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Reflorestamento feito com monocultura de espécies pode gerar maiores impactos ambientais

  • por Gianluca Cerullo, traduzido por Thaissa Lamha em Mongabay Projetos de plantio de árvores são muito populares em todo o mundo, mas muitos usam o velho hábito de plantar monoculturas de espécies como eucaliptos ou acácias e chamá-las de florestas.
  • Pesquisadores dizem que há maneiras de fazer com que essas plantações ajudem em projetos verdadeiros de restauração, incluindo iniciativas inovadoras na Mata Atlântica paulista.
  • Para garantir que cumpram seus compromissos relativos ao clima e à biodiversidade, programas de reflorestamento e restauração requerem monitoramento e inspeção.

Era como se um enorme aspirador tivesse sido usado na floresta. Os assobios de pássaros e o coaxar de sapos haviam desaparecido, e junto com eles a vegetação que se emaranhava junto ao chão, onde plantas disputavam por um espaço ao sol na sombra projetada pelas copas. Agora, árvores de mesma altura crescem sob o sol ardente, distribuídas e enfileiradas sobre um solo despido de verde.

Era para ser um projeto de reflorestamento. Mas algo deu muito errado.

Agências do governo do Camboja apregoaram o programa de reflorestamento de Prey Lang, no centro do país, como o primeiro grande passo em direção a uma restauração climática focada no clima. A administração florestal do Camboja deu ao empreiteiro sul-coreano Think Biotech uma concessão de reflorestamento de 34 mil hectares sob a promessa de  atenuar o efeito das emissões de gases que causam o efeito estufa plantando árvores.

Mas o que aconteceu não se parece muito com uma vitória contra as mudanças climáticas.

Membros da comunidade e cientistas argumentam que a Think Biotech devastou uma floresta tropical diversa e a substituiu por uma monocultura de acácia. Espécies habituais foram expulsas de terras que elas não reconhecem mais. Como um membro da comunidade disse em um encontro comunitário em 2015, “era sombreado e fresco. Agora o sol brilha através da vegetação e sentimos o calor em nossas cabeças”.

O risco de que o projeto de reflorestação climática de Prey Lang possa ser um prenúncio do que está por vir só se intensificou à medida em que compromissos de plantio de árvores aumentaram exponencialmente ao redor do mundo. Parece que plantar árvores nunca esteve tão em voga. Em 2019, a Etiópia alcançou o recorde mundial de plantio de árvores, supostamente plantando 350 milhões de mudas em um período de 12 horas. Pelo menos três iniciativas de “trilhões de árvores” estão em curso atualmente. A China trabalha para plantar uma parede verde do tamanho da Alemanha em sua árida região norte até 2050, em uma tentativa de segurar o avanço do Deserto de Gobi.

Até empresas estão lançando iniciativas. O conglomerado de celulose e papel APP e o gigante de combustíveis fósseis Shell receberam olhares tortos e ira por trombetear as virtudes de seus projetos de reflorestamento próprios enquanto continuam a desmatar florestas e perfurar em busca de hidrocarbonetos.

Estimulada pelos compromissos do Desafio de Bonn para restaurar uma área de terras degradadas maior que a Índia até 2030, as plantações de árvores parecem prestes a se tornar grande parte do que a Organização das Nações Unidas está chamando de “Década de Restauração do Ecossistema”.

Mas no centro desse aparente frenesi de plantio de árvores estão questões sobre o que a restauração significa – e, talvez de forma mais controversa, se as plantações de espécies únicas devem contar para metas de restauração.

Florestas cultivadas

Você seria perdoado por pensar que cultivo e restauração estão em lados opostos do espectro. As monoculturas normalmente são um flagelo nos ecossistemas nativos, pois estão focadas na produção eficiente de algum produto: óleo de palma em Bornéu, por exemplo, ou eucalipto no Cerrado brasileiro. Com frequência sua expansão devasta ambientes naturais, prejudicando a biodiversidade e as formas de subsistência locais. A restauração, por outro lado, deveria ser um processo de reparo do ecossistema, com a meta de reintroduzir o coração pulsante da natureza em paisagens degradadas por humanos.

Na prática, a história é muito mais confusa.

Uma avaliação amplamente divulgada na revista Nature em 2019 revelou que, em muitos países, a linha que divide cultivo e restauração é menos clara do que parece inicialmente. Pesquisadores florestais passando o pente fino em compromissos de restauração governamentais revelaram que quase metade das novas florestas prometidas serão monoculturas de espécies que crescem rapidamente, como acácia e eucalipto, ao invés do início de ecossistemas em recuperação.

Na época, os dois autores principais do estudo, Charlotte Wheeler, da Universidade de Edimburgo, e Simon Lewis, da Universidade de Leeds, ambas no Reino Unido, consideraram essa revelação um escândalo.

“Refrear as mudanças climáticas através da restauração dos ecossistemas da terra pode ser um profundo legado positivo do século 21, mas não se governos e seus assessores fingirem que vastas monoculturas de árvores comerciais são restauração florestal”, escreveram eles em um blog.

Sua pesquisa se concentra nas desastrosas consequências climáticas de um futuro demasiadamente focado no plantio de espécies únicas, mostrando que florestas naturais de longa maturação eventualmente capturam cerca de 40 vezes mais dióxido de carbono do que cultivos de árvores comerciais, frequentemente cortadas. Trata-se de um choque de realidade importante no momento em que países e empresas lutam para divulgar metas de plantio de árvores cada vez maiores.

“As pessoas têm se mostrado muito interessadas na diferença entre a captura de carbono em florestas que se regeneram naturalmente em comparação a florestas cultivadas”, disse Wheeler à Mongabay.

No entanto, em diversos lugares, florestas de árvores cultivadas já são mais do que somente um escândalo climático. Na China, pesquisadores mostraram que plantações de acácias não nativas (Robinia pseudoacacia) no Platô de Loess capturam 92% das chuvas nos anos úmidos, apropriando-se da água fresca que mantém os rios fluindo. Já o governo da África do Sul continua a gastar milhões de dólares a cada ano em sua campanha principal Working for Water para limpar plantações de árvores daninhas e consumidoras de água em áreas de bacias hidrográficas críticas.

Enquanto isso, alguns cientistas alertam que, no Chade, grandes esforços de plantio podem colocar em perigo o programa de reintrodução do órix-de-cimitarra (Oryx dammah). E no norte de Moçambique, pesquisas de satélite mostram que mais de dois terços das plantações de madeira entre 2001 e 2017 foram feitas em terras de cultivo agrícola, potencialmente exacerbando a pobreza, a desnutrição e o desemprego rural ao deslocar a produção de comida.

Então por que, depois de milênios homogeneizando os ecossistemas da Terra, vários países planejam homogeneizar as formas de repará-los? Por que focar em soluções de monocultura nos compromissos de restauração?

Wheeler diz que tudo se resume a dois motivos: rapidez e facilidade: “As monoculturas de curta rotação têm ritmos mais rápidos de captura de carbono do que a floresta que se regenera naturalmente, então em curto prazo elas são muito atraentes”.

As plantações também são mais fáceis e mais rentáveis de se implantar em nosso sistema econômico atual do que as florestas naturais, já que estas últimas requerem que se reúna sementes e mudas nativas de florestas existentes para serem criadas em viveiros.

Essa rapidez e facilidade ajudou a tornar as plantações de árvores um esteio das paisagens tropicais. Mas além do inegável dano que elas causaram em alguns ecossistemas, as monoculturas têm também outro lado raramente discutido em círculos de conservação. E esse pode ser um lado bom.

O uso da madeira cultivada na África

Quando o imperador Menelik II começou a construir a capital da Etiópia, Adis Abeba, por volta de 1884, ele se viu frente a um desafio imediato. As florestas nativas ao redor haviam praticamente sumido. Como ele poderia construir sua nova metrópole e providenciar lenha para sua população com a falta de madeira? A resposta de Menelik veio na forma de uma das exportações da Austrália que mais mudaram o mundo: eucaliptos. Durante seu reino, e sob conselho do engenheiro de ferrovias francês Casimir Mondon-Vidailhet, Menelik supervisionou a introdução de 15 espécies de eucalipto na Etiópia.

Hoje, nas cidades e nas hortas caseiras do sudoeste da Etiópia, a herança de Menelik está viva. A maior parte das escolas, casas e hospitais em construção é sustentada por andaimes de eucalipto. No campo, plantações resistentes de eucaliptos dividem a paisagem com as casas de telhado de sapê e campos de bananeira-da-abissínia, sorgo e fava.

Esses pequenos bosques etíopes são bem diferentes das vastas e mecanizadas plantações industriais comuns em países como Brasil e Indonésia. No entanto, em diversas partes do mundo, os cultivos de madeira costumam ser pequenos, de propriedade dos moradores e facilmente disponíveis como fonte de lenha e material de construção para algumas das pessoas mais pobres do mundo.

Na Tanzânia, mais da metade das plantações de madeira são menores do que 1 hectare. Mas juntas elas ocupam uma área maior do que todos os cultivos de árvore do governo e de empresas juntas. Na Índia, as administrações florestais de muitos estados ativamente promovem a silvicultura social como forma de melhorar os meios de subsistência e aliviar as pressões de exploração madeireira nas florestas naturais próximas.

O principal objetivo desses cultivos é a produção de lenha e madeira de construção, e eles o cumprem muito bem. Plantações de madeira não gerenciadas no sul de Gana, abandonadas por mais de 40 anos, criam até cinco vezes mais receita de venda de madeira do que florestas nativas em recuperação de idade parecida na região. Mas alguns cultivos, especialmente aqueles mais próximas a ecossistemas naturais, podem ter benefícios adicionais surpreendentes. Alguns servem de incentivo à biodiversidade.

A quantidade de espécies selvagens que elas podem abrigar depende de diversos fatores, diz Matt Betts, professor de Ecologia Florestal na Universidade do Estado do Oregon. Plantações com espécies mistas e aquelas que mantêm “heranças” de habitats anteriores, como árvores remanescentes ou madeira derrubada, tendem a ser um habitat de qualidade muito maior do que jovens plantações de monocultura. O número de anos entre os cortes com motosserra, chamado de rotação, também é importante.

“Muitas plantações são abatidas para maximizar o retorno econômico ou a produção — muitas vezes substancialmente mais cedo do que o intervalo de retorno de uma perturbação natural”, diz Betts.

Plantações mais antigas podem abrigar grande número de pássaros e atuam também como corredores através dos quais alguns animais que vivem em florestas podem se mover. As plantas também podem se beneficiar de algumas práticas da manutenção de plantações, desafiando a ortodoxia de que as monoculturas sempre empobrecem o meio ambiente.

“Muitos conservacionistas veem as plantações de madeira como ‘desertos verdes’, desprovidos de regeneração natural na serrapilheira”, disse à Mongabay Pedro Brancalion, professor na Universidade de São Paulo. “Esse é o caso das plantações de curta rotação e intensivamente administradas, mas talvez não seja o caso das plantações de longa rotação, que podem ter uma rica diversidade de plantas nativas na serrapilheira.”

Redefinindo o papel do eucalipto no Brasil

Nos trópicos, cientistas têm mostrado repetidamente que plantações menos intensivamente administradas (ou abandonadas) e estruturalmente diversas funcionam como viveiros imprevistos de mudas, abrigando um número notável de brotos em crescimento embaixo de suas copas.

Brancalion está numa missão para usar este viveiro potencial para dar ao eucalipto uma nova reputação. Ele concorda com outros conservacionistas que as monoculturas nunca poderão substituir ecossistemas naturais em seu valor de conservação. Mas através de um projeto experimental de larga escala de reflorestamento na Mata Atlântica brasileira, Brancalion e seu time dizem esperar poder redefinir os eucaliptos, passando-os de vilões da conservação a aliados recém-descobertos da restauração.

O experimento que ele lidera luta com um obstáculo comum na restauração. Compromissos grandes de reflorestamento são ótimos, mas como eles podem ser financiados? Uma opção, diz Brancalion, é intercalar o eucalipto, árvore comercializável de rápido crescimento, com uma floresta natural em regeneração.

Enquanto as espécies nativas e de crescimento lento começam a restaurar regularmente a complexa floresta tropical abaixo, os eucaliptos intercalados estão crescendo em direção ao céu. Subsequentemente derrubar e vender essa fonte de madeira rápida pode ajudar a pagar os custos iniciais de plantio e financiar a manutenção constante da serrapilheira biodiversa.

Em seu estudo, Brancalion e sua equipe descobriram que ao ceifar o eucalipto de rápido crescimento, os responsáveis pela restauração poderiam compensar de 45 a 75% do custo do plantio e manutenção de árvores nativas em um período de cinco anos, tudo sem afetar negativamente a restauração da serrapilheira.

Embora possa parecer contra-intuitivo, Brancalion diz que esse esse sistema de intercalar árvores para recuperação de custos tem potencial significativo em outras regiões tropicais, e algumas companhias já estão colocando isso em prática na costa atlântica brasileira.

Quanto de árvores plantadas é demais?

De desertos verdes que consomem água e destroem o meio ambiente a potenciais aliadas da restauração, provedoras de formas de subsistência e aliviadoras da degradação florestal, a história das monoculturas de árvores é multifacetada. Mas a questão se mantém: quantas plantações de árvores são demais quando se trata de compromissos de reflorestamento de larga escala?

Wheeler, da Universidade de Edimburgo, diz que certa quantidade de plantações deve ser incluída nas metas de restauração, especialmente em locais nos quais elas podem fornecer recursos que reduzem as pressões madeireiras em florestas naturais.

Mas ela também diz que as ações de restauração precisam parar de cultivar espécies de eucalipto e acácia de madeira macia destinadas a fábricas de celulose e papel. O carbono nestes produtos de uso rápido é liberado rapidamente, retornando à atmosfera e piorando a mudança climática. Ao invés disso, para ter benefícios duradouros em relação à mudança climática, é preciso se concentrar em cultivar madeiras de lei, como teca e mogno, que produzem um efeito duradouro de retenção de carbono tipicamente existente em florestas naturais.

Para outros, a restauração não deveria focar em produção de madeira de forma alguma.

“Não fiz uma análise completa disso, mas minha hipótese é a de que plantações focadas em produção de madeira não deveriam contar para as metas nacionais de restauração — a não ser que a restauração seja o objetivo explícito do plantio (e que esforços tenham sido feitos para diversificá-lo)”, diz Betts, da Universidade do Estado do Oregon.

Tal diversificação pode envolver trocar as plantações de monocultura para plantações multiespécies, reduzir as intervenções florestais na serrapilheira ou se certificar que todas as árvores plantadas vêm de espécies diversas o suficiente para serem resilientes aos desafios da seca e da mudança climática.

Pedro Brancalion, da Universidade de São Paulo, diz que as plantações industriais simplesmente não contam.

“As plantações industriais de madeira são ótimas para produzir madeira, e é só”, ele diz. “Elas são importantes como atividade econômica e têm um papel importante nas economias modernas, mas não podem ser consideradas como restauração de ecossistema.”

Ele diz ainda que não se pode contar com elas para maximizar a biodiversidade, contribuir para o sequestro de carbono, ou incentivar meios de subsistência locais e serviços nas bacias hidrográficas.

Matt Fagan, professor na Universidade de Maryland, diz que a exata proporção de terras que os países escolhem destinar a plantações ou floresta natural não é a parte mais importante de seus compromissos de restauração, e é algo que os próprios países podem decidir. O que importa em última análise é garantir que as plantações de monocultura não substituam ecossistemas naturais. Ele cita o caso da Costa Rica, onde governos subsidiaram a expansão de plantações de árvores de monocultura, mas estas substituíram de forma bastante ampla os pastos, ao invés das florestas.

Na realidade, de acordo com Fagan, o melhor lugar para expandir as plantações de monocultura nos trópicos é nos pastos abandonados. “[Isso] não deslocaria usos humanos da terra, não diminuiria a biodiversidade, e é provável que a plantação cresça rapidamente e sequestre carbono”, ele diz.

No que diz respeito ao pior lugar para se cultivar uma plantação, há diversas opções.

“Primeiro, você substitui uma floresta tropical antiga ou uma floresta seca com uma plantação”, diz Fagan. “Segundo, você expande as plantações para as terras vizinhas de fazendeiros com pequenas propriedades, seja tomando suas terras ou pagando a eles para que se mudem. Eles provavelmente terão problemas financeiros e passarão a desmatar outro habitat para agricultura.”

A última opção, diz ele, é cultivar plantações sobre pastagens naturais antigas, introduzindo árvores a um ambiente no qual elas sufocam a biodiversidade adaptada ao local e se tornam vulneráveis a incêndios.

Independentemente das nuances envolvendo as plantações, todos os cientistas concordam em um ponto: a restauração que envolve a destruição de habitats naturais, como aconteceu em Prey Lang e em outros locais, não merece este nome.

Um sinal do que está por vir?

Ao entrarmos na Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas, há lições para se aprender dos últimos anos de expansão nas plantações de árvores. Onde isso aconteceu? Com que consequências? E quanto dessa expansão foi de plantações de árvores comparado à rebrota natural?

As respostas a essas questões são vitais para uma sociedade que inicia esforços históricos de reflorestamento. No entanto, por um longo tempo, as respostas permaneceram evasivas. O motivo é uma tecnicidade. Até bem recentemente, distinguir o crescimento de florestas naturais de plantações de árvores em largas escalas espaciais foi uma tarefa complicada, algo como um Santo Graal dos cientistas de satélite.

“Embora plantações de monocultura sejam frequentemente distintas como um bloco aos nossos olhos quando as observamos de um avião, em questão de cores elas frequentemente se sobrepõem às florestas naturais, confundindo dessa forma os algoritmos que trabalham com píxeis borrados,” diz Fagan. Em outras palavras, computadores têm dificuldade de distinguir florestas naturais de plantações de árvores.

Junte-se a isso o fato de que as nuvens frequentemente obstruem vistas de satélite de paisagens tropicais, e começa a se tornar claro o porquê das respostas terem sido evasivas por muito tempo.

Mas Fagan e seu time dizem que acharam recentemente a solução. Eles usaram o enorme poder de processamento do Google Earth, além de tecnologias de radar que penetram nuvens e mais de 600 mil localizações conhecidas de plantações e  de florestas naturais, para ensinar aos algoritmos a diferença entre uma plantação e uma floresta natural. Agora, pela primeira vez, podemos começar a desvendar padrões anteriores de expansão de plantações de árvores nos trópicos.

Os resultados mostram um quadro preocupante. Entre 2000 e 2012, a expansão das copas de árvores foi dominada não pela regeneração de floresta natural biodiversa, mas por linhas perfeitas de plantações de monoculturas. No total, essas plantações somaram aproximadamente dois terços da expansão de árvores observada, 92% dos quais em “pontos críticos de biodiversidade”.

As terras áridas também foram duramente atingidas.

“Densas plantações de árvores em terras áridas são propensas a crescer lentamente (se é que crescerão), queimar em um incêndio ou sugar toda a água dos lençóis freáticos”, diz Fagan. “E, no entanto, um quinto de todas as plantações que observamos foram plantadas em biomas áridos.”

Mas a descoberta mais terrível, diz Fagan, é o que aconteceu em áreas protegidas. Uma em cada 11 áreas protegidas sucumbiu às fortes pressões de plantações de árvores, e seu status de protegidas não conseguiu manter a expansão das monoculturas à distância.

Esses resultados são um sinal de alerta para promessas de reflorestamento de grande escala. Ou, como Fagan diz, “esperemos que o passado não seja o prólogo”.

Enquanto isso, qualquer expansão de plantio que venha a acontecer sob a bandeira do reflorestamento terá que enfrentar outros desafios, antigos e novos. Histórias coloniais são frequentemente associadas a decisões questionáveis sobre o estabelecimento de plantações. Por exemplo, Trisha Gopalakrishna, da Universidade de Oxford, aponta que muitas das savanas biodiversas da Índia são incorretamente consideradas “terrenos baldios” devido a um erro de classificação colonial da vegetação da Índia.

“Esse é um grande problema, já que muitos dos ecossistemas abertos da Índia [pastagens e savanas] estão sendo direcionados para atividades de florestamento para alcançar as metas e objetivos da Índia segundo o Acordo de Paris,” ela diz.

Também há a investida constante da própria mudança climática, que Gopalakrishna descreve como “uma grande ameaça não apenas à restauração, mas a todos os processos e ao funcionamento do ecossistema associados”.

Evidências sugerem que as plantações são mais vulneráveis a incêndios, secas e doenças do que as florestas em regeneração natural, lançando mais um desafio à questão.

Então, quer você acredite que as plantações de árvores devam valer como reflorestamento ou não, uma coisa é certa: conforme os projetos de plantio de árvores proliferam, com certeza precisamos ficar de olho neles.

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Imagem do banner: Paisagem contendo mata nativa em processo de regeneração natural sob uma plantação de eucalipto. Imagem cortesia de Paulo Guilherme Molin/Universidade Federal de São Carlos.

Este texto foi originalmente publicado por Mongabay de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original.