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A plastisfera é mais um exemplo de como o lixo plástico pode ir além da poluição e se transformar em algo ainda mais complexo: um ecossistema vivo.
Talvez o termo plastisfera soe familiar, mesmo que você nunca tenha ouvido falar diretamente dele. Isso porque não é difícil encontrar notícias, quase diárias, sobre novas descobertas relacionadas ao plástico, ou melhor, dos seus impactos no meio ambiente e na saúde.
Diante de tantas informações, é comum surgir a sensação de que nada é realmente novo, como se já soubéssemos o final da história: o plástico é o vilão, e pronto.
O problema é que essa percepção nos leva a normalizar algo que está longe de ser inofensivo e que exige atenção urgente.
A origem de todo esse problema também é conhecida: produção excessiva, consumo desenfreado e descarte inadequado. Mas o que chama a atenção é a tendência. Dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) mostram que, entre 1950 e 2022, a produção global de plástico aumentou 218 vezes.
A previsão assusta: até 2050 a produção deve dobrar, atingindo 884 bilhões de quilos de plástico.
Dá para imaginar essa quantidade? É o equivalente a 88 milhões de caminhões de lixo lotados. Em fila, eles dariam mais de 20 voltas ao redor da Terra.
Além disso, de acordo com a UNCTAD, 75% de todo o plástico produzido no mundo acaba no lixo, nem 10% é reciclado. Ou seja, o lixo plástico se acumula em lixões, aterros sanitários e na própria natureza.
Em 2023, um grupo de cientistas de mais de 10 países foi enfático ao afirmar que o plástico é responsável por doenças e causa mortes prematuras em todas as etapas do seu ciclo de vida.
Ainda assim, o material é onipresente no dia a dia, tão enraizado ao cotidiano que é fácil esquecer que estamos constantemente expostos aos compostos químicos presentes nele.
Essa presença massiva também se reflete no descarte: o estudo aponta que cerca de 22 megatoneladas de lixo plástico são lançadas no meio ambiente todos os anos; a maior parte de itens de uso único, como embalagens.
É nesse cenário que o problema ganha uma nova camada: o plástico não apenas se acumula, ele também vira um espaço onde microrganismos passam a viver. É justamente daí que surge o termo plastisfera.
A plastisfera é o nome dado às comunidades de microrganismos que se formam na superfície do plástico, principalmente em ecossistemas marinhos, sejam costeiros ou oceanos abertos.
O termo surgiu em 2013, num estudo publicado pela Environmental Science & Technology, que identificou a presença desses microrganismos em microplásticos no Atlântico Norte.
As amostras foram coletadas, principalmente, nos chamados “giros oceânicos” – regiões em que as correntes oceânicas funcionam como redemoinhos, puxam o lixo para seu centro e acumulam cada vez mais resíduos. Esse processo é o que dá origem às famosas ilhas de lixo.
Uma diversidade de microrganismos foi encontrada nas amostras. Dois tipos chamaram a atenção dos cientistas: bactérias capazes de degradar hidrocarbonetos e outras oportunistas, como as do gênero Vibrio, que podem causar infecções graves em humanos.
Os microrganismos, popularmente chamados de “micróbios”, podem incluir bactérias, vírus, fungos e protozoários. Eles estão presentes em todo o ambiente e no próprio corpo humano. São essenciais à vida no planeta Terra, embora alguns causem doenças.
Apesar dos primeiros estudos focarem na plastisfera marinha, esse conceito se expandiu e hoje abrange outros nichos ecológicos: a água doce, o solo e a atmosfera.
O plástico nos oceanos funciona como um ambiente para microrganismos.
Diferente de materiais naturais que flutuam na água e se degradam mais rápido e mais fácil, o plástico pode permanecer ali por décadas. E não é só isso: sua superfície hidrofóbica (não se mistura ou absorve a água) facilita a fixação dos micróbios, formando um biofilme – uma camada “viva” que se desenvolve ao redor do material.
Apesar de não absorverem água, os fragmentos de plástico no oceano podem acumular poluentes orgânicos persistentes (POPs) e outras substâncias nocivas.
Esses materiais também são frequentemente ingeridos por animais marinhos.
Essa combinação levanta preocupações importantes: a ingestão de plástico por si só já pode causar alterações no sistema endócrino de peixes e outros animais. Mas além disso, compostos como os POPs podem sofrer biomagnificação (acúmulo progressivo) quando entram na cadeia alimentar.
No entanto, os riscos da plastisfera não se limitam à presença de substâncias químicas. O plástico também pode abrigar microrganismos potencialmente perigosos.
Um artigo publicado pela Microbiology Society mostrou que a colonização da plastisfera não ocorre de forma aleatória.
Uma série de propriedades, como flutuabilidade, tamanho, cor, durabilidade e composição química da superfície podem influenciar a forma como os micróbios se fixam e se desenvolvem no material.
Pesquisadores compararam partículas de polietileno (PE), polipropileno (PP) e poliestireno (PS), madeira e vidro.
O experimento analisou a plastisfera formada nesses materiais. Microrganismos foram coletados de efluentes de esgoto numa estação de tratamento local, principalmente a bactéria E. Coli.
Essa bactéria pode causar infecções graves em seres humanos. O uso de antibióticos também foi feito, para analisar a resistência bacteriana.
Duas perguntas deveriam ser respondidas aqui: se as bactérias escolhem o material e quais se desenvolvem ali.
O resultado foi surpreendente: o PS foi a amostra mais densamente colonizada. E foi também onde se concentraram as comunidades bacterianas mais resistentes aos antibióticos.
A madeira apresentou um resultado similar. Para os pesquisadores a porosidade desses materiais permite maior fixação das bactérias.
Isso significa que o plástico pode funcionar como um “reservatório” de risco, carregando patógenos e bactérias resistentes a antibióticos.
Outro estudo, da Universidade de Glasgow, no Reino Unido, reforça o papel da plastisfera como um disseminador de doenças e resistência antimicrobiana.
Para os pesquisadores, a alteração da superfície de micro ou nanoplásticos, quando entram em contato com o meio ambiente, é imediata.
Em outras palavras, existe uma etapa anterior à plastisfera: há a formação de uma “eco-corona”, uma espécie de “coroa” que altera as características químicas e físicas do plástico, formada por biomoléculas (DNA, proteínas, carboidratos etc).
Isso quer dizer que, quando interage com o meio ambiente, o plástico se modifica. A partir daí, são formados microhabitats biologicamente ativos.
Isso faz com que o material reúna todas as condições para que haja a colonização da superfície pelos microrganismos.
Por outro lado, a formação da plastisfera não ocorre em um único sentido.
Se as características do material influenciam na escolha dos micróbios que vão se instalar ali, a própria colonização passa a modificar o plástico.
Aí está mais um ponto de atenção: com o tempo, a plastisfera transforma as propriedades do plástico – flutuabilidade, fragmentação e até absorção de contaminantes.
Esses fatores podem influenciar a forma como micro e nanoplásticos percorrem o meio ambiente e a forma como os seres vivos são expostos à eles.
Isso indica que a plastisfera não é apenas um “ecossistema” formado por plásticos e micróbios. Na prática ela influencia o tempo de permanência do plástico no ambiente, até onde ele pode chegar e os riscos que ele carrega.
Mas as descobertas não param por aí.
Pesquisadores do Helmholtz Centre, na Alemanha, compararam o DNA dos microrganismos que vivem sobre o plástico com o do plâncton presente na água ao redor.
As amostras foram coletadas nas “ilhas de lixo” do Atlântico e do Pacífico Norte.
O resultado foi bem revelador e alarmante. Os genomas (todo o material genético) dos micróbios que habitam o plástico são maiores e contém mais informações que os do plâncton. Mas o que isso significa?
Que eles se desenvolvem e funcionam melhor: aproveitam melhor os nutrientes disponíveis (e se adaptam na falta deles), são mais resistentes à radiação UV e têm mecanismos de proteção e reparação de danos. É como se o plástico criasse um ecossistema mais favorável para a vida dos micróbios.
Ou seja, a plastisfera não diminui o tempo de vida do plástico e, de quebra, acaba funcionando como uma espécie de “ilha” mais favorável à vida desses microrganismos. Ali eles podem competir e desequilibrar os ecossistemas marinhos.
Além disso, ficou claro que mesmo em regiões diferentes do oceano, a plastisfera mantém os mesmos padrões.
Os estudos mostram que o plástico não só abriga vida, como favorece microrganismos resistentes e adaptáveis.
Com isso, o plástico deixa de ser apenas um poluente e passa a atuar como um agente ecológico ativo, capaz de influenciar o equilíbrio dos ecossistemas.
Assim, surge uma pergunta inevitável: qual é o impacto real de tudo isso no nosso dia a dia?
O uso excessivo e o descarte inadequado do plástico já são reconhecidos como um problema global, com efeitos que vão muito além da poluição visível. E tudo comprovado cientificamente: fragmentos de plástico estão presentes nos alimentos, na água, no ar, no nosso corpo e até em animais silvestres em áreas protegidas.
Embora esses impactos estejam cada vez mais bem documentados, eles ainda fazem parte de uma realidade que muitas vezes é normalizada. Entender esse processo é um passo essencial para repensar a nossa relação com o plástico no cotidiano.
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