastar do carvão, essa não é uma tarefa simples. O carvão é responsável por 25% da energia global, principalmente para eletricidade, e a demanda por energia cresceu significativamente ao longo da última década. Ao mesmo tempo, quase 760 milhões de pessoas no mundo ainda não possuem acesso à eletricidade, de modo que a demanda tende a continuar subindo. Além disso, são sete milhões de pessoas que trabalham com carvão no mundo e serão impactadas pela transição para a energia limpa. Assegurar que esses trabalhadores recebam treinamento e apoio à medida que o uso de carvão diminuir é essencial.

O ano de 2022 ajudará a revelar se o mundo continuará na transição do carvão para a energia limpa. Essencialmente, este ano revelará se os países cumprirão seus compromissos de interromper o financiamento para o carvão, incluindo as 39 nações que se comprometeram com a transição para energia limpa na COP26. Em 2022 também saberemos se o financiamento para energia limpa vai aumentar, se investimentos na matriz de eletricidade vão garantir uma transição suave e se os trabalhadores receberão o apoio de que precisam na transição.

3. Mudanças na tomada de decisão e no financiamento promoverão a justiça climática?

Embora as mudanças climáticas causem impactos no mundo todo, alguns sofrem mais do que outros. As mudanças no clima impactam de forma desproporcional os países de renda mais baixa, apesar de estes terem apenas uma pequena contribuição para as emissões globais. Ao mesmo tempo, a emergência climática pode colocar até 130 milhões de pessoas a mais na pobreza até 2030. Dentro dos países mais vulneráveis ao clima, são as comunidades de baixa renda – em geral marginalizadas devido a desigualdades sistêmicas – as que tendem a ser mais impactadas por eventos extremos catastróficos e pela escassez de recursos exacerbada pelas mudanças climáticas.

A justiça climática encara essas desigualdades por meio de quatro questões-chave sobre os impactos do clima: quem é afetado, quem é responsável, quem possui recursos e quem tem o poder? Embora a justiça climática esteja recebendo mais atenção agora, mudanças reais em relação a quem detém o poder sobre os recursos financeiros e a tomada de decisões ainda não aconteceram. Um dos pontos mais importantes é saber se as comunidades locais receberão mais apoio neste ano, em reconhecimento ao fato de que são elas, em geral, as mais bem equipadas para encontrar e desenvolver soluções.

Mudanças no poder, na tomada de decisão e no financiamento podem fazer de 2022 um ápice para a justiça climática. Essas mudanças devem incluir apoio para adaptação e restauração de ecossistemas lideradas localmente, financiamento para perdas e danos causados pelas mudanças climáticas e o reconhecimento do direito à terra dos povos indígenas. Tal como acontece com todas essas histórias climáticas, os líderes devem cumprir seus compromissos com a justiça climática por meio da implementação de ações significativas e eficazes.

4. 2022 será o ano em que viraremos o jogo contra o desmatamento?

O ano de 2021 terminou em alta para as florestas. A COP26 foi palco para o maior compromisso da história no combate ao desmatamento, com 141 países se comprometendo a interromper e reverter a perda e a degradação florestal até 2030. Países e fundações também prometeram US$ 19,2 bilhões para proteger e restaurar florestas, e instituições financeiras se comprometeram a eliminar o desmatamento de seus portfólios.

Embora esses compromissos sejam promissores, o desmatamento continua sendo uma preocupação persistente. Em 2021, as regiões tropicais perderam 12,2 milhões de hectares de cobertura florestal, e apenas uma de cada três das principais florestas tropicais no mundo segue sendo um sumidouro de carbono. Essa perda florestal tem consequências devastadoras, uma vez que sem as florestas o mundo não tem como limitar o aquecimento global a 1,5°C, sem falar no imenso custo para as pessoas e a biodiversidade.

Os compromissos da COP26 são significativos, mas certamente não são os primeiros. Para que 2022 seja o ano que de fato romperá o ciclo do desmatamento, muita coisa precisa mudar. Os países consumidores devem fechar os mercados de commodities ligados ao desmatamento, enquanto as empresas devem remover o desmatamento de suas cadeias de abastecimento. Além disso, os países devem transformar seus compromissos em políticas reais. E, por fim, o dinheiro deve fluir para as florestas por meio de mecanismos como financiamento para projetos florestais e créditos de carbono florestal de alta qualidade.

5. Os líderes vão agir para prevenir futuras pandemias?

Nos últimos dois anos, a pandemia recebeu atenção global e dominou as nossas vidas. A pandemia de coronavírus continua a impor grandes desafios em todas as partes do mundo – e não será a última.

Pandemias não são apenas uma questão de saúde, são também uma questão ambiental. O desmatamento é um catalisador de doenças infecciosas: até 75% delas são resultado da transmissão de patógenos de animais para seres humanos, e a perda de habitat decorrente do desmatamento coloca humanos e animais selvagens cada vez mais próximos. Como resultado, recursos para proteger as florestas também podem ajudar na prevenção de pandemias com um custo substancialmente mais baixo do que as respostas reativas, como vimos na pandemia de Covid-19.

Os setores de meio ambiente e saúde pública devem usar este ano para quebrar os silos existentes e prevenir futuras pandemias antes que elas comecem. Março e agosto deste ano serão momentos importantes para esse trabalho, uma vez que a Assembleia Mundial da Saúde realizará reuniões para elaborar um tratado internacional sobre pandemias. Além disso, os governos podem adotar uma Estrutura Global de Biodiversidade para ajudar a proteger os habitats da vida selvagem e, como resultado, evitar o risco de transmissão de doenças de animais para humanos.

6. O mundo adotará rotas para descarbonizar o transporte?

O mundo está vivendo uma emergência massiva dos veículos elétricos (VEs). Em 2021, as vendas de veículos elétricos foram aproximadamente 83% mais altas do que em 2020, e 168% acima do patamar de 2019, ultrapassando os veículos tradicionais. Cerca de 12 milhões de passageiros de VEs circulam nas ruas atualmente, e mais de 500 modelos de emissão zero estão hoje disponíveis no mercado.

Ainda assim, os veículos elétricos representam apenas 1% da frota atual. A parcela de VEs precisa aumentar muito para atingir as metas do Acordo de Paris. Ao mesmo tempo, os veículos elétricos sozinhos não vão descarbonizar o setor de transportes. Os transportes representam quase um quarto das emissões diretas de CO2 no setor de energia. Para limitar o aquecimento a 1,5°C, as emissões de CO2 do setor de transportes precisam cair 90% até 2050.

Para aproveitar o momento favorável à eletrificação, os líderes precisam tomar medidas robustas para descarbonizar o setor em 2022. Isso inclui ações para acelerar a eletrificação de todos os veículos, oferecer infraestrutura para VEs e assegurar que sejam movidos a energia limpa. Precisamos nos afastar de uma cultura baseada no carro para enxergar as cidades e o transporte como um todo. Além de VEs, é preciso investir mais em transporte público, oferecer infraestrutura para pedestres e ciclistas e construir cidades mais compactas e acessíveis.

Agir hoje pelos anos que virão

Sem dúvida, 2022 será repleto de momentos que definirão o mundo hoje e por anos – talvez décadas – no futuro. O WRI estará acompanhando de perto cada uma dessas histórias, monitorando avanços e defendendo as mudanças que o mundo tanto precisa. As respostas que surgirem este ano revelarão se o planeta permanecerá no modelo de desenvolvimento atual, o chamado business as usual, ou se os líderes mundiais tomarão as medidas necessárias para ir além das promessas e colocar o mundo em um caminho mais sustentável para todos.


Este artigo foi publicado originalmente no Insights.

Este texto foi originalmente publicado por WRI Brasil de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original.