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A sociedade precisa entender que, sem o ambiente, não tem como existir vida humana, afirma gestora ambiental

Rio Paraopeba – Brumadinho, Minas Gerais – Foto: Diego Baravelli/Wikimedia Commons

Análise da Fundação SOS Mata Atlântica afirma que o Rio Paraopeba está morto no trecho que corta Pará de Minas. Trata-se de uma consequência do rompimento da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho. Ana Paula Fracalanza, professora de Gestão Ambiental da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, analisa o caso, que afeta o abastecimento de água da região.

“Quando a Fundação SOS Mata Atlântica diz que o rio está morto, ela quer dizer que não há vida aquática”, afirma a especialista. Para determinar isso, a Fundação considerou alguns parâmetros enquanto realizou coleta de 22 pontos em 305 quilômetros do rio. Um deles foi o índice de turbidez, que aparece 6,83 vezes acima do limite máximo permitido por lei.

“A água estando turva faz com que haja dificuldade de um feixe de luz atravessar a água, e isso prejudica a fotossíntese e resulta em um aumento de calor. Então, a vida aquática é prejudicada e a vida acaba não conseguindo seguir”, explica Ana Paula. Outro fator associado à turbidez é a taxa insuficiente de oxigênio dissolvido, fazendo com que não exista manutenção da vida aquática, porque animais não conseguem sobreviver. “Apenas alguns tipos de bactérias, que não precisam de oxigênio para viver, conseguiriam persistir no Rio Paraopeba.”

De acordo com a professora, mesmo se o rio conseguisse voltar a ter vida depois de muito tempo de recuperação ambiental, precisaríamos pensar quais usos eram feitos da água. Alguns eram agricultura, pecuária, abastecimento. Quanto a isso, “em 24 de fevereiro, a Secretária de Estado de Saúde, Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais lançou uma medida de prevenção, proibindo o uso da água em qualquer finalidade por tempo indeterminado”.

Não há possibilidade de recuperação para abastecimento público. Um simples processo de purificação não basta para conter os metais pesados, “que, acima de alguns limites máximos, também são prejudiciais à saúde”. Como exemplos, temos: chumbo, mercúrio, ferro, cobre, manganês e cromo.

Para além da perda no uso da água, Ana Paula também ressalta o impacto ambiental: “Mesmo que houvesse a recuperação da vida aquática, não vai ser a mesma vida que havia anteriormente ao crime ambiental, porque a biodiversidade que havia antes do crime ambiental não tem como ser recuperada. Não temos como avaliar todas as espécies que existiam previamente à ocorrência do crime ambiental. Não há como avaliar isso”.

A professora explica o posicionamento que o governo e a sociedade devem ter para evitar casos como o de Brumadinho. Em relação ao governo, o posicionamento deve ser sempre preventivo, de fiscalização e de importância ao cumprimento das leis ambientais. “O Brasil tem uma legislação bastante avançada em relação às questões ambientais, então nesse sentido é fundamental que nós não soframos um retrocesso, que as leis sejam cumpridas, que as penalidades sejam, de fato, aplicadas.” Para ela, a sociedade deve pressionar e não apenas colaborar. “Fazer a sua parte de perceber que o ambiente é fundamental, que sem o ambiente não há vida. Sem as leis ambientais, sem o ambiente, não tem como existir a vida e nem o ser humano.”

Recentemente, no dia 15 de março, a Vale assumiu a elaboração, pagamento e execução de uma nova adutora, com extensão de 50 quilômetros, capaz de captar água do Pará e resolver o problema de abastecimento do município de Pará de Minas. Enquanto a obra não for finalizada, a construtora se comprometeu a perfurar novos poços artesianos que captem água do córrego dos Moreiras, que será interligada na tubulação já existente do Rio Paraopeba. Não sabemos o risco ou o impacto que ambas as medidas podem gerar.


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