Pesquisa da Universidade de Viena recalcula a origem da poluição do ar por microplásticos e aponta o continente, e não os oceanos, como a fonte predominante das partículas
Uma nova pesquisa desmonta a tese de que os mares seriam a principal fonte de microplásticos no ar. A origem dominante dessas partículas, que viajam globalmente e contaminam até regiões intocadas, está no continente. A descoberta obriga uma revisão urgente nas políticas de combate a esta poluição invisível.
Estudo conduzido por meteorologistas da Universidade de Viena, publicado na revista Nature, recalcula o fluxo atmosférico de microplásticos. A análise partiu de uma extensa base de dados, reunindo quase 2.800 medições globais, e confrontou essas observações com simulações de modelos de transporte. Os resultados corrigem estimativas anteriores.
A conclusão aponta que as emissões terrestres superam as oceânicas em mais de vinte vezes, em número de partículas. A poeira plástica que circula pelo planeta e é inalada por seres vivos tem sua origem principal em atividades humanas em terra firme. Fontes como a abrasão de pneus, o desgaste de fibras têxteis e a ressuspensão de solos contaminados ganham peso decisivo nesta equação.
Contudo, o trabalho revela uma nuance importante. Embora muito mais numerosas, as partículas emitidas do continente tendem a ser menores e mais leves. Em termos de massa total lançada ao ar, o oceano ainda representa uma contribuição significativa, devido ao tamanho médio maior de seus microplásticos. Esta distinção entre quantidade e peso é fundamental para entender os ciclos de transporte e deposição.
A pesquisa também expõe graves lacunas no conhecimento. As simulações iniciais, baseadas em estimativas de emissão disponíveis, superestimavam drasticamente as concentrações reais medidas na atmosfera. Esse descompasso sistemático, tanto sobre os oceanos quanto sobre a terra, foi usado pelos cientistas para recalibrar e refinar os cálculos. O exercício demonstra a fragilidade dos dados atuais.
A falta de medições padronizadas e abrangentes impede uma classificação clara das fontes específicas. Permanecem incertezas sobre a distribuição precisa por tamanho das partículas, a contribuição exata do tráfego rodoviário e a carga total de plástico em circulação na atmosfera. Preencher estas lacunas é um passo obrigatório para quantificar com precisão os riscos e traçar estratégias eficazes de mitigação.
O estudo representa um avanço metodológico para mapear a poluição atmosférica por microplásticos e seu transporte em escala global. Ao reorientar o foco para as fontes terrestres, ele pressiona por ações que ataquem o problema em sua raiz: a produção e o descarte massivo de plásticos no ambiente continental.