Consumir palmito juçara contribui para o desmatamento

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A extração do palmito juçara do caule das palmeiras mata o vegetal, que demora de oito a doze anos para gerar palmito

palmito juçara
Imagem redimensionada de Valentin Salja, está disponível no Unsplash

O palmito juçara cresce na palmeira juçara, espécie de árvore de nome científico Euterpe edulis. Essa palmeira é de extrema importância para a conservação de florestas no bioma da Mata Atlântica e sua preservação assegura o seu papel ecológico de regulação do fluxo dos mananciais, manutenção da fertilidade do solo, fixação de carbono, proteção das encostas das serras e alta variabilidade genética. A espécie tem importância significativa no contexto ecológico da floresta ombrófila densa (florestas com vegetação composta por arbustos, samambaias, palmeiras, bromélias, trepadeiras), pois desempenha papel fundamental na composição alimentar de herbívoros vertebrados (como tucanos, sabiás, gambás, tatus, esquilos) e invertebrados, podendo ser considerada como espécie-chave, devido ao fato dos seus frutos ficarem maduros em uma época de escassez de alimentos. Estima-se que aproximadamente 70 espécies da fauna alimentam-se do fruto da palmeira.

Igualmente importante é destacar as formas de cultivo e manejo corretos e sustentáveis que possam colaborar na revitalização de áreas desmatadas, uma vez que sua existência está diretamente ligada à manutenção da biodiversidade da Mata Atlântica.

De acordo com dados da Rede Juçara (articulação de organizações e produtores que trabalham com o uso sustentável da palmeira juçara) existem basicamente três formas de cultivo:

  1. O sombreamento definitivo pode ser a opção quando da restauração e/ou recuperação da mata nativa ou arborização, plantando-se entre as árvores já existentes.
  2. O sombreamento temporário pode ser implantado nos reflorestamentos, onde a extração da madeira deve ser sincronizada com a fase em que a falta de sombra não afeta o desenvolvimento de E. edulis (nome científico da palmeira juçara).
  3. O consórcio de E. edulis em sistemas agroflorestais abre a oportunidade de agregar valor com a exploração de produtos florestais não madeireiros (PFNM), como utilizar as polpas dos frutos para sucos e/ou derivados ou produzir ração animal com o endosperma das sementes. Ainda abre a oportunidade de antecipação de renda com as culturas perenes.

A principal operação para a área de plantio é uma roçada (que consiste em cortar, à foice, arbustos e pequenas plantas) para facilitar o trânsito dentro da área, retirando principalmente as espécies que prejudicam as fases de germinação e crescimento da planta, sem comprometer seu sombreamento inicial e deve ser feita cuidadosamente para não eliminar a regeneração natural de plantas de hábito arbóreo.

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Brasil é o maior produtor e consumidor de palmito. Somente a produção brasileira representa mais de 50% de todo o palmito comercializado no mundo.

De acordo com dados de 2007, do Instituto de Economia Agrícola, em relação ao palmito extraído da natureza, o Estado do Pará é o maior produtor, seguido de Santa Catarina e São Paulo.

Ainda, um levantamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, em 2003, mostrou que o Estado de São Paulo consumiu 70% de todo o palmito produzido no Brasil e 50% do palmito produzido no mundo.

Desmatamento “Culposo” e “Doloso”

De forma culposa (sem intenção), quando consumimos o palmito juçara estamos contribuindo para a continuação desta atividade extrativista que poderá levar à extinção da palmeira juçara e de outras espécies de fungos, aves e insetos que integram a biodiversidade da Mata Atlântica.

Isso porque a palmeira juçara nasce de uma semente e constitui um único tronco - o que faz com que ela seja sacrificada na colheita do palmito, extraído do caule. Além disso, ela demora muito para se reproduzir – em torno de 8 a 12 anos para que a planta possa produzir um palmito de qualidade.

Porém, existe o fator sócio-econômico, que torna esse cenário ainda mais complexo: muitas famílias nativas da Mata Atlântica dependem da extração e da venda para sobreviver. São comunidades muitas vezes compostas por caiçaras e quilombolas, ou seja, pessoas comumente carentes e que, não raro, foram removidas de suas terras pelos grandes empreendimentos imobiliários (ou casos em que o desenvolvimento sequer chegou, a ponto de não gerar outras alternativas de sobrevivência). Ainda, essas pessoas se veem situadas em um mundo globalizado, onde não conseguem mais produzir somente para sua própria subsistência.

Podemos citar o caso de Ubatuba, litoral de São Paulo, como exemplo. A cidade possui uma população rural de aproximadamente cinco mil habitantes, dentre eles, famílias que - em função da legislação que rege as Unidades de Conservação - têm restrições para praticar a agricultura e extrativismo nessas áreas. Isso tem causado uma queda das atividades produtivas, que põe em risco a reprodução social destes grupos e induzem a uma exploração desordenada dos recursos naturais, o que compromete a sustentabilidade dos ecossistemas.

Além disso, existe a culpabilidade de empresas. Apesar de várias leis impedirem a exploração de qualquer tipo em áreas de Mata Atlântica (como a Lei de Crimes Ambientais - Lei 9.605 de fevereiro de 1998 e outras) é comum virem à tona casos de empresas que extraem ilegalmente o palmito juçara e o vendem a custos altíssimos, apresentando certificação de venda falsa no rótulo das embalagens.

Alternativas para preservá-lo

A possibilidade de intervenção na vegetação nativa, em pequenas propriedades, reintroduzindo a palmeira juçara para a produção de frutos na Mata Atlântica pode transformar áreas antes subutilizadas em locais com viabilidade econômica, interferindo positivamente na biodiversidade local.

Apesar das restrições legais, seu potencial econômico é grande. O enriquecimento em faixas facilita o crescimento, uma vez que, através de uma abertura para o plantio de palmeira juçara, proporciona as condições de luminosidade e germinação necessárias para as sementes. Diretamente ligado a isto está o fato de que o juçara produz frutos que são parecidos com os de açaí - algo muito relevante para implementar projetos que possam viabilizar a exploração destas palmeiras sem danificá-las, como acontece com a extração do palmito. Dessa forma, famílias que dependem dessa palmeira para conseguir seu sustento não perdem sua fonte de renda, de acordo com o Projeto Juçara, que segue essa linha de atuação.

O estímulo para manejo dos frutos, ao invés do palmito, pode contribuir consideravelmente para reduzir a pressão sobre esta espécie e para a resolução de conflitos socioambientais relacionados ao uso de recursos naturais por comunidades em áreas de interesse para conservação.

Uma grande variedade de utilizações pode ser destinada ao uso do fruto da palmeira juçara: polpas pasteurizadas e/ou congeladas, bebidas probióticas (micro-organismos que têm efeito sobre o equilíbrio bacteriano intestinal, controle do colesterol e de diarreias e redução do risco de câncer) e sucos mistos, além de ingredientes para as indústrias de alimentos (corantes naturais ou agentes antioxidantes) e de cosméticos (óleo e extratos ricos em compostos bioativos) a partir dos co-produtos do processamento da polpa de juçara.

Felizmente, projetos preocupados com a sobrevivência das palmeiras estão brotando por todo o país e realizando um importante trabalho de conscientização, tanto daqueles que vendem como dos que compram o palmito simplesmente por não saberem quão séria a situação é. Em São Paulo, o Projeto Juçara se concentra na divulgação e expansão da utilização dos frutos da palmeira juçara para produção de polpa alimentar e seu uso na culinária, e também na consolidação de sua cadeia produtiva, por meio da difusão do manejo sustentável da juçara para geração de renda, associada a atividades de recuperação da espécie e da Mata Atlântica.

Outro importante trabalho é desenvolvido pela Fundação Boticário na Reserva Natural Salto Morato, localizada em Guaraqueçaba, no litoral do Paraná. O projeto tem foco na preservação e no fomento à biodiversidade e faz com que sementes sejam dispersas em áreas consideradas prioritárias da Reserva, com o objetivo de contribuir para a recuperação da população de palmeira juçara, ajudando a recuperar essa espécie e as outras que se alimentam de seus frutos. Dessa forma, os animais passam a contribuir na dispersão das sementes, fazendo com que o processo de revitalização da floresta Atlântica na região acelere.

Dicas de Consumo

A Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo disponibiliza, em seu site, um espaço com dicas para o consumo consciente do palmito. Confira:

  • Prefira o palmito originário do plantio sustentável, extraído das palmeiras real, pupunha e açaí. Estas últimas, nativas da Amazônia, bastante cultivadas no Estado de São Paulo, formam touceiras e geram “filhotes”, que crescem com o corte do tronco principal, e sua reprodução se dá no período de 18 a 24 meses;
  • Antes de comprar um vidro de palmito, observe no rótulo a espécie de palmeira da qual foi extraído e o número de registro do produto no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA e na Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA;
  • Nos restaurantes, verifique qual a origem do palmito servido à mesa. Em caso de dúvida, não consuma o produto;
  • Não compre, nunca, palmito comercializado na beira de estrada, principalmente “in natura”, pois são, geralmente, produto de extração ilegal;
  • Evite consumir o palmito picado, pois são, geralmente, de palmeiras de diâmetros variados, coletados ilegalmente.

Consciência

O caso do desmatamento da Mata Atlântica e mais especificamente da palmeira juçara é emblemático para ilustrar a cadeia de eventos e circunstâncias que se cruzam na criação de um cenário cada vez mais hostil para a natureza.

A princípio, o palmito juçara é extraído por conta da demanda de seu consumo. Mas é relevante dizer que tal consumo atende um desejo de todo nós, enquanto sociedade, de usufruir de um produto sofisticado - enquanto o próprio mercado disponibiliza a comercialização do palmito pupunha que tem um impacto ambiental bem menor e é cultivado principalmente em São Paulo. Isso mostra que nós estamos no centro da questão deste e de muitos outros casos que envolvem a depredação de ecossistemas e biomas ao redor do mundo.

Outro fato importante, e muito mais grave, é que esse sistema indiretamente condicionou pessoas que sempre viveram da agricultura a utilizarem de práticas agrícolas predatórias, para buscar o sustento. Será que é tão necessário assim comermos palmito?


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Comentários  

 
+3 #1 2013-11-11 14:28
E eis que a ganância seja em qual sistema for está, SIM destruindo o planeta lenta laboriosa e gradualmente, e em alguns casos, rapidamente?
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0 #2 2014-04-15 19:17
Nos estamos destruindo essa planta. Se vc pesquisar vai ver que em 1500 tinha muitas árvores dessas e outras. Vc pode pesquisar em 1500 era grande e em 2014 e poucp
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0 #3 2014-07-16 00:48
Tenho um sítio em Juquitiba/SP e é impossível impedir que as pessoas de lá entrem na mata e extraiam palmito. A cidade é carente e as pessoas de lá não tem trabalho. Várias vezes já me deparei com pessoas realizando a extração. Estas pessoas geralmente não tem nada a perder, andam armadas. E como não têm trabalho, geralmente esta é a última fonte de sustendo destas. Antes preferem cometer este crime ambiental a tentar cometer crime com as pessoas (roubo, furto).
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