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Acervos folclóricos da Irlanda guardam milhares de observações que orientavam agricultores e pescadores, revelando uma sintonia perdida com o ambiente

Em um tempo anterior aos satélites e às previsões computadorizadas, a população da Irlanda decifrava os caprichos do clima observando minutamente o mundo à sua volta. A cor do céu ao entardecer, o voo das andorinhas, o comportamento dos animais e até a fumaça da lareira carregavam mensagens sobre o tempo que viria. Esse vasto corpo de saberes, transmitido por gerações em rimas e provérbios, vai muito além da superstição: trata-se de um sistema refinado de conhecimento ecológico tradicional, agora preservado em arquivos digitais.

O National Folklore Collection, um dos maiores repositórios de tradição oral da Europa Ocidental, abriga milhões de páginas com costumes, histórias e crenças. Entre elas, milhares de ditos sobre o tempo, registrados tanto em irlandês quanto em inglês. Parte desse material foi coletado por crianças nas décadas de 1930, que ouviram os mais velhos e documentaram percepções acumuladas por séculos.

A direção do vento, a aparência da lua com seu halo esbranquiçado, o tom do pôr do sol – tudo era interpretado. Um céu vermelho à noite anunciava tempo bom; pela manhã, era sinal de chuva. Andorinhas voando baixo pressagiavam tempestade, enquanto gaivotas chegando ao interior alertavam para tormentas no mar. Até o comportamento doméstico era lido: um gato de costas para o fogo ou a fumaça da chaminé que não subia indicavam mau tempo.

Registros em língua irlandesa, especialmente do litoral oeste, revelam uma atenção aguçada aos sinais marinhos. A cor do oceano, o movimento da espuma e até o comportamento das focas, chamadas de mucaí mara (porcos do mar), orientavam pescadores. No interior, as fontes em inglês refletiam preocupações agrícolas: a umidade do solo, o ciclo das colheitas e o florescimento das árvores serviam como calendário natural.

Essas observações geraram rima que auxiliavam a memorização. “Ash before oak, there’s sure to be a soak; oak before ash, there’s sure to be a splash” é um exemplo que relacionava a ordem do brotar das árvores à previsão de chuva. O conhecimento era adaptado regionalmente e funcionava como uma bússola para o plantio, a colheita e a navegação.

Estudos recentes começam a enxergar esse acervo não apenas como folclore, mas como um patrimônio climático. Em uma era de mudanças ambientais aceleradas, essa tradição recorda uma capacidade humana de ler pistas sutis na natureza – uma atenção sensorial ao ambiente que se enfraquece na era digital. A releitura desse legado convida à reflexão sobre formas de conhecimento que integravam vida cotidiana, memória e o ritmo dos ecossistemas.


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