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O professor Luiz Guilherme Dácar da Silva é membro do Comitê Paulista pela Prevenção de Homicídios na Adolescência e diz que o resultado mostra que o problema da violência é muito profundo e complexo

Na região metropolitana de São Paulo, oito em cada dez jovens afirmaram ter visto pelo menos uma situação de violência contra adolescentes nas escolas. Os dados são do Comitê Paulista pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, grupo que conta com a participação da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e da Unicef – Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância. Considerando que outros lugares como serviços sociais e até o ambiente doméstico se mostraram como foco de ações violentas, especialistas buscam os caminhos para reverter a realidade de violência na juventude brasileira.

“Esse resultado demonstra que o problema da violência é muito mais profundo, complexo e ainda com pouco holofote dada a sua magnitude”, analisa o professor Luiz Guilherme Dácar da Silva Scorzafave, integrante do comitê e professor de Economia Social pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-RP) de Ribeirão Preto da USP.

Violência nas escolas

Um dos apontamentos que mais chamam a atenção de especialistas é o da alta incidência de casos de violência em ambiente escolar. “Infelizmente, pela falta de estrutura, a escola, em vez de ajudar a reduzir os impactos que essa violência teria sobre os adolescentes, acaba potencializando, exatamente porque não é um ambiente adequado”, aponta o professor Dácar lembrando de casos de bullying e brigas.

Na pesquisa, foram consultados 747 jovens entre 12 e 19 anos durante o início de 2021. Perguntados sobre como a questão do homicídio e suicídio de adolescentes os afeta e quais ações podem ser feitas para cuidados, acolhimento e prevenção, as principais respostas passaram por representatividade, empatia e mais profissionais voltados à prevenção desses casos nas escolas.

A pedagoga Tamires Alves, mestre em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da USP, afirma: “Espaços como a escola são essenciais para o desenvolvimento, tanto da criança quanto do adolescente. Precisamos pensar em estratégias para mudar esse quadro, especialmente o sentimento que esses jovens têm em relação às pessoas que ocupam esses espaços”.

Desigualdade social e a violência

Foi confirmado também no estudo que ser adolescente negro, mulher ou LGBTQIA+ intensifica ainda mais a vivência de violências na Grande São Paulo. Ao todo, 25% das mulheres e 37% dos entrevistados que se identificam como LGBTQIA+ reportam já ter sofrido violência sexual. No recorte étnico, adolescentes negros foram duas vezes e meia mais abordados por agentes de segurança pública em comparação com brancos.

“Estar exposto a alguns tipos de violência, como racismo, machismo, LGBTfobia pode ter impactos na construção de uma imagem positiva de si. Além desses impactos, podemos olhar para a saúde mental. Esses jovens podem apresentar maiores riscos de desenvolver quadros depressivos ou mesmo tendências suicidas”, afirma Tamires.

Assim, é possível notar que a violência na sociedade brasileira acaba recaindo com mais intensidade sobre as minorias da população. “As pessoas que sofrem com isso diariamente têm essa percepção, mas acho que elas não conseguem pautar esse tema na sociedade, porque são basicamente as pessoas mais pobres, que estão nas periferias da cidade. Esse é um grande desafio que nós temos, um problema bem sério”, aponta o professor Dácar.

Garantir a lei

Segundo pesquisa do DataSenado de 2015, 69% dos brasileiros consideram-se mal-informados sobre os direitos garantidos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O dado preocupa quando se considera que, além de dar visibilidade à pauta da violência na juventude, é preciso garantir o cumprimento e a noção das leis.

“Um dos caminhos é olhar para a dos adultos, pois são eles, representados pela figura do Estado, da família e de outros profissionais que atuam diretamente com esse público que precisam garantir os direitos”, aponta Tamires. 

Quanto aos jovens, em um de seus estudos, a pedagoga já demonstrou que crianças de 6 anos já tinham noções mais concretas de violência, como matar e roubar. “Essas violências são sempre muito noticiadas, seja pela TV ou mesmo pelas redes sociais. Eu acredito que precoce seja o fato de esses jovens terem contato e muitos deles, especialmente os negros, LGBTQIA+ e as mulheres, serem vítimas diretas dessas violências. Estamos falhando no que diz respeito às responsabilidades que temos enquanto Estado, enquanto família e sociedade, que é garantir a proteção das nossas crianças e adolescentes.”


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