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Um historiador e sua companheira imergem no ritual do Kuarup, no Parque Indígena do Xingu, que neste ano tem entre os homenageados o jornalista e ambientalista Washington Novaes, morto em 2020. Acompanhe, no diário de viagem, os dois primeiros dias de uma jornada que começa no centro nervoso de São Paulo, com destino à aldeia Ipatse, do povo Kuikuro – passando pela aridez das fazendas no Cerrado

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Por Antônio Reis Jr., da Página 22.

Dias 9 e 10 de agosto de 2022

Em junho de 2022, recebi o inusitado e irrecusável convite de meu amigo, o economista André Novaes, para acompanhar a cerimônia do Kuarup no Parque Indígena do Xingu, situado a Noroeste do estado de Mato Grosso. André é sobrinho do jornalista e ambientalista Washington Novaes, um dos homenageados na cerimônia fúnebre do Kuarup – que tomo a liberdade de nominar também como a festa dos mortos – neste ano organizada pelo povo Kuikuro na aldeia Ipatse, situada no Alto Xingu.

Washington Novaes nos deixou em agosto de 2020, em momento crítico da pandemia da Covid-19, o que significou restrição a família e aos amigos em seu sepultamento. Assim, ao receber o generoso convite de Maricá, filho de Tabata – cacique Kuikuro que se tornara grande amigo de Washington Novaes, falecido em 2021, e também um dos homenageados –, a família Novaes teria a oportunidade única de participar da cerimônia do Kuarup e despedir-se de maneira solene e cuidadosa do querido familiar, ritual do qual a pandemia a havia privado.

A honrosa homenagem a um homem branco pelos Kuikuro, uma das 16 etnias que vivem no Parque Indígena do Xingu, deve-se ao fundamental trabalho jornalístico realizado por “Óxito” – como era carinhosamente chamado por amigos indígenas – no ano de 1984, quando esteve pela primeira vez no Parque.

Lá Washington permaneceu por dois meses, produzindo a memorável série televisiva de dez episódios intitulada Xingu, a Terra Mágica, veiculada pela extinta Rede Manchete em 1985. Guardo a lembrança da vinheta de abertura da série, especialmente dos sons das flautas xinguanas que emergiram em minha memória assim que recebi o convite.

A série desvendou ao público brasileiro, à época, os povos indígenas do Alto, Médio e Baixo Xingu, suas diferenças e semelhanças, a organização social e política nas aldeias, a constituição da família, as relações de parentesco, o tratamento dado à infância, os ritos de passagem à vida adulta, as manifestações culturais e religiosas – especialmente do Alto Xingu – e um pouco da cosmogonia das diferentes etnias que vivem no Parque.

Além da série, Washington Novaes publicou em 1985 o livro Xingu, uma flecha no coração, diário de sua experiência ao longo dos 60 dias de filmagens no Parque, livro que imediatamente comprei e li para iniciar meu mergulho nesse território onde vivem protegidas culturas milenares no coração do Brasil. Para um historiador como eu, a ida ao Xingu, especialmente durante o Kuarup, seria uma oportunidade rara de vivenciar uma imersão entre os povos indígenas.

Após 22 anos, em 2006, Washington Novaes, acompanhado de seus filhos, retornou ao Parque com sua equipe de filmagem e produziu nova série: Xingu: terra ameaçada”, na qual explorou, entre outros assuntos, os riscos do avanço da fronteira agrícola sobre o perímetro do Parque e suas consequências.

E agora, em 2022, o diretor e produtor de cinema e tevê, Pedro Novaes (diretor de Cartas do Kuluene, Sertão Films), terceiro filho de Washington, que também esteve com ele em 2006, rodará um terceiro filme após 16 anos. São três tempos no Xingu que permitirão notar todas as mudanças vividas pelos povos originários do Parque, formando um rico material.

Convite aceito, iniciei a organização da viagem com minha companheira, a urbanista e arquiteta Ligia Rocha. Iríamos em condição privilegiada por acompanhar a família Novaes. E também por integrar um grupo beneficiado por um planejamento muito competente de Pedro Novaes, tanto para a sua produção audiovisual, quanto para a nossa permanência no Parque, que implicava difícil deslocamento, alimentação, estadia, e tantos outros detalhes fundamentais para uma boa experiência.

Para entrar no Parque é necessário um convite, o envio de documentos à Fundação Nacional do Índio (Funai), autorização, e vacinação contra a febre amarela. Providenciamos barraca e equipamento para acampar, pois ficaríamos em um rancho construído pela família de Tabata para nos receber, com estrutura para cozinhar, um banheiro improvisado e proteção do Sol, que se anunciava inclemente.

Em 9 de agosto, embarcamos em Congonhas, na capital paulista, em voo com destino a Goiânia, onde pernoitamos. No dia seguinte, somos recebidos por Virgínia Novaes, a ex-companheira de Washington Novaes, em sua casa, uma aprazível chácara nos arredores da capital, onde ele mantinha um interessante escritório com biblioteca.

Ali, já estão as seis pick-ups e o carro de André Novaes, que nos conduzirá pela longa jornada. Os carros com tração 4 X 4 são vitais para superar trechos de terra e areia que atravessaríamos, sobretudo dentro do Parque.

Partimos de manhã bem cedo em direção a Mato Grosso pela BR-070. Nosso destino é a cidade de Canarana, ao Norte do estado, município de referência a quem se desloca ao Parque e que mantém estreita relação com os povos indígenas no Alto Xingu. Há cerca de 200 a 300 indígenas de diferentes etnias que vivem na cidade. De Goiânia a Canarana vamos rodar 704 quilômetros.

Além de Canarana, a cidade de Querência e de Gaúcha do Norte, todas localizadas em região limítrofe do Parque, são locais estratégicos para alcançar o Xingu. Essa última, revelando a forte presença de população gaúcha em razão do fluxo migratório daquele estado para a fronteira agrícola do Centro-Oeste.

Ao atravessar o estado de Goiás, observamos no caminho, além da vegetação típica do Cerrado que domina o Planalto Central, as diversas fazendas de gado, as usinas de biocombustível – milho, soja e cana – e muito desmatamento.

A aridez da paisagem, agravada pela secura do inverno, faz levantar uma fina poeira de um vermelho terroso que cobre tudo. A aparência desértica dos campos após as colheitas é muito impactante. Em muitos lugares, solitária em meio a imensidão árida das fazendas, vemos mangueiras cujas copas projetam pequenas sombras nas quais o gado se abriga e se aglomera, castigado pelo sol. Até mesmo o verde das matas ciliares e das áreas de preservação permanente (APPs) desaparecem aos nossos olhos.

Seguindo na direção Oeste, passamos pela cidade de Piranhas, onde paramos para almoçar. Depois, Aragarças e Barra do Garças, quando entramos no Mato Grosso cruzando o Rio Araguaia em uma ponte na fronteira dos estados, e passamos a seguir na direção Norte. Perfazemos todo o percurso neste dia em aproximadamente 11 a 12 horas, de Goiânia a Canarana.

As cidades que atravessamos, como Nova Xavantina, ora nos parecem modestas e singelas, ora revelam a riqueza do agronegócio com suas enormes fazendas e usinas que dominavam a paisagem.

Uma paisagem belíssima desponta no horizonte: é a Serra do Roncador, que evoca a célebre Expedição Roncador-Xingu, organizada pela Fundação Brasil Central em 1941, durante o Estado Novo, em seus esforços de promover a marcha para o Oeste e a interiorização do Brasil, alcançando a serra e os rios que formam a bacia hidrográfica do Rio Xingu.

Daquela expedição participaram os irmãos Villas-Bôas – Cláudio, Leonardo e Orlando – que, posteriormente, desempenharam um papel fundamental na criação do Parque, 20 anos depois, em 1961, quando foi criado por decreto federal pelo presidente Jânio Quadros.

Após breve parada para apreciar as formações rochosas da serra, seguimos pela estrada e, enfim, Canarana! Exaustos, um pouco tensos pela atenção redobrada nas estradas, sem duplicação nos últimos trechos, mas aliviados e ansiosos por estarmos próximos ao Parque.

Pernoitamos em um modesto hotel para, no dia seguinte, chegarmos ao Xingu. Falta pouco. A previsão é viajar mais 6 a 7 horas no dia seguinte – em torno de 300 quilômetros – fora e dentro do perímetro do Parque, para alcançar nosso destino: a aldeia Ipatse dos Kuikuro.

(A seguir, o terceiro dia da viagem)

*Antônio Reis Jr. é historiador, doutor em Educação e professor universitário na área de História e Comunicação Social.

Este texto foi originalmente publicado pela Página 22 de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.


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