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O filósofo Peter Godfrey-Smith se dedica a estudar a incrível inteligência dos polvos e outros cefalópodes. Confira suas descobertas

Enquanto praticava mergulho com snorkel em Sydney, na Austrália, em 2007, o filósofo Peter Godfrey-Smith deu de cara com um choco, um tipo de molusco, gigantesco. A experiência teve um efeito profundo sobre ele, estabelecendo uma estrutura improvável para seu próprio estudo de filosofia, primeiro em Harvard e depois na Universidade da Cidade de Nova York. Fascinado com suas observações, Godfrey-Smith passou a se dedicar ao estudo da inteligência do polvo, do choco e de outros cefalópodes – animais subestimados pela humanidade, mas incrivelmente espertos.

A identidade dos polvos

Os olhos dos cefalópodes se parecem com os nossos, mas as semelhanças param por aí. À exceção da visão, diferimos em todos os sentidos. Os polvos, em particular, são bastante diferentes dos humanos. Para se ter uma ideia, a maior parte de seus 500 milhões de neurônios – cerca de 70% deles – se concentra nos tentáculos, que podem não apenas tocar, mas também cheirar e saborear alimentos. Sim: os “braços” dos polvos têm, literalmente, mentes próprias.

O fato de ser possível observar algum tipo de experiência subjetiva – talvez algo como um senso de identidade – nos cefalópodes deixou Godfrey-Smith fascinado. Com base em seus estudos sobre esses animais, ele escreveu o livro Other Minds: The Octopus, The Sea and the Deep Origins of Consciousness, publicado em 2017 pela editora HarperCollins. No Brasil, a obra foi batizada de Outras mentes: o polvo e a origem da consciência (Todavia, 2019).

Nesse trabalho, o autor explora questões filosóficas a respeito da vida e da consciência à luz do que observou em suas pesquisas com os cefalópodes, relatando episódios surpreendentes capazes de impressionar até as mentes mais céticas. A certa altura, Godfrey-Smith conta que viu um polvo levando um homem pela mão em um passeio de dez minutos até sua toca. “Era como se ele estivesse sendo conduzido pelo fundo do mar por uma criança muito pequena de oito pernas”.

Anedotas encantadoras como essa são abundantes no livro de Godfrey-Smith. Ganham destaque os relatos sobre os rebeldes polvos em cativeiro que frustram as tentativas de observação dos cientistas.

A inteligência dos polvos

Um artigo de 1959 detalhou uma tentativa na Estação Zoológica de Nápoles de ensinar três polvos a puxar e soltar uma alavanca em troca de comida. Albert e Bertram, os dois primeiros polvos, atuaram, segundo o estudo, de maneira “razoavelmente consistente”. Mas o último deles, chamado Charles, tentou arrastar uma luz suspensa acima da água para dentro do tanque, depois esguichou água em quem se aproximava e, para fechar com chave de ouro, quebrou a alavanca, encerrando o experimento por conta própria.

Aliás, a maioria dos aquários que tentou manter polvos em cativeiro para observação coleciona histórias incríveis de fuga – e até de visitinhas noturnas aos tanques vizinhos em busca de comida. Godfrey-Smith menciona ainda polvos que aprenderam a apagar as luzes com jatos de água, causando um curto-circuito no fornecimento de energia. Em outros lugares, os animais obstruíram as válvulas de saída de seus tanques, fazendo com que eles transbordassem.

Essa aparente capacidade de resolução de problemas levou os cefalópodes (em especial os polvos, que foram mais estudados do que lulas ou chocos) a serem reconhecidos como bichos superinteligentes. Comparando o número de neurônios, eles se aproximam dos cães domésticos – o que não é pouca coisa.

Em cativeiro, eles aprenderam a navegar em labirintos simples, resolver quebra-cabeças e abrir potes com tampa de rosca, enquanto animais selvagens foram observados empilhando pedras para proteger a entrada de suas tocas e se escondendo no interior de cascas de coco.

Esse comportamento também reflete sua destreza: um animal com menos de oito pernas pode fazer coisas menos impressionantes, mas isso não garante que ele seja mais ou menos estúpido do que os cefalópodes. Segundo Godfrey-Smith, não há uma métrica para medir a inteligência. Alguns marcadores, como o uso de ferramentas, foram definidos simplesmente porque eram evidentes em humanos.

“Acho que é um erro buscar uma conclusão única e definitiva”, disse Godfrey-Smith ao jornal britânico The Guardian. “Os polvos são muito bons em vários tipos de aprendizagem sofisticados, mas é difícil medir seu nível de inteligência – em parte porque eles não deixam. Nós recebemos uma pequena quantidade de animais no laboratório, e alguns se recusam a fazer qualquer coisa que a gente queira que eles façam. São animais muito indisciplinados.”

As grandes fugas de cativeiro também refletem a consciência de suas circunstâncias especiais e sua capacidade de se adaptar a elas. Um experimento de 2010 confirmou relatos anedóticos de que os cefalópodes são capazes de reconhecer humanos diferentes – e até de simpatizar ou não com eles –, mesmo que todos estejam vestindo a mesma roupa.

Mentes alienígenas ou mistério da natureza?

Não é exagero dizer que os polvos têm personalidade. No entanto, as inconsistências de comportamento, combinadas à sua aparente inteligência, apresentam uma óbvia armadilha de antropomorfismo. É “tentador”, admite Godfrey-Smith, atribuir seus muitos enigmas a “alguma explicação sobre-humana”. Por isso, muitas pessoas acreditam que a mente brilhante dos cefalópodes seja o legado de alguma inteligência alienígena.

No entanto, as opiniões sobre a inteligência do polvo variam dentro da comunidade científica. Um preceito fundamental da psicologia animal, cunhado por um psicólogo britânico do século 19, C. Lloyd Morgan, consiste em não atribuir nenhum comportamento a um processo interno sofisticado, se esse comportamento puder ser explicado por um processo mais simples.

Isso é indicativo de uma preferência geral pela simplicidade das hipóteses na ciência, diz Godfrey-Smith, das quais ele não está convencido. Mas a pesquisa científica no geral tornou-se mais orientada para resultados, como consequência dos ciclos de financiamento e de publicação dos estudos.

Alheio a esses ciclos, Godfrey-Smith acredita estar em uma posição privilegiada, onde, como filósofo, pode fazer perguntas abertas, sem a obrigação de obter resultados precisos e definitivos. “É um grande luxo poder pesquisar ano após ano, juntando as peças lentamente”, afirma ele.

Esse processo de pesquisa, iniciado por seu encontro casual com um choco em 2007, ainda está em andamento. De volta à Austrália e lecionando na Universidade de Sydney, Godfrey-Smith diz que seu estudo sobre cefalópodes está influenciando cada vez mais sua vida profissional – e também a pessoal. “A Chegada (filme de 2016 que relata um contato entre humanos e alienígenas “cefalópodes”) é um filme bom e inventivo, embora os invasores se pareçam mais com águas-vivas do que com polvos”, opina.

Polvos fornecem pistas sobre a origem da consciência humana

Godfrey-Smith acredita que o estudo dos cefalópodes dá algumas pistas para questões sobre as origens de nossa própria consciência.

Nosso último ancestral comum existia há 600 milhões de anos. Por algum tempo, a ciência acreditava que ele se parecia com um verme achatado, talvez com apenas alguns milímetros de comprimento. Ainda assim, em algum momento ao longo da história da evolução, os cefalópodes desenvolveram olhos semelhantes aos nossos, com capacidade de visão em “alta resolução”, de maneira totalmente independente.

O fato de dois animais tão diferentes terem desenvolvido um tipo de visão tão parecido nos incentiva a pensar sobre o processo de evolução, bem como sobre o ciclo de vida inexplicavelmente curto dos cefalópodes: a maioria das espécies vive cerca de um a dois anos, o que Godfrey-Smith lamenta. Além de aproveitar pouco a amizade desses bichos tão curiosos, o investimento para estudá-los não compensa, uma vez que o tempo disponível é mínimo.

Mas o que explicaria um ciclo de vida tão reduzido? Uma possibilidade é que o cérebro do polvo tenha de ser muito poderoso para comandar um corpo tão pesado e realizar atividades tão complexas – da mesma forma que um computador precisaria de um processador de última geração para realizar um alto volume de tarefas difíceis. Nesse processo, o cérebro dos cefalópodes se desgastaria com muito mais rapidez. No entanto, essa explicação não dá conta de explicar o talento, a ludicidade e até a rebeldia que esses animais têm demonstrado.

“Os polvos se comportam com inteligência, fazem tantas coisas diferentes e inventivas… Acho que essa linha de raciocínio não nos dá respostas, de forma alguma”, afirma Godfrey-Smith. “Ainda há um elemento um tanto misterioso neles”, conclui o filósofo.