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Ao mesmo tempo que a Noruega investe bilhões em preservação, também subsidia empreendimentos industriais que aceleram a degradação da Amazônia

Imagem editada e redimensionada de Uederson de Amadeu Ferreira, está disponível no Wikimedia e licenciada sob CC by 4.0

Resumo

  • Em seu novo livro, ‘A luta pela floresta’, o geógrafo social Torkjell Leira faz um balanço dos 40 anos de relação da Noruega com a Amazônia. Uma relação ambígua, segundo ele, já que o mesmo país que investe bilhões em preservação também subsidia empreendimentos industriais que aceleram a degradação da floresta.
  • A Noruega investiu cerca de 900 milhões de dólares em conservação na última década através do Fundo Amazônia e outras iniciativas. Mas, segundo Leira, investimentos de companhias e instituições estatais norueguesas em atividades prejudiciais à floresta alcançaram um valor cinco vezes maior.

O geógrafo social norueguês Torkjell Leira é conhecido como um dos principais especialistas sobre o Brasil em seu país. Desde a experiência de um intercâmbio, há aproximadamente trinta anos, o também escritor passou a direcionar seus estudos e atividades de trabalho para as terras e gentes brasileiras — seu foco na Amazônia o levou a trabalhar por seis anos na Fundação Rainforest, além de coordenar projetos junto a comunidades para organizações e empresas na região. Há décadas Leira acompanha de perto as relações entre Brasil e Noruega no que se refere às questões ambientais e climáticas, sendo uma importante voz em defesa da floresta também quando está em sua cidade, a capital Oslo.

É a partir dessa perspectiva que o escritor lança no Brasil o livro A luta pela floresta: como a Noruega ajuda a proteger — e a destruir — o meio ambiente no Brasil, pelo selo Hiperbórea, da editora Rua do Sabão. Quase como um suspense, a narrativa parte das tubulações da mineradora semi-estatal norueguesa Hydro — às quais Leira teve acesso após escândalo ambiental de vazamento de rejeitos que ganhou proporções internacionais.

No desdobrar, vão sendo relatados os muitos pontos de conexão entre os dois países, desde os tempos dos chamados ciclos da borracha, em que representantes noruegueses da habilidade nórdica de navegação praticamente monopolizavam o transporte de produtos e pessoas na região, até as mais íntimas e contemporâneas relações entre agentes de poder político e econômico que fazem do Brasil, e mais especificamente do solo amazônico, um território de farto investimento nem sempre alinhado com a proteção à floresta.

Leira trata, com a mesma intensidade, da forma como a preservação da floresta tropical consolidou-se ao longo de décadas como uma prioridade na cultura dos noruegueses, destacando ainda o processo que levou à criação, em 2008, do Fundo Amazônia, maior projeto de colaboração entre Brasil e Noruega em prol da conservação, encerrado pelo governo Jair Bolsonaro em 2019.

Nesta entrevista exclusiva para a Mongabay, Torkjell Leira repercute a as informações publicadas em seu livro, analisa as delicadezas das relações atuais entre os dois países e rebate a narrativa que coloca as regulações a iniciativas internacionais em prol da floresta como ações de natureza neocolonial.

Entrevista para a Mongabay

Mongabay: Em seu livro, você detalha o protagonismo e as ambiguidades da atuação da Noruega na Amazônia. Como é lançar essa obra no Brasil no momento em que o discurso governamental vigente demoniza iniciativas estrangeiras em território amazônico?

Torkjell Leira: É algo que me preocupa muito. Quando falamos da relação entre Brasil e Noruega hoje no que se refere ao meio ambiente, eu acredito que é difícil piorar. Mas, mesmo percebendo a delicadeza do momento, que envolve ainda o pior ataque aos povos indígenas provavelmente desde a época da ditadura militar — além de toda a drástica piora nas políticas ambientais sob Bolsonaro —, eu não posso deixar de tornar públicas as ações do governo e do setor industrial norueguês que são prejudiciais à floresta. Porém, eu também descrevo a íntima relação dos noruegueses com a causa da conservação amazônica e as muitas ações positivas em uma colaboração de pelo menos quarenta anos entre os dois países para a região. Realmente espero que o livro não seja usado para supostamente embasar críticas unilaterais à Noruega.

O escândalo ambiental ocorrido em 2018 envolvendo a gigantesca mineradora semi-estatal norueguesa Hydro na comunidade paraense de Barcarena é o fio condutor da narrativa que percorre de forma fortemente embasada outros aspectos questionáveis do investimento norueguês na floresta. Como os noruegueses receberam essas informações?

As pessoas ficaram chocadas. Eu mesmo fiquei bastante surpreso quando percebi, após um estudo rigoroso, o tamanho dos recursos que foram destinados para as forças e os atores que ajudam a destruir a floresta e a desproporção em relação ao que é destinado para a conservação. A Noruega investiu aproximadamente 8 bilhões de coroas [900 milhões de dólares, no câmbio atual] em conservação na última década, através do Fundo Amazônia e outras iniciativas. Mas se formos somar os investimentos em empresas brasileiras que degradam advindos do nosso fundo soberano do petróleo, os investimentos diretos das companhias norueguesas e a importação da soja brasileira que alimenta o nosso salmão, temos um valor pelo menos cinco vezes maior. Somos parte da solução, mas também parte do problema. Eu espero que as informações que estão no livro de alguma forma possam ajudar a reduzir o problema e a ampliar a solução.

Em 2019 os repasses noruegueses destinados ao Fundo Amazônia foram congelados após divergências com o governo brasileiro. Já em maio de 2020 foi a vez do fundo soberano noruegês excluir a Vale e a Eletrobrás de sua lista de investimentos por impactos negativos ao meio ambiente e aos direitos humanos. Como você avalia essa intensa retirada de recursos — e a narrativa que insinua tratar-se de uma estratégia neocolonial, um modo indevido de intervenção externa nas políticas ambientais brasileiras?

Sobre a retirada dos recursos por parte do fundo soberano, a pergunta que fica é: como empresas que sabidamente degradam o meio ambiente e prejudicam as populações locais estavam recebendo esse investimento até agora? É necessário que esses critérios sejam melhor elaborados, não adianta só querer fazer o papel bonito na história. O governo Bolsonaro fechou os comitês que cuidavam do Fundo Amazônia, levando o governo noruguês a encerrar o seu apoio e dissolvendo uma década de colaboração. Ninguém acha bom tirar dinheiro do Brasil. A única coisa que está sendo solicitada é que a legislação ambiental brasileira seja respeitada. É importante perceber que o discurso sobre neocolonialismo vale para entidades estrangeiras que atuam na proteção da floresta, enquanto as empresas de capital estrangeiro seguem sendo bem-vindas para explorá-la de maneira predatória.

Diante deste cenário estarrecedor é possível observar, do seu olhar, algum caminho para interromper a escalada de destruição na Amazônia?

Com certeza. Há dez anos o Brasil era uma referência mundial no combate ao desmatamento ao mesmo tempo em que experimentava crescimento econômico — e o sistema capitalista selvagem era o mesmo. Claro que hoje temos um cenário global distinto, mas o país sabe exatamente quais são as práticas que dão certo porque ele mesmo já implementou e teve bons resultados. Outros fatores favoráveis são a intensificação da pressão internacional e — algo que é novo — a importância que hoje é dada à questão ambiental por parte dos investidores estrangeiros, muitos deles inclusive noruegueses. É possível transformar a realidade desde que se tenha um governo que coloque a questão da conservação na centralidade da pauta e que aja com a intenção real de manter a floresta em pé. Eu realmente acho que é fundamental sabermos valorizar o que foi construído, aprendido — e não apenas lamentar o que estamos perdendo, mesmo que tantos esforços estejam sendo comprometidos. Para finalizar com uma expressão em português, eu diria: muita calma nessa hora.

*A entrevista reproduzida aqui foi originalmente publicada no site Mongabay. As opiniões contidas neste texto não necessariamente refletem as opiniões do Portal eCycle.



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