Cresce o consumo de alimentos não saudáveis entre os menos escolarizados

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Estudo realizado com 10 mil pessoas também mostrou aumento do consumo de alimentos saudáveis entre a população em geral na pandemia

Alimentos não saudáveis
Imagem de Jessica Tan no Unsplash

Além das mudanças de comportamento para se proteger contra a Covid-19, a população brasileira mudou hábitos alimentares durante a pandemia. Estudo realizado com dez mil participantes da coorte NutriNet Brasil identificou aumento do consumo de frutas, hortaliças e feijão entre a população em geral. Mas houve aumento do consumo de ultraprocessados entre os menos escolarizados no Brasil. Os ultraprocessados estão relacionados ao desenvolvimento de doenças crônicas que impactam na letalidade da Covid-19, enquanto que os alimentos saudáveis aumentam os mecanismos de defesa do organismo contra a doença.

Os dados sobre mudanças de hábitos na pandemia provêm do estudo de coorte NutriNet Brasil, criado pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde

(Nupens) da USP. A proposta é investigar prospectivamente a relação na população adulta entre os padrões de alimentação praticados nas várias regiões brasileiras e a incidência de doenças crônicas, responsáveis por mais de metade das mortes de brasileiros entre 30 e 69 anos de idade, incluindo a diabete, as doenças cardiovasculares e o câncer.

Para identificar mudanças de hábitos alimentares na pandemia, o estudo delimitou dois períodos de tempo, o primeiro entre 26 de janeiro e 15 de fevereiro de 2020 e o segundo entre 10 e 19 de maio de 2020. Um artigo sobre o tema, Mudanças na alimentação na coorte NutriNet Brasil na vigência da Covid-19, será publicado em agosto na Revista de Saúde Pública.

Por meio da plataforma digital da pesquisa, os participantes da coorte NutriNet Brasil responderam questionários sobre o consumo no dia anterior de alimentos saudáveis (hortaliças, frutas e leguminosas) e não saudáveis (ultraprocessados), antes e durante a pandemia.

Na categoria de alimentos saudáveis, foram incluídos 29 itens, sendo 18 tipos de hortaliças (alface, rúcula, couve, brócolis, abobrinha, quiabo, berinjela, tomate, etc.), dez tipos de frutas (banana, laranja, manga, abacaxi, uva, açaí, maçã, etc.), além de feijão e outras leguminosas (lentilha e grão-de-bico). Na categoria de alimentos não saudáveis, estavam os refrigerantes, sucos de caixinha, embutidos, pão de forma, macarrão instantâneo, pizzas, hambúrguer, margarina, batata frita congelada, maioneses, molhos prontos para saladas, salgadinhos de pacote, biscoitos doces, sorvete, cereal matinal açucarado, entre outros.

Tabulados os dados da pesquisa, para os todos participantes do estudo, identificou-se aumento modesto, porém estatisticamente significante, no consumo dos marcadores de alimentação saudável e estabilidade no consumo dos marcadores de alimentação não saudável. Esse padrão favorável de mudanças na alimentação devido à pandemia se repetiu na maior parte dos estratos sociodemográficos, exceto nas macrorregiões Nordeste e Norte e entre pessoas com menor escolaridade, nas quais o aumento no consumo de frutas, hortaliças e leguminosas foi acompanhado de aumento no consumo de alimentos ultraprocessados, relata o estudo.

Por que se come mais ultraprocessados?

Segundo o professor Carlos Monteiro, do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP e coordenador da pesquisa NutriNet Brasil, uma das explicações para a aparente desigualdade social observada na resposta à pandemia poderia ser a maior vulnerabilidade das pessoas mais pobres à publicidade de alimentos ultraprocessados, que foi bastante intensificada durante a pandemia, incluindo doações para profissionais de saúde.“Independentemente da razão da desigualdade, ela preocupa, pois são claras as evidências de que o consumo de alimentos ultraprocessados aumenta substancialmente o risco de doenças que tornam a Covid-19 mais letal”, diz o pesquisador ao Jornal da USP.

Embora tenha havido aumento no consumo de alimentos ultraprocessados nas regiões economicamente menos desenvolvidas do País e entre pessoas com menor escolaridade, Monteiro se anima com outra vertente do estudo, que mostrou que, em todas as regiões e estratos de escolaridade, as pessoas colocaram mais feijão, hortaliças e frutas em suas refeições diárias.

Mudanças nos indicadores de alimentação saudável

Para o conjunto dos participantes, os quatro indicadores de alimentação saudável evoluíram favoravelmente. Aumentos estatisticamente significantes, ainda que de pequena magnitude, ocorreram para a frequência de consumo no dia anterior de hortaliças (de 87,3 para 89,1%), de frutas (de 78,3 para 81,8%), de feijão ou outras leguminosas (53,5 para 55,3%) e dos três itens anteriores (de 40,2 para 44,6%).

Mudanças estatisticamente significantes em, pelo menos, um indicador de alimentação saudável foram vistas entre homens e mulheres, em adultos jovens (18-39 anos), de meia-idade (40-59 anos) e idosos (≥ 60 anos), nas macrorregiões Sudeste e Nordeste e categorias de escolaridade intermediária (11 anos) e superior (≥12 anos).

Mudanças em indicadores de alimentação não saudável

Para o conjunto dos participantes, os indicadores de alimentação não saudável praticamente não se modificaram com a pandemia. Assim, a proporção de participantes que consumiram no dia anterior pelo menos um grupo ou cinco ou mais grupos de alimentos ultraprocessados oscilou de 80,0% para 80,3% e de 11,0% para 10,4%, respectivamente, enquanto o número médio de grupos consumidos (2,1) permaneceu inalterado.

O padrão de estabilidade nos indicadores de alimentação não saudável se repetiu entre homens e mulheres, em todas as faixas etárias, nas macrorregiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste e nas categorias intermediária e superior de escolaridade. Já entre os participantes da macrorregião Nordeste, observou-se aumento na frequência de consumo de, pelo menos, um grupo e de cinco ou mais grupos de alimentos ultraprocessados (de 77,9% para 79,6% e de 8,8% para 10,9%, respectivamente) e no número médio de grupos consumidos (de 2,0 para 2,2), sendo a variação neste último caso estatisticamente significante, mostra o estudo.

Ainda que sem alcançar significância estatística, a mesma tendência de aumento no consumo de alimentos ultraprocessados foi vista na macrorregião Norte e na categoria inferior de escolaridade, estratos nos quais, por exemplo, o número médio de grupos de alimentos ultraprocessados consumidos aumenta de 2,2 para 2,4 e de 2,5 para 2,7, respectivamente.

Segundo o professor Carlos Monteiro, a tendência de aumento do consumo de alimentos ultraprocessados nesses estratos sociais é preocupante, pois o consumo desses alimentos aumenta o risco de obesidade, hipertensão e diabete, que são fatores que aumentam a gravidade e a letalidade da Covid-19.



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