Brasil é o país com a maior diversidade de formigas do mundo. Foto: Matheus Bertelli/Pexels
Por Livia Inacio – Ciência UFPR | Elas inspiram algoritmos, podem cultivar fungos e se orientar pela mata com precisão. As donas desse currículo impressionante são as formigas. O Brasil abriga a maior diversidade delas: são 1.737 espécies e subespécies registradas até 2025. Globalmente, estima-se que existam cerca de 20 quatrilhões de indivíduos, o equivalente a 2,5 milhões de formigas para cada ser humano do planeta.
O livro Brazilian Myrmecology: Exploring the World’s Richest Ant Fauna (Mirmecologia brasileira: explorando a fauna de formigas mais rica do mundo, em tradução livre), publicado no fim do ano passado, investiga esse universo, documentando a evolução da mirmecologia (área que estuda formigas) desde os primeiros naturalistas até pesquisas contemporâneas em taxonomia, ecologia e comportamento.
Organizada pelos pesquisadores Rodrigo Machado Feitosa, do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR); Carla Rodrigues Ribas, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); e Fernando Augusto Schmidt, do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza da Universidade Federal do Acre (UFAC), a obra conta com a participação de 144 cientistas de 48 instituições e diferentes gerações.
Um dos aspectos mais surpreendentes que o livro descreve são os modelos de organização das formigas. “Na chamada inteligência coletiva, decisões complexas emergem da cooperação entre muitos indivíduos, e não do controle exercido por um só organismo”, diz Feitosa em entrevista à Ciência UFPR.
Em biomas como o Pantanal, que sofrem inundações sazonais, formigas desenvolveram táticas como a migração vertical, mudando colônias inteiras temporariamente para o topo das árvores até que as águas baixem. Em situações de ataque, algumas espécies formam campos de sobrevivência, evacuando o ninho em massa com suas crias até o perigo passar.
A inteligência coletiva também se manifesta em parcerias entre espécies. É o que ocorre com a Camponotus femoratus e a Crematogaster levior, que compartilham trilhas e ninhos, se beneficiando mutuamente da defesa e da busca por recursos.
A cooperação ainda fornece base matemática para algoritmos que vasculham e organizam grandes volumes de informação.
Um exemplo vem das operárias da espécie Acromyrmex crassispinus. Elas ajustam o uso do espaço nas trilhas entre o ninho e as fontes de alimento, e compartilham as rotas por meio de contato tátil e feromônios (substâncias químicas que funcionam como sinais de orientação). Isso reduz erros de navegação em bifurcações e evita congestionamentos. As formigas do gênero Pachycondyla, por sua vez, utilizam a chamada corrida em tandem, na qual uma formiga experiente guia outra até a fonte de alimento, transmitindo o caminho de forma precisa às demais.
Em sistemas de logística, algoritmos simulam milhares de formigas explorando diferentes rotas de entrega. À medida que caminhos mais eficientes são encontrados, essas rotas recebem um reforço digital semelhante às trilhas químicas deixadas pelos animais, fazendo com que o sistema convirja para as melhores opções e reduza o tempo de deslocamento e o consumo de combustível. Essa lógica também é usada em modelos algorítmicos que precisam encontrar informações em grandes bancos de dados, evitando rotas redundantes da informação.
Cabe lembrar, porém, que os feromônios e o contato tátil não são os únicos recursos de orientação. Dependendo da espécie e do ambiente em que vivem, as formigas combinam diferentes ferramentas de navegação. Algumas utilizam o padrão formado pelo dossel das árvores ou a luz polarizada do sol para encontrar o caminho de volta ao ninho com precisão. Outras, como a Mayaponera constricta, possuem partículas magnéticas no corpo que permitem perceber o campo magnético da Terra, funcionando como uma espécie de bússola natural. A combinação dessas estratégias garante deslocamentos eficientes mesmo em ambientes complexos e segue inspirando pesquisas em robótica e sistemas autônomos.
Outro campo de contribuição das formigas é a área forense. “Determinadas espécies visitam cadáveres em diferentes estágios de decomposição e o conhecimento sobre esse comportamento pode auxiliar peritos a interpretar evidências e reconstruir circunstâncias relacionadas a investigações criminais”, diz o professor.
A relação estreita com o ambiente também faz das formigas importantes aliadas da ciência. Por responderem rapidamente a alterações ambientais, elas são consideradas bons bioindicadores da qualidade dos ecossistemas.
“Como praticamente todas as espécies dependem da temperatura e da umidade para realizar suas atividades, mudanças climáticas podem modificar profundamente sua distribuição e abundância”, diz Feitosa.
Além de sinalizar transformações ambientais, ainda desempenham funções essenciais para os ecossistemas: dispersam sementes, reciclam nutrientes, controlam populações de outros insetos, modificam a estrutura do solo e servem de alimento para diversos animais.
A ciência sabe também que, há dezenas de milhões de anos, algumas formigas já cultivavam fungos para alimentação. As dos gêneros Atta e Acromyrmex coletam e processam grandes quantidades de material vegetal, mantendo jardins de fungos altamente organizados e protegidos contra patógenos.
A parceria com a natureza ainda se reflete em espécies que incorporam sementes de plantas às paredes de seus ninhos. À medida que as plantas crescem, fornecem sustentação física e recursos para as formigas. Em contrapartida, recebem nutrientes e proteção contra herbívoros, formando uma relação de benefício mútuo.
Por todo esse potencial, o professor reforça a importância da preservação. Segundo ele, regiões mais quentes e secas tendem a favorecer poucas espécies generalistas, enquanto espécies mais especializadas ou restritas a determinados ambientes podem desaparecer localmente, reduzindo a diversidade das comunidades e comprometendo o equilíbrio ecológico.
“Compreender como as formigas respondem às mudanças climáticas pode ajudar a identificar áreas prioritárias para conservação e antecipar os efeitos sobre outros grupos de organismos”, finaliza.
Acesse o livro Brazilian Myrmecology: Exploring the World’s Richest Ant Fauna (em inglês; aberto).
Este texto foi originalmente publicado pela Ciência UFPR, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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