Estudo com camundongos revela que, depois do fim da fase reprodutiva, os ovários passam por uma profunda reorganização biológica e podem influenciar processos inflamatórios ligados ao envelhecimento
Os ovários podem continuar exercendo funções relevantes muito depois do encerramento da vida reprodutiva. Uma pesquisa recente indica que, em vez de perder completamente sua atividade após a menopausa, esse órgão passa por uma transformação que o aproxima do sistema imunológico. A descoberta amplia o entendimento sobre o envelhecimento feminino e abre novas perspectivas para prevenir doenças inflamatórias associadas à idade.
Durante décadas, a ciência concentrou esforços para compreender o funcionamento dos ovários enquanto produzem óvulos e hormônios sexuais. Em contrapartida, o destino desse órgão após a menopausa permaneceu cercado de dúvidas. O novo estudo, publicado na revista Molecular Human Reproduction, investigou justamente essa fase pouco explorada.
Como a obtenção de amostras de ovários humanos após a menopausa apresenta limitações, os pesquisadores utilizaram camundongos, cuja trajetória de envelhecimento reprodutivo guarda semelhanças importantes com a dos seres humanos. Nos animais, a fertilidade diminui progressivamente até o período equivalente funcional à menopausa.
Para acompanhar as mudanças ao longo da vida, foram analisados três grupos de camundongos: jovens em idade reprodutiva, indivíduos com idade reprodutiva avançada e animais que já haviam ultrapassado completamente a fase fértil. Em cada exemplar, um ovário foi destinado à análise estrutural, enquanto o outro passou por exames de atividade genética, permitindo identificar quais genes permaneciam ativos e quais moléculas eram produzidas.
Os resultados mostraram uma transformação intensa dos ovários após o fim da reprodução. Nessa etapa, os folículos, pequenas estruturas que abrigam os óvulos imaturos, desaparecem completamente. Ao mesmo tempo, ocorre um acúmulo significativo de colágeno, tornando o tecido mais rígido.
Mesmo sem produzir óvulos, os ovários continuaram biologicamente ativos. A investigação identificou uma intensa presença de células do sistema imunológico, como linfócitos T, macrófagos e células gigantes, indicando que o órgão passa a desempenhar funções muito diferentes das exercidas durante a juventude.
A análise genética reforçou essa mudança. Genes associados à produção de óvulos e à síntese de hormônios reprodutivos apresentaram forte redução de atividade. Em contrapartida, aumentou a expressão de genes envolvidos na inflamação, na resposta imunológica e na ativação de leucócitos, os glóbulos brancos responsáveis pela defesa do organismo.
Os pesquisadores também observaram que os ovários remodelados liberam moléculas sinalizadoras capazes de circular pela corrente sanguínea. Essas substâncias podem atuar em diferentes tecidos do corpo, sugerindo que o órgão continua influenciando processos fisiológicos mesmo após encerrar sua função reprodutiva.
Ao nascimento, as mulheres possuem uma quantidade limitada de folículos, que diminui continuamente ao longo da vida. O envelhecimento dos ovários começa décadas antes do restante do organismo, refletindo na redução gradual da quantidade e da qualidade dos óvulos. Na menopausa, restam aproximadamente mil folículos, número insuficiente para manter a fertilidade.
Os resultados desafiam a visão tradicional de que os ovários se tornam estruturas inativas após a menopausa. As evidências apontam para uma reorganização funcional, na qual o órgão passa a atuar de maneira semelhante a componentes do sistema imunológico, participando de mecanismos inflamatórios relacionados ao envelhecimento.
Caso pesquisas futuras confirmem que o mesmo processo ocorre em mulheres, o conhecimento poderá orientar o desenvolvimento de estratégias terapêuticas voltadas ao controle da inflamação ovariana. Esse avanço tem potencial para reduzir o risco de doenças inflamatórias e de enfermidades associadas ao envelhecimento, contribuindo para melhorar a qualidade de vida durante o período pós-menopausa.