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A crise climática pode começar a afetar a trajetória escolar de uma criança antes mesmo de seu primeiro dia de aula. Uma revisão de pesquisas sobre eventos climáticos extremos indica que a exposição a calor intenso, secas e inundações durante a gestação e a primeira infância está associada a problemas de saúde, desenvolvimento cognitivo, frequência escolar e permanência na educação. Os efeitos tendem a ser mais severos entre famílias com menos recursos para enfrentar perdas de renda, alimentos e acesso a serviços de saúde.

O impacto do clima sobre a educação costuma ser associado à interrupção das aulas por enchentes, ondas de calor ou tempestades. Porém, as consequências podem começar muito antes de uma criança entrar na escola. Alterações nas condições ambientais durante períodos críticos do desenvolvimento podem influenciar sua saúde e suas oportunidades educacionais por muitos anos.

Uma análise conduzida por pesquisadores reuniu 254 estudos, dos quais 90 apresentaram análises estatísticas utilizadas no núcleo da revisão. O conjunto das evidências apontou uma relação consistente entre eventos climáticos extremos vivenciados durante a gravidez e os primeiros anos de vida e resultados posteriores relacionados à saúde, à aprendizagem e à quantidade de anos de escolaridade.

Os efeitos variam conforme a intensidade, a duração e o momento em que ocorre o evento climático. As condições econômicas da família também fazem diferença. Uma inundação pode representar uma perda temporária para uma família com reservas financeiras, seguro e acesso regular a serviços públicos. Para outra, o mesmo episódio pode significar redução da alimentação, interrupção de tratamentos médicos e necessidade de colocar crianças para trabalhar.

No Equador, por exemplo, pesquisadores acompanharam crianças cujas mães foram expostas a fortes inundações associadas ao El Niño durante a gravidez. Cada mês adicional de exposição esteve relacionado, no ano seguinte, a menor renda familiar e menor consumo de alimentos. As crianças expostas ainda apresentaram maior ocorrência de baixo peso ao nascer e anemia, além de estatura menor em relação à idade e desempenho inferior em determinados testes de linguagem e desenvolvimento cognitivo.

A escassez de chuva também aparece entre os fatores de risco. Em áreas rurais de Burkina Faso, crianças expostas antes do nascimento a níveis excepcionalmente baixos de precipitação apresentaram resultados inferiores em avaliações relacionadas ao pensamento e à aprendizagem. Também tiveram maior probabilidade de começar a escola mais tarde, menor probabilidade de estar matriculadas e maior participação no trabalho.

O calor elevado segue uma trajetória semelhante. Uma pesquisa baseada em dados de 29 países tropicais relacionou as condições climáticas enfrentadas durante a gestação e a primeira infância ao nível educacional alcançado posteriormente. No Sudeste Asiático, crianças submetidas a temperaturas muito acima da média local nesses períodos foram projetadas para completar cerca de 1,5 ano a menos de escolaridade do que aquelas expostas a temperaturas próximas da média.

Desigualdade climática chega à sala de aula

Os impactos da emergência climática sobre a educação também revelam uma profunda desigualdade internacional. Crianças que vivem em países de baixa e média renda frequentemente enfrentam maior vulnerabilidade, enquanto suas populações contribuíram relativamente pouco para as emissões de gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global.

Uma quebra de safra pode elevar os preços dos alimentos e reduzir a renda de uma família. Ao mesmo tempo, uma enchente pode destruir moradias, plantações, estradas e escolas. Para gestantes, a combinação entre insegurança alimentar, aumento da carga de trabalho e dificuldade de acesso a serviços de saúde pode criar condições adversas durante fases importantes do desenvolvimento fetal.

Na primeira infância, a alimentação adequada e os cuidados de saúde são especialmente importantes porque cérebro e organismo passam por um período acelerado de crescimento. Quando uma crise climática compromete esses recursos, seus efeitos podem aparecer anos depois em indicadores educacionais.

A situação também ajuda a explicar por que o aquecimento global pode ampliar desigualdades já existentes. Recursos financeiros, seguros, infraestrutura e serviços públicos eficientes aumentam a capacidade de recuperação após um desastre. Famílias em situação de maior vulnerabilidade dispõem de menos alternativas para absorver perdas repentinas.

Transferência de renda pode amortecer os danos

Os efeitos de uma exposição climática precoce tampouco determinam o futuro de uma criança. Parte das pesquisas mostra possibilidades de recuperação quando famílias recebem apoio adequado.

Entre as estratégias estudadas estão os programas de proteção social, como transferências de renda destinadas a preservar o acesso a alimentos, cuidados de saúde e educação durante períodos de crise. Em alguns programas, os pagamentos estão vinculados à frequência escolar ou ao acompanhamento de saúde das crianças.

Na revisão analisada, seis estudos avaliaram transferências de renda realizadas durante secas, enchentes ou ciclones. Quatro encontraram efeitos positivos sobre resultados educacionais. A magnitude desses benefícios variou conforme a idade da criança, o valor recebido e a intensidade do desastre climático.

Um exemplo vem do México rural. Crianças expostas a condições adversas de chuva próximas ao período de nascimento apresentaram, posteriormente, menor número de séries escolares concluídas e menor probabilidade de continuar os estudos depois do ensino secundário. Entre famílias destinadas a receber pagamentos do programa Progresa, porém, as perdas educacionais associadas ao choque climático foram menores.

A transferência de renda funciona, nesse contexto, como uma espécie de amortecedor social. O recurso pode ajudar uma família a manter a alimentação, o atendimento médico e a permanência dos filhos na escola quando uma seca, enchente ou tempestade reduz sua renda.

Essa estratégia, entretanto, precisa fazer parte de uma política climática mais ampla. Recursos financeiros ajudam famílias a atravessar períodos de crise, mas não substituem a reconstrução de escolas, a adaptação da infraestrutura, a segurança alimentar, o fortalecimento dos serviços públicos e a redução das emissões de gases de efeito estufa.

Proteção começa antes do nascimento

A proteção de gestantes e crianças pequenas merece atenção específica nas políticas de adaptação climática. Os primeiros estágios da vida concentram processos biológicos e cognitivos que podem influenciar a trajetória de uma pessoa por décadas.

O desafio tende a crescer à medida que eventos extremos se tornam mais frequentes ou intensos em diferentes regiões. Ao mesmo tempo, os recursos destinados à cooperação internacional e ao desenvolvimento enfrentam pressão. Em 2025, o governo britânico anunciou a redução da ajuda oficial ao desenvolvimento, de aproximadamente 0,5% para 0,3% da renda nacional até 2027.

O cenário reforça a necessidade de considerar educação, saúde materno-infantil e proteção social como componentes da adaptação às mudanças climáticas. Preparar escolas para ondas de calor é importante, mas a resposta precisa começar antes da criança chegar à sala de aula.

Quando uma enchente recua ou uma seca termina, seus efeitos sociais podem permanecer. Para algumas crianças, o desastre climático pode aparecer posteriormente como uma interrupção nos estudos, atraso escolar, pior desempenho ou redução dos anos de educação concluídos.

A crise climática, portanto, também é uma questão de oportunidades. Proteger os primeiros anos de vida significa reduzir a possibilidade de que um evento extremo ocorrido durante a gestação ou a infância transforme uma emergência ambiental temporária em uma desvantagem educacional que acompanhe a criança por muitos anos.


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