Loja
Apoio: Roche

Saiba onde descartar seus resíduos

Verifique o campo
Inserir um CEP válido
Verifique o campo

Por Ricardo Westin – Agência Senado | Um passeio de carro que o senador Teotônio Vilela (Arena-AL) fez em Maceió em meados de 1976 foi tão fora do comum que o colega Arnon de Mello (Arena-AL) insistiu que ele compartilhasse a experiência com todo o Senado. A grande novidade foi combustível do veículo: o álcool.

— Um carro Corcel movido com álcool e água correu a uma velocidade de 80 quilômetros por hora sem que nada ocorresse de anormal ao motor — discursou Arnon. — O nobre senador Teotônio Vilela, nosso companheiro aqui presente, foi um dos passageiros nesse carro.

Teotônio confirmou que era mesmo verdade e disse que, se alguém quisesse comprovar, existiam filmagens feitas pela afiliada da TV Globo em Alagoas, que pertencia justamente a Arnon.

— Viajei ao lado do engenheiro, como um arriscado copiloto — relatou. — Andamos cerca de 40 quilômetros, subimos e descemos ladeira e chegamos a desenvolver, na verdade, 110 quilômetros por hora. Outros viajaram também. O carro rodou com absoluta tranquilidade, e o rendimento por quilômetro foi ótimo. Andar num carro em que se colocam álcool e água é, para mim, qualquer coisa de fantástico.

O senador destacou que, para não correr o risco de ser vítima de algum “embuste grosseiro”, fez questão de examinar minuciosamente o combustível e o motor antes de entrar no Corcel.

O test drive em Maceió ocorreu nos primeiros momentos do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), iniciativa lançada há 50 anos pelo governo federal com a meta de criar motores movidos a álcool. Àquela altura, os veículos do Brasil eram abastecidos apenas com gasolina ou diesel. No máximo, adicionava-se uma pequena dose de álcool à gasolina.

Assinado em 14 de novembro de 1975 pelo general Ernesto Geisel, o quarto presidente da ditadura militar, o decreto que lançou o Proálcool previu volumosas verbas públicas para instituições de pesquisa tecnológica, cultivadores de cana-de-açúcar e usinas produtoras de álcool. Os trabalhos foram coordenados por diversos ministérios, como o da Agricultura, o da Indústria e Comércio e o de Minas e Energia.

O programa foi exitoso e resultou numa tecnologia 100% brasileira, uma das mais importantes da história do país. Uma vez criado, o motor a álcool foi rapidamente adotado pela indústria de automóveis.

Fabricação do Fiat 147, o primeiro carro a álcool lançado no país
Fabricação do Fiat 147, o primeiro carro a álcool lançado no país (Divulgação/Stellantis)

Os discursos de Teotônio Vilela e Arnon de Mello estão entre os documentos da época  guardados hoje no Arquivo do Senado, em Brasília, que ajudam a reconstituir a trajetória do histórico programa.

Numa audiência pública no Senado, o secretário de Tecnologia Industrial do Ministério da Indústria e do Comércio e um dos idealizadores do Proálcool, José Walter Bautista Vidal, apresentou o projeto aos parlamentares:

— Estabeleceu o ministério um programa de estudos visando à viabilização técnica e econômica de alternativas energéticas nacionais, com ênfase em combustíveis líquidos a serem obtidos de fontes renováveis que venham a se constituir em sucedâneo para os combustíveis fósseis. A identificação do álcool etílico, o etanol, como opção prioritária resultou clara, inquestionável.

O que motivou a busca foi o primeiro choque mundial do petróleo. Em 1973, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) decidiu reduzir a extração e aumentar o preço. Os países que quisessem uma parte do escasso petróleo disponível teriam que pagar caro por ele. O preço barril explodiu, passando de US$ 3,50 para US$ 13 em apenas um ano.

Foi uma estratégia geopolítica. Os países árabes da Opep tomaram a medida como forma de pressionar as potências ocidentais, dependentes do petróleo do Oriente Médio, em especial os Estados Unidos, a retirar o apoio militar dado a Israel na Guerra do Yom Kippur, contra o Egito e a Síria.

Como boa parte do planeta, o Brasil se viu em apuros. Uma preocupação do governo foi com a disponibilidade e o preço da gasolina, um dos subprodutos do petróleo. De todo o óleo bruto consumido pelo país, 70% vinham do exterior. Apenas 30% eram extraídos no território nacional.

Outra preocupação foi com a balança comercial, que se desequilibrou de forma drástica, uma vez que o gasto com as importações ficou progressivamente mais alto do que o ganho com as exportações, gerando prejuízos nas contas externas.

Propaganda de TV produzida pelo governo em 1979 apresenta o Proálcool aos brasileiros e pede que economizem gasolina (Arquivo Nacional)

A ditadura reagiu recorrendo a três estratégias para diminuir a necessidade de compra do petróleo estrangeiro. A primeira delas, que provocou uma grande insatisfação popular, foi forçar os brasileiros a consumirem menos gasolina.

Para isso, elevou o preço do combustível, proibiu que os postos funcionassem nos fins de semana, limitou a velocidade máxima nas rodovias a 80 quilômetros por hora e veiculou campanhas educativas na televisão incentivando a carona solidária e o uso do ônibus no lugar do carro.

A segunda estratégia foi prospectar novas reservas de petróleo no território nacional. A última, por fim, foi buscar algum substituto para essa matéria-prima importada. Foi então que se pensou no álcool.

— O álcool poderá ser produzido bem mais rapidamente do que a descoberta de jazidas petrolíferas — prognosticou o senador João Cleofas (Arena-PE).

— Bendita crise do petróleo, que nos despertou para os problemas nacionais — afirmou o secretário do Ministério da Indústria e do Comércio naquela audiência no Senado. — Que devemos procurar petróleo, não há dúvida. Mas, por mais gigantescas que sejam as nossas reservas desconhecidas, elas são finitas, acabam um dia. O álcool não, é eterno, perdurará enquanto existir o Sol.

— O álcool não é outra coisa que energia solar líquida — explicou Teotônio Vilela. — E nós temos um território excepcionalmente escolhido para o álcool, o que vai redimir o Senhor Deus de não nos ter concedido o petróleo há 20 milhões de anos.

Proprietário de canaviais e produtor de açúcar e álcool em seu estado, o parlamentar alagoano foi um dos maiores entusiastas do promissor combustível no Senado.

Publicidade veiculada na imprensa no início dos anos 1980 promove carros movidos a álcool
Publicidade veiculada na imprensa no início dos anos 1980 promove carros movidos a álcool (Biblioteca Nacional Digital)

Entre as diversas razões que tornavam o Brasil vocacionado para o álcool, os senadores apontaram a grande extensão territorial, o clima tropical e a sólida tradição de plantar cana-de-açúcar, que vinha desde os tempos em que era uma colônia portuguesa.

Ainda de acordo com os documentos do Arquivo do Senado, eles também enumeraram os vários benefícios que os carros a álcool trariam ao país. Além de ajudar a minimizar os problemas da falta de petróleo e da balança comercial desfavorável, o novo combustível dinamizaria a agricultura e diferentes ramos da indústria, geraria empregos e frearia a fuga de trabalhadores do campo para a cidade.

Tomando mais uma vez a palavra, Teotônio Vilela acrescentou à lista de benefícios a redução da poluição do ar nas metrópoles.

— Imaginemos que chegue alguém de Marte ao Brasil e pergunte por que não utilizamos o álcool, mas só a gasolina, e se é só uma determinação nossa de acabar com a vida humana. Isso porque, enquanto a gasolina é poluente, produz milhões de doenças urbanas, o álcool é antisséptico, o seu escape não produz nenhum elemento que provoque intoxicação. É um combustível limpo, saudável. Então, nesta minha ficção, o homem vindo de Marte haveria de perguntar se nossa vocação era mais para o setor de suínos ou realmente para o setor de humanos — disse ele, rindo da própria piada.

Na época, a emissão de dióxido de carbono preocupava apenas por causa dos efeitos sobre a saúde humana. Ainda não estava cristalizado o entendimento científico de que a emissão de certos gases é responsável pelas mudanças climáticas.

Nos debates em torno do Proálcool, o senador Luís Cavalcante (Arena-AL) se disse preocupado com a possibilidade de o governo acabar criando uma “Alcoolbrás”, isto é, uma burocrática e pesada empresa estatal detentora do monopólio do álcool brasileiro.

Apoiando o colega, o senador Roberto Saturnino (MDB-RJ) afirmou que uma eventual estatização da produção do álcool seria “absolutamente condenável”:

— Não vejo razão para a intervenção direta do Estado. Não há nenhuma exigência em termos de tecnologia e capital que a impeça a exploração desse campo pela iniciativa privada. O papel do governo seria apenas o de padronizar a composição química do álcool.

Marchinha carnavalesca sobre o Proálcool é submetida pelo autor, em 1979, ao Serviço de Censura Federal, que liberou a música
Marchinha carnavalesca sobre o Proálcool é submetida pelo autor, em 1979, ao Serviço de Censura Federal, que liberou a música (Arquivo Nacional)

A ideia do álcool como combustível não caiu do céu nem surgiu em 1975. O Brasil já havia feito experimentos. Teotônio lembrou que, em 1923, o engenheiro Heraldo de Souza Matos, numa prova automobilística no Rio de Janeiro, “correu com um carro Ford alimentado exclusivamente com aguardente”. Esta última palavra arrancou risadas dos senadores.

Embora a “aguardente” não tenha vingado, o experimento serviu para que o governo enxergasse o potencial do álcool e determinasse a adição de pequenas porcentagens à gasolina vendida no país, para que ela rendesse mais. Medidas do tipo foram tomadas especialmente em períodos de crise internacional, como a quebra da Bolsa de Nova York (1929) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que fizeram o petróleo quase sumir do mercado internacional.

Para argumentar que o álcool tão almejado pelo Brasil era, sim, viável, Teotônio Vilela recorreu às memórias de sua juventude e citou aquele que pode ter sido o pioneiro dos combustíveis nacionais:

— Durante a Segunda Guerra, em Alagoas, a Usina Serra Grande produziu um combustível que denominou “usga”, vendido nas bombas de Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Era álcool puro. A usina teve apenas que usar um estratagema para evitar o consumo humano: colocou um ingrediente, mudou a cor e o nome e disse que era veneno. Eu era jovem na época, mas me recordo muitíssimo bem. E desse combustível nos utilizamos em caminhão e automóvel. Todo o tráfego naquela região foi feito com a “usga”.

Anúncio comercial do Grupo Matarazzo, que produziu álcool combustível no início dos anos 1980
Anúncio comercial do Grupo Matarazzo, que produziu álcool combustível no início dos anos 1980 (Biblioteca Nacional Digital)

Quando o Proálcool foi lançado, uma das apostas era que o combustível fosse produzido não apenas da cana-de-açúcar, mas também da mandioca. Essa matéria-prima aparece, inclusive, no decreto de criação do programa.

— O Brasil tem uma tradição na obtenção do álcool a partir da cana-de-açúcar e agora tenta obtê-lo através da mandioca. Alguns especialistas admitem que, por hectare, teríamos 2,1 mil litros através da mandioca e 3,1 mil litros através da cana — observou o senador Itamar Franco (MDB-MG), apontando o potencial do tubérculo.

— Importante para o Brasil e para a Bahia, o meu estado, será o rápido incremento da implantação de usinas para a produção do álcool extraído da mandioca, de modo a gradativamente ganharmos fontes de energia que possam até nos libertar da importação de petróleo. Hoje isso não é uma utopia, mas uma palpável realidade conquistada pela tecnologia — comemorou o senador Luís Viana (Arena-BA).

— A ênfase maior está sendo dada à produção de álcool extraído da cana, quando o tratamento preferencial deveria ser destinado à mandioca. O álcool da cana pode prejudicar a produção de açúcar, que é uma excelente fonte de divisas para o país — opinou o senador João Calmon (Arena-ES).

— Tivemos a notícia, que nos desagradou, de que, ao se dizer que a mandioca é boa para álcool, isso ocasionou um aumento no preço da mandioca, que é produto de subsistência das regiões pobres do país — criticou Bautista Vidal, o secretário do Ministério da Indústria e do Comércio, na audiência no Senado. — Esse entusiasmo de que a mandioca vai servir para álcool precisa ser qualificado. Não é a plantação de fundo de quintal, que abastece as populações pobres, que servirá como matéria-prima. São necessários empreendimentos de porte.

— Perdoem-me dizer isto, mas sou também produtor de álcool e desde muito moço sei que se fabrica álcool tanto da cana-de-açúcar quanto da batata-doce, da mandioca, do milho, do sorgo. Então eu fico assombrado com os jornais a noticiar sobre o álcool dizendo: é de mandioca, é de cana-de-açúcar etc. Parece até uma torcida entre Flamengo e Fluminense. E o problema essencial, que é produzir álcool, não chega nunca — criticou Teotônio Vilela.

Outra opção cogitada foi o babaçu, fruto da palmeira de mesmo nome, comum nas regiões Norte e Nordeste. Segundo um relatório do governo apresentado no Senado em 1980, das 303 usinas aprovadas desde 1976 para receber dinheiro do Proálcool, somente 12 usariam a mandioca e uma única, o babaçu — a grande maioria processaria a cana-de-açúcar.

No fim das contas, os planos de que os postos de combustível oferecessem álcool de mandioca e babaçu foram frustrados. Concluiu-se que as duas alternativas eram comercialmente inviáveis, já que — ao contrário da cana-de-açúcar — não podiam ser cultivadas em larga escala nem dispunham de uma estrutura de produção profissional e consolidada.

Nota do jornal Tribuna da Imprensa trata em 1978 do combustível feito de mandioca, como parte do Proálcool
Nota do jornal Tribuna da Imprensa trata em 1978 do combustível feito de mandioca, como parte do Proálcool (Biblioteca Nacional Digital)

Quando afirmou que o prometido álcool não chegava nunca, Teotônio não exagerou. Aquele carro que o senador testou em 1976, em Alagoas, não vingou. Diferentes protótipos apareceriam ao longo dos anos seguintes.

— Não entendo por que razão não se cuida do álcool. O presidente da República quer, todo mundo quer, mas não se faz. É como a democracia — queixou-se ele, referindo-se de forma jocosa à abertura política do Brasil planejada pelo general Geisel, que parecia não avançar.

No entender do senador Roberto Saturnino (MDB-RJ), o Proálcool demorava para deslanchar porque vinha sendo sabotado por gente da própria ditadura:

— Quando o governo lançou o programa, é fato notório que grande parte das autoridades do governo duvidava. O ministro das Minas e Energia dizia abertamente que álcool era coisa para indústria química, nunca para energia. O ministro da Fazenda não perdia uma oportunidade para um chiste, para ridicularizar o Programa do Álcool. O ministro do Planejamento, igualmente. E, com isso, as autoridades iam sabotando o que a Comissão do Álcool aprovava, e os projetos não recebiam os financiamentos do Banco do Brasil.

Os parlamentares governistas, por sua vez, diziam que a nova tecnologia logo surgiria porque Geisel estava pessoalmente empenhado. Eles lembravam que o militar tinha profundo conhecimento do mundo dos combustíveis por já ter presidido a estatal Petrobras.

A partir do lançamento do Proálcool, foram necessários quase quatro anos até que finalmente a tecnologia estivesse desenvolvida e a indústria automobilística lançasse os carros com os novos motores.

O primeiro modelo movido exclusivamente a álcool foi o Fiat 147, e sua produção começou em julho de 1979, logo após o segundo choque mundial do petróleo. Para marcar o feito, o general João Figueiredo, o quinto e último presidente da ditadura militar, fez um test drive daquele carro inovador.

Como se tratava de uma grande novidade, os jornais explicaram aos leitores que o álcool seria oferecido em bombas de combustível idênticas às da gasolina. Nelas foram afixados cartazes advertindo que aquele álcool não poderia ser misturado à gasolina nem usado em motores não adaptados à tecnologia.

Volkswagen testa modelos experimentais de Brasília e Kombi movidas a álcool
Volkswagen testa modelos experimentais de Brasília e Kombi movidas a álcool (Divugalção/Volkswagen)

Os senadores procuraram dar a sua contribuição para que os carros a álcool caíssem no gosto popular. Eles apresentaram projetos de lei para, por exemplo, isentá-los do pagamento anual da Taxa Rodoviária Única, reduzir em 50% o Imposto sobre Produtos Industrializados incidente neles e garantir a taxistas e condutores de lotação e transporte escolar e outros motoristas autônomos um abatimento de pelo menos 20% no combustível comprado via cooperativas e sindicatos.

Também estudaram propostas para proibir a fabricação de veículos a gasolina com potência superior a 180 cavalos (os mais potentes teriam que ser movidos a álcool) e até obrigar as corridas esportivas nacionais a utilizar exclusivamente carros equipados com a nova tecnologia.

Nenhum dos projetos foi aprovado. Mesmo assim, o álcool ganhou o Brasil com rapidez. Em 1980, um ano após o lançamento do primeiro carro, o senador Bernardino Viana (PDS-PI), apresentou os resultados positivos e as boas perspectivas:

— Os produtores de veículos automotores acreditam que não vai faltar álcool carburante e alardeiam que um quarto dos carros vendidos neste ano, isto é, 250 mil, são movidos a álcool. A Volkswagen prevê que 80% de sua produção no próximo ano, estimada em 550 mil unidades, será de carros a álcool.

O slogan usado na época pela empresa de açúcar e álcool Copersucar se confirmava: “Carro a álcool: você ainda vai ter um”.

Motoristas que desejavam abandonar a gasolina, mas não podiam comprar um carro novo, recorreram à adaptação dos motores para o uso de álcool — uma metamorfose realizada nas oficinas mecânicas. O Senado chegou a estudar um projeto de lei que autorizava a Caixa Econômica Federal a conceder empréstimos com boas condições àqueles que desejassem converter seus carros.

Projeto de lei apresentado pelo senador Gastão Müller em 1982 incentiva a produção de carros a álcool
Projeto de lei apresentado pelo senador Gastão Müller em 1982 incentiva a produção de carros a álcool (Arquivo Senado)

Os carros a álcool foram de vento em popa até 1989, quando faltou o combustível no mercado, dando origem a uma crise nacional. Isso ocorreu porque o preço internacional do açúcar disparou, o que motivou as usinas a priorizar esse produto em detrimento do álcool. Para tentar contornar o problema, o governo liberou a importação de metanol, uma substância tóxica, para ser misturada ao álcool e à gasolina.

Com a crise econômica, os brasileiros passaram a evitar os carros movidos a álcool, e a década de 1990 ficou marcada pela volta em massa à gasolina. Um dos símbolos do governo do presidente Itamar Franco foi o relançamento do Fusca, em 1993 — os chamados “Fuscas do Itamar”, movidos a álcool, representavam uma tentativa de reaquecer esse mercado. Como senador na época do Proálcool, Itamar havia feito diversos pronunciamentos em defesa do combustível alternativo.

A virada para valer, contudo, só ocorreria em 2003. O álcool voltou a ser usado em grandes proporções quando a Volkswagen pôs no mercado o primeiro modelo flex do Gol. A tecnologia flex, também 100% brasileira, permite que o mesmo veículo seja movido a álcool, a gasolina e à mistura dos dois em qualquer proporção.

As repercussões do Proálcool são sentidas até os dias de hoje. Nada menos que 85% dos carros que atualmente circulam no Brasil são flex. A mais nova aposta do mercado são os veículos híbridos flex, movidos tanto a álcool e gasolina quanto a eletricidade.

A cana-de-açúcar já não reina absoluta no mercado. Atualmente, perto de 25% do álcool produzido no país é derivado do milho. Essa tecnologia, no entanto, é norte-americana, e não brasileira.

No fim de 2009, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) baixou uma resolução que obrigou todos os postos de combustível a trocar o nome “álcool” por “etanol” nas bombas e nos painéis com os preços, padronizando o nome em termos técnicos.

O governador de Minas Gerais, Francelino Pereira, e o presidente da Fiat, Miguel Augusto Gonçalves, em lançamento de carro movido a álcool
O governador de Minas Gerais, Francelino Pereira, e o presidente da Fiat, Miguel Augusto Gonçalves, em lançamento de carro movido a álcool (Divulgação/Stellantis)

De acordo com o economista Pedro Ramos, professor aposentado da Universidade de Campinas (Unicamp), olhando em retrospectiva, é possível encontrar falhas no Programa Nacional do Álcool:

— O Proálcool se limitou a beneficiar os interesses econômicos do complexo agroindustrial canavieiro. Dessa forma, ajudou a concentrar terra e renda. Foi a principal causa da expansão da cana no estado de São Paulo, que levou à superexploração dos boias-frias e até mesmo à morte de alguns desses trabalhadores. A preocupação foi com os ricos, não com a classe mais baixa. Isso não chega a ser surpreendente, já que a ditadura militar não tinha nenhuma preocupação social.

Por sua vez, o engenheiro agrícola Luis Agusto Cortez, também professor da Unicamp, prefere ressaltar os impactos positivos:

— Além de reduzir a dependência de petróleo do país, o Proálcool criou muitos empregos, contribuiu com a redução das emissões brasileiras de gases do efeito estufa e ensinou o país a fazer agricultura de larga escala. Se hoje temos um setor chamado agronegócio e a soja como sustentáculo da economia, isso se deve ao aprendizado trazido por aquelas plantações de cana. Em outras palavras, o Proálcool foi importante tanto para nossa segurança energética quanto para a nossa segurança alimentar.

Outro impacto se vê no preço dos combustíveis, segundo ele. Além de o álcool custar menos do que a gasolina, a própria gasolina ficou mais barata por causa do álcool que passou a ser adicionado. Se não fosse essa adição, a gasolina custaria o dobro do que custa hoje.

Publicidade de 1979 promove carro da Fiat movido a álcool
Publicidade de 1979 promove carro da Fiat movido a álcool (Biblioteca Nacional Digital)

Cortez defende que os brasileiros conheçam a história iniciada há 50 anos e, consequentemente, passem a ter orgulho do Proálcool:

— O álcool mostra que nós também somos capazes de grandes realizações. Criamos um exitoso programa de energia renovável sozinhos, sem a ajuda de ninguém. Não precisamos, portanto, sofrer daquele complexo de vira-lata que nos faz sentir menores diante de outros países. Quando enfim tomarmos consciência do nosso potencial, certamente vamos fazer inúmeras outras descobertas tão importantes quanto o álcool.

Este texto foi originalmente publicado pela Agência Senado, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.


Utilizamos cookies para oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar pelo site você concorda com o uso dos mesmos. Saiba mais