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Ao perceber que muitos agricultores familiares da região de Andradas (MG) estavam perdendo suas produções de hortaliças, a agricultora Maria Raquel Contin conseguiu articular a venda de hortaliças para a alimentação escolar

Imagem de PHÚC LONG no Unsplash

Ao perceber que muitos agricultores familiares da região de Andradas (MG) estavam perdendo suas produções de hortaliças, a agricultora Maria Raquel Contin articulou venda para os kits de alimentação escolar.

“É um orgulho ser agricultora. Eu chego a me arrepiar quando falo”. É assim que Maria Raquel Contin, de 42 anos, define a sua paixão pelo trabalho. Neta e filha de agricultores, ela começou a trabalhar ainda adolescente no pedaço de terra deixado como herança pelos pais na cidade de Andradas, em Minas Gerais.

Ela lembra que chegou a trabalhar em um escritório de contabilidade por acreditar na crença de que mulher não deveria trabalhar com agricultura, mas ver sua mãe trabalhando no campo foi um exemplo que a fez se unir ao irmão para começar a produção de alimentos orgânicos.

Hoje, 15 anos depois de assumir sua paixão pelo campo, ela faz parte da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Poço Fundo e Região (COOPFAM). Dentro da organização, ela participa do Grupo de Mulheres Organizadas Buscando Igualdade (MOBI) e do HORTIMOBI, grupos que buscam aprimorar e desenvolver o trabalho das mulheres rurais, não só no plantio, como também no artesanato e cultivo de flores. Maria Raquel também é representante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Andradas, que conta com mais de 800 sócios entre diversos produtores familiares da região de Andradas, Ibitiura de Minas e Caldas.

Com a pandemia do novo coronavírus, a agricultora, assim como outros produtores e produtoras da região, viu grande parte de seu plantio e renda comprometidos, uma vez que as escolas foram fechadas, e boa parte de sua venda com hortaliças vinha da alimentação escolar.

“Ninguém imaginava essa pandemia, e havia um planejamento para conseguir atender a demanda das escolas. Todos os produtores e produtoras estavam com os alimentos prontos para entrega e não tinham como entregar ou vender, porque tudo fechou”. Maria Raquel disse que boa parte da produção se perdeu ou foi doada.

Vendo a situação dos agricultores familiares da região, e preocupada com a perca das produções em Andradas (MG), Maria Raquel realizou conversas com a Secretária de Agricultura e com o Prefeito da cidade para explicar a situação e reivindicar que os alimentos continuassem sendo entregues para as cestas de alimentação escolar para também serem entregues aos estudantes e suas famílias.

“Ouvimos que outras cidades tinham experiências de entrega de cestas com produtos da agricultura familiar, e reivindicamos que isso fosse feito na cidade. Agora os alimentos não estão sendo perdidos, e grande parte dos agricultores estão conseguindo entregar seus produtos para a alimentação escolar”, contou.

Atualmente, cerca de 30 produtores de Andradas entregam suas produções de hortaliças para a alimentação escolar, e mesmo que a pandemia tenha causado uma queda na produção, a venda dos alimentos garantiu que a plantação voltasse a aumentar progressivamente. Além disso, as entregas, que começaram a ser realizadas em junho, ajudaram a reduzir a perda de alimentos.

A agricultora explica que o sucesso da mobilização também aconteceu porque houve grande interesse por parte da Secretária e da Nutricionista da região. “Eu fico lisonjeada de ter tanta gente boa em volta de mim. Se não tiver união é muito complicado. Uma mulher sozinha pode até conseguir alcançar seus objetivos, mas as pedras serão maiores e o caminho mais duro do que se ela estiver junto a outras mulheres”.

Esse apoio foi essencial para que a produção dos agricultores da região, e principalmente a produção de orgânicos, ganhasse espaço no cardápio dos estudantes.

Para o representante da FAO no Brasil, Rafael Zavala, a produção e venda para a alimentação escolar é um dos canais estratégicos de comercialização para a agricultura familiar.

“É um mercado que engloba 41 milhões de crianças que consomem todos os dias alimentos nas escolas. Agora, neste momento de pandemia, em que não há aulas, a estratégia para garantir a segurança alimentar com a entrega de cestas de alimentos às famílias dos estudantes é essencial para o fortalecimento da agricultura familiar e uma oportunidade a mais para geração de renda das mulheres rurais”.

A importância de buscar a igualdade de gênero no campo

Raquel lembra que ser uma mulher em posição de liderança no campo não foi fácil, e que mesmo com toda a luta das mulheres pelos seus direitos, o preconceito persiste até hoje.

“Até você conseguir se posicionar, demora. Tem situações que passei quando mais nova que não desejo para ninguém. Até quando tive um sócio na horta orgânica foi difícil, porque ele não aceitava minhas sugestões, e aí precisei desfazer a sociedade”.

Mas mesmo com toda a adversidade, a agricultora explica que hoje tem em outras mulheres um porto seguro. “A presidente da Cooperativa é uma mulher, e é fantástico ver como ela consegue administrar tantas pessoas de uma maneira brilhante. Ela e outras mulheres que fazem parte da Cooperativa são exemplos para mim. Também sou muito grata à nutricionista do PNAE e a engenheira agrônoma da EMATER, que fizeram mágica para que pudéssemos entregar as cestas para as crianças. No Sindicato somos três mulheres, e a forma como nos apoiamos é repleta de cumplicidade. Só tenho a agradecer”.

Na América Latina e no Caribe, 58 milhões de mulheres vivem em áreas rurais. No Brasil, segundo o Censo Agropecuário de 2017, 947 mil mulheres são responsáveis pela gestão de propriedades rurais. Isto representa quase 1 milhão de famílias que dependem diretamente das mulheres rurais que, juntas, administram cerca de 30 milhões de hectares. Entretanto, este número representa apenas 19% dos estabelecimentos agropecuários no país. Quando observadas as regiões, o sudeste (onde está localizado o estado de Minas Gerais) possui apenas 136 mil propriedades dirigidas por mulheres, o que equivale a 14% do total. Em regiões como o sul e centro-oeste, por exemplo, a proporção é ainda menor, de 11% e 6%, respectivamente.

Para o representante da FAO, melhorar a igualdade de gênero em áreas rurais é um instrumento fundamental para combater a pobreza e a fome.

“As mulheres são verdadeiramente as guardiãs do desenvolvimento sustentável. As ações de gênero do escritório da FAO no Brasil sempre buscaram contribuir e apoiar as políticas públicas e programas do governo brasileiro em prol das mulheres rurais, pescadoras, extrativistas, artesãs, ribeirinhas, indígenas e afrodescendentes. A equidade de gênero no acesso a recursos, tecnologias e participação na tomada de decisões é um passo essencial para o desenvolvimento territorial, e para o mundo que queremos”, conclui.

15 dias de iniciativas transformadoras

A história de Maria Raquel Contin faz parte da ação “15 dias de iniciativas transformadoras”, parte da campanha #MulheresRurais, mulheres com direitos.

Durante os próximos dias, parceiros da campanha irão compartilhar histórias de mulheres rurais promotoras da alimentação saudável, guardiãs da terra, líderes e empreendedoras, com base em três eixos principais: direitos e autonomia econômica; papel produtivo em sistemas agroalimentares; redução de lacunas e uma vida livre de violência. No dia 15 de outubro, encerra-se a ação com a celebração do Dia Internacional das Mulheres Rurais.


Fonte: ONU Brasil

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