O que é confinamento animal?

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O confinamento é uma prática de produção de proteína animal considerada insustentável do ponto de vista econômico, socioambiental e ético

confinamento
Imagem redimensionada de Artem Bali, está disponível no Unsplash

Para entender o que é confinamento animal, seus impactos econômicos e socioambientais, entrevistamos Cynthia Schuck, especialista da área de saúde global, comportamento animal e ecologia pela Universidade de Oxford. Confira:

Portal eCycle: Cynthia, o que é confinamento animal?

Cynthia Schuck: O confinamento animal é, de forma abrangente, qualquer restrição da área de movimentação de um ou mais animais. O confinamento animal implica na manutenção de animais em situação de espaço limitado, inadequado para que eles se movimentem ou expressem padrões normais de comportamento para a espécie. A grande maioria dos animais criados como alimento no Brasil, hoje em dia, estão em situação de confinamento intensivo, com restrições extremas de espaço, movimentação e comportamento.

eCycle: Quais são os tipos de confinamento animal?

Cynthia: As formas de confinamento dependem da espécie e do objetivo da criação. A maioria dos animais em situação de confinamento, no Brasil e no mundo, são aqueles usados para produção de alimentos. Os frangos, por exemplo, são, na maioria dos casos, mantidos em grandes galpões fechados, em altas densidades, em condições que chegam a mais de 12 animais por metro quadrado, onde até mesmo a dissipação do calor corporal é comprometida.

No caso de porcos, os animais são mantidos permanentemente em baias de cimento até a idade do abate. Já as fêmeas suínas em idade reprodutiva são mantidas isoladas em gaiolas metálicas de cerca de 60 x 220 cm (espaço que impede movimentos básicos, como dar um giro em torno do próprio corpo) durante toda a sua vida. Situação semelhante ocorre com as galinhas poedeiras, mantidas em gaiolas metálicas onde o espaço disponível por animal é menor do que uma folha de papel sulfite: não há possibilidade de ciscar, construir ninho ou mesmo abrir as asas.

No caso da indústria leiteira, a produção de carne de vitela, o baby beef’, é feita por meio do confinamento de bezerros machos que são separados de suas mães e confinados sem possibilidade de mover-se, para que não desenvolvam a musculatura e sua carne se mantenha macia. Para que a carne tenha as características desejadas, estes bezerros também são mantidos em estado de anemia profunda, obtida pela restrição do ferro e outros nutrientes na dieta.

eCycle: Todos os tipos de confinamento causam sofrimento aos animais?

Cynthia: Sentimentos como dor, medo, tristeza, alegria, frustração e ansiedade não são exclusivos da espécie humana. Qualquer pessoa que conviva com um animal de estimação pode atestá-lo, e é de fato difícil achar hoje um ramo da ciência que discorde desta afirmação. Na própria medicina humana, é prática rotineira usar animais para testar a eficácia de medicamentos analgésicos, anestésicos e para problemas como ansiedade e depressão. Sendo assim, o sofrimento físico e psicológico são consequências óbvias e esperadas de todos os sistemas que impedem o animal de se movimentar de modo adequado, de expressar seus comportamentos naturais, de ver a luz do sol, ou de interagir em um ambiente social apropriado.

Além disso, os animais ditos de consumo criados em confinamento, em sua maioria, provêm do desenvolvimento de linhagens de crescimento rápido ou de produtividade mais alta – linhagens caracterizadas por alta incidência de problemas ósseos, de articulação, e outras disfunções anatômicas e fisiológicas associadas a dor. Nesse ambiente, medidas como a remoção de dentes, bicos, caudas e chifres, com o objetivo de evitar a mutilação e o canibalismo devido ao estresse, dor e frustração crônicos, são comumente empregadas pela indústria de forma paliativa.

Galinhas têm seus bicos cortados, e porcos suas caudas e dentes. A manutenção dos animais em condições de bem-estar precário também aumenta sua vulnerabilidade a doenças infecciosas – combatida com o uso massivo de antibióticos, administrados de forma profilática para que uma maior proporção de animais sobreviva até o abate.

eCycle: Quais são as vantagens e desvantagens para a saúde de quem consome carne de sistemas intensivos de criação, onde os animais são confinados?

Cynthia: Além do aumento no risco de doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer associados ao consumo de carnes e derivados em geral, o consumo de produtos de sistemas intensivos de criação representa hoje um enorme risco à saúde pública. O uso massivo de antibióticos nestes sistemas acelerou – e continua acelerando – o processo de desenvolvimento de resistência a antibióticos, ou seja, o desenvolvimento das chamadas super-bactérias, resistentes a múltiplos antibióticos. Essas bactérias são transmitidas para a população através do ambiente e pelo consumo da carne destes animais.

Um estudo do Sistema Nacional de Vigilância a Resistência a Antibióticos nos EUA mostrou que a maioria da carne vendida em supermercados continha bactérias resistentes a antibióticos importantes para a saúde humana. Níveis recorde de bactérias resistentes a vários antibióticos também foram encontrados na carne de frango vendida na Inglaterra.

Um outro estudo recente pode inclusive provar, por meio de uma análise cuidadosa de DNA, que as bactérias encontradas na carne de frango em supermercados eram as mesmas detectadas em amostras de pacientes internados nos hospitais da mesma cidade onde a carne era vendida. Não há razão para supor que a situação no Brasil é diferente – o Brasil é o terceiro maior consumidor global de antibióticos na pecuária. Conforme artigo da Organização Mundial da Saúde, estima-se que as infecções por bactérias multirresistentes serão a principal causa de mortalidade em alguns anos, matando mais do que o câncer e a diabetes.

eCycle: Quais são as vantagens e desvantagens socioambientais do confinamento animal em sistemas intensivos de criação?

Cynthia: Embora o confinamento em si retire o animal do meio ambiente, transferindo-o para um sistema industrial fechado, os impactos ambientais da criação em confinamento ainda permanecem, dada a necessidade do uso extenso de terras para a produção de ração para alimentá-los. De toda a proteína produzida no Brasil, estima-se que somente 16% é usada na alimentação humana; cerca de 80% é usada como ração, principalmente para porcos e galinhas [confira aqui estudo a respeito: 1].

Esses sistemas têm impactos importantes também na poluição dos recursos hídricos nas regiões onde são implantados e na emissão de gases de efeito estufa em função da quantidade massiva de dejetos gerados nas granjas - são mais de 5 bilhões de animais terrestres abatidos por ano no Brasi [confira aqui estudos a respeito: 2 e 3].

Um relatório do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável mostrou que a pecuária é o setor da economia no Brasil com os maiores custos ambientais, com as operações de abate e processamento de animais custando ao Brasil, em danos ambientais, 371% a mais do que a receita que geram. No caso da aquacultura, a porcentagem sobe para 388% [confira aqui estudo a respeito: 4].

eCycle: Quais são as vantagens e desvantagens econômicas do confinamento animal para o mercado?

Cynthia: O confinamento animal típico dos sistemas intensivos tem poucos beneficiários, e vários perdedores. A lucratividade do setor está vinculada à produção em larga escala: ganham os integradores e grandes companhias, porém a margem de lucro do produtor trabalhando diretamente com os animais é baixa, e os riscos altos.

Apesar de representar boa porcentagem do PIB brasileiro, a atividade é amplamente subsidiada, e tem saldo negativo quando as externalidades (como os custos de perda de capital natural) são computadas. Perdem os cofres públicos, o potencial produtivo do país em um futuro não tão distante, e as futuras gerações.

Os riscos financeiros para os investidores também são altos. Incluem-se aí os riscos de imagem associados às crescente objeções em relação ao bem-estar e saúde dos animais, os riscos à saúde pública, e aqueles associados aos danos ambientais.

eCycle: Consumir carne de confinamento pode ser considerada uma prática de consumo sustentável?

Cynthia: Não, nem do ponto de vista ambiental, ético, de saúde, ou como investimento, pelos fatores discutidos nas respostas anteriores. Além disso, a sustentabilidade do próprio negócio está em jogo. Como colocado por Donald Broom, especialista inglês em bem-estar animal atuante na Comissão Européia, “nenhum sistema é sustentável se uma proporção substancial do mercado consumidor achar que aspectos de seu funcionamento atual, ou de suas consequências futuras, são moralmente inaceitáveis”.

A violação sistemática e em larga escala do bem-estar animal, os riscos à saúde pública e os prejuízos ambientais praticados por estes sistemas já são, e cada vez mais o serão, considerados como inaceitáveis pelo próprio mercado.

eCycle: Existe alguma opção alternativa ao confinamento?

Sim. Embora algumas reformas pontuais não garantam uma vida sem sofrimento, existem diversas iniciativas e grupos atuando na promoção de melhorias nas práticas de criação de animais que visam a redução de sofrimento durante o processo de produção. Dentre essas, estão o favorecimento de linhagens mais rústicas e saudáveis, bem como práticas que garantam maior liberdade de movimento, a possibilidade de expressar comportamentos naturais, de explorar o ambiente, e de interagir socialmente de forma positiva.

Alternativas mais promissoras, no entanto, advém de uma revolução no setor alimentício já em curso: empreendedores, pesquisadores, investidores e até grandes empresas no setor no mundo todo estão explorando novas formas de desenvolver substitutos de carnes, leites e ovos.

O Brasil corre o risco de perder o bonde da história mais uma vez se demorar para investir nessa revolução – se o bonde passar, teremos que importar tecnologia alimentar em um futuro próximo.

Sobre a entrevistada: Além possuir doutorado pela Universidade de Oxford, Cynthia Shunck é mestre pela Universidade de São Paulo, foi co-fundadora e diretora científica da Origem Scientifica de 2005 a 2017, com projetos de consultoria desenvolvidos na área de saúde pública e global para diversas instituições. É autora de mais de 50 artigos científicos em revistas internacionais na área de saúde global, comportamento animal e ecologia.


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