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Arquitetura hostil, também chamada de design hostil ou arquitetura defensiva, é um recurso que utiliza elementos com o objetivo de separar, manter distância ou proibir algum tipo de comportamento. Alguns acreditam que essa é uma forma de manter ordem, garantir segurança e conter certos comportamentos indesejados, como dormir ou andar de skate em espaços públicos. No entanto, em alguns lugares, fica bem claro que a arquitetura hostil serve para separar algumas classes e principalmente afastar populações vulneráveis e sem-teto, sendo uma forma de gentrificação.

Para que serve a arquitetura hostil?

A arquitetura hostil é vista por seus defensores como uma forma de impedir determinados comportamentos ruins, como o que chamam de “vadiagem”. O ambiente que utiliza arquitetura hostil é minuciosamente projetado para desencorajar o público a utilizar os espaços para determinadas atividades. Em resumo, ela é feita para controlar o comportamento humano.

O que poderia servir como um assento, por exemplo, passa a ter algum tipo de objeto que impeça o ato de sentar ou deitar. Esse banco pode, ainda, ser projetado para evitar que alguém ande de skate por ele e acabe danificando o objeto.

Exemplos de arquitetura hostil

Banco com apoio de braço
Imagem de Scott Webb no Unsplash

Os elementos da arquitetura hostil estão espalhados pelas cidades. Muitas vezes, eles são inseridos de forma sutil sem que nós sequer fiquemos desconfiados, por exemplo, do motivo pelo qual fizeram um banco tão desconfortável. Talvez, a intenção era essa: evitar que alguém fique confortável por lá.

Alguns exemplos de elementos na arquitetura hostil são: 

  • Bancos inclinados: não são apenas desconfortáveis, eles são projetados para que os sem-teto não durmam neles;
  • Divisórias e apoios de braços em bancos: eles não são necessariamente para os braços e sim para evitar que alguém durma;
  • Pavimentação incomum com rochas ou outros materiais: também é um recurso para evitar que os sem-teto se abriguem;
  • Toldos com algumas aberturas: também servem para evitar que as pessoas se alojem ou durmam debaixo;
  • Bancos curvos ou feito em camadas: desconfortáveis o suficiente para impedir que alguém durma;
  • Cantos barrados: pequenos espaços vagos protegidos com barreiras para evitar que alguém se abrigue ali.

As aplicações de arquitetura hostil já deram luz a polêmicas em diversos lugares. Em Londres, pregos de metal foram instalados do lado de fora de um bloco de apartamentos no centro para evitar a presença de pessoas em situação de rua. Isso trouxe à tona o debate sobre esses recursos hostis. Organizações de caridade disseram que essas tachas de metal têm sido usadas para deter pessoas há mais de uma década.

Em Nova York, a arquitetura hostil aparece em boa parte dos espaços que deveriam ser públicos. Scott M. Stringer, controlador da cidade na época, descobriu que mais da metade dos espaços, em 2017, violavam requisitos da cidade e não forneciam amenidades obrigatórias que pudessem encorajar o uso público. Ao visitar 333 propriedades, a equipe de inspeção constatou que 193 lugares haviam violações como picos nas áreas de estar, placas faltando e outros recursos de uma evidente arquitetura hostil.

No Brasil, em 2021, o padre Júlio Lancelotti foi pessoalmente ao viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida, na zona leste da cidade de São Paulo, marretar as pedras instaladas pela Prefeitura. Tais pedras foram colocadas para evitar a presença e o abrigo de pessoas em situação de rua.

Até as árvores já empregam elementos hostis, como pregos nos troncos. Isso evita não só que crianças brinquem, mas que pássaros possam se movimentar livremente pelos poucos espaços naturais da cidade (veja um exemplo na Inglaterra: 1). 

Dean Harvey, cofundador de uma empresa que produz bancos hostis, aponta que a arquitetura hostil existe há séculos aparecendo, por exemplo, em edifícios da era georgiana no Reino Unido que tinham espigões nas paredes para impedir que alguém tentasse escalar. Sob outro ponto de vista, James Furzer, arquiteto que tenta combater a arquitetura hostil, diz que essa arquitetura só ganhou interesse mais recentemente, estando relacionada ao aumento do número dos sem-teto. 

O problema da arquitetura hostil

A arquitetura hostil e a inserção desses elementos para afastar pessoas em situação de rua traz à tona um problema mais profundo: o descaso e a banalidade que existe diante dessa parte da população. Pessoas em situação de rua são vistas como se fossem de uma outra espécie, diferentes, inferiores e perturbadores a ponto de não terem nenhum direito e serem dignos de serem mantidos longe.

Em um contexto de extrema desigualdade social, problemas como fome e pobreza aumentam. Não muito diferente, o número de pessoas em situação de rua também aumenta. Entre 2012 e 2020, esse número cresceu 140% chegando a quase 222 mil pessoas. E a arquitetura hostil não é a solução para esse problema. Na verdade, como o próprio nome indica, ela é só mais uma maneira de tratar os sem-teto com hostilidade.

Ao inserir esses elementos hostis em lugares públicos, proíbe-se não só que os sem-teto descansem, mas também idosos, enfermos e mulheres grávidas, por exemplo. E, assim, os espaços se tornam menos acolhedores para todos os humanos. Como aponta Alex Andrew em matéria ao The Guardian, torna-se o ambiente hostil e, consequentemente, também tornamo-nos mais hostis dentro dele.