Ciência & Meio Ambiente

Fitomineração: como plantas podem ajudar a extrair metais valiosos

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Fitomineração é uma técnica capaz de extrair metais valiosos do solo utilizando plantas. Também conhecida como agromineração, essa é uma alternativa pautada na biotecnologia, que utiliza uma solução baseada na própria natureza e cria uma alternativa  sustentável à mineração tradicional. 

Apesar da necessidade crescente por minerais críticos e comprovadamente essenciais para a transição energética, é inegável que o processo de mineração tradicional causa uma longa lista de impactos socioambientais negativos. 

Desmatamento, modificação severa da paisagem, poluição da água, do ar e do solo; perda da biodiversidade, além das consequências na saúde e bem-estar da população regional. Estes são só alguns exemplos de consequências da mineração convencional. 

Outro exemplo é o lítio, um dos minerais mais estratégicos do século XXI, utilizado principalmente em baterias de carros elétricos e outros sistemas de armazenamento de energia.

Um artigo publicado na Revista Pesquisa Fapesp, em 2023, mostra que é necessário extrair 100 kg do mineral bruto para produzir 1,6 kg do lítio que será utilizado nas baterias. Além disso, na mineração tradicional, o uso de água para o refino do lítio pode chegar a 90 litros para se obter apenas 100 g do material.

De acordo com a IEA (Agência Internacional de Energia), 50% da produção mundial de lítio está concentrada em regiões com alto estresse hídrico. Essa é uma questão que por si só já justificaria a busca por soluções mais sustentáveis para se obter esse recurso.

Então, será que a fitomineração é uma solução efetiva para essa e outras questões? 

Vamos saber um pouco mais a seguir.

Como surgiu a fitomineração?

Os estudos sobre fitomineração ocorrem desde a década de 1980, sendo desenvolvidos como uma sequência de outra tecnologia plant-based: a fitorremediação

O superpoder das plantas

A fitorremediação ocorre quando plantas são utilizadas para “limpar” ambientes contaminados. A palavra fito deriva do grego e significa planta ou vegetal; Como o próprio nome sugere, as plantas podem absorver, remover, estabilizar ou degradar poluentes, tanto do solo quanto da água.

Um exemplo na Amazônia

Para citar um exemplo, um estudo brasileiro mostrou resultados positivos na remoção de chumbo do solo amazônico utilizando uma espécie de capim (Vetiveria zizanioides). De acordo com a pesquisa, 50% do metal presente no solo foi removido, num período de quatro meses. 

As plantas que são utilizadas nessas biotecnologias são conhecidas como hiperacumuladoras. São espécies vegetais capazes de acumular altas concentrações de metais. Essa é uma habilidade natural das espécies utilizadas.

Mas como funciona, de fato, a fitomineração?

Como funciona a fitomineração?

A fitomineração aproveita a capacidade natural de determinadas plantas para absorver metais do solo. Depois que essas espécies crescem e acumulam esses elementos em seus tecidos, os vegetais são transformados em biomassa, colhidos e processados para recuperar os metais.

Mas para entender exatamente como isso é possível, é preciso conhecer as chamadas plantas hiperacumuladoras.

Plantas hiperacumuladoras: como elas fazem isso?

As plantas hiperacumuladoras não necessariamente pertencem a uma mesma família botânica, mas compartilham uma característica incomum: crescem e se desenvolvem em solos ricos em metais, absorvendo quantidades altíssimas desses elementos. 

Enquanto a maioria das plantas sofre intoxicação ao entrar em contato com concentrações elevadas de metais, as hiperacumuladoras desenvolveram mecanismos biológicos que aumentam sua tolerância enquanto armazenam essas substâncias. Tudo isso sem comprometer seu crescimento.

O processo começa pelas raízes, que absorvem os metais presentes no solo, junto com a água e os nutrientes. Em seguida, esses elementos são transportados para diferentes partes da planta. A partir daí são armazenados em compartimentos celulares específicos, principalmente no caule e nas folhas. Esse “isolamento” faz com que os metais não interfiram nos processos metabólicos essenciais desses vegetais.

Conheça mais sobre o “superpoder” das plantas na matéria: Cientistas descobrem que uma samambaia comum produz terras raras

Por que as plantas acumulam metais?

Os detalhes desse mecanismo ainda são objeto de estudo, mas os pesquisadores acreditam que a capacidade de hiperacumular metais faz parte da evolução das espécies, como uma estratégia de sobrevivência. 

Uma das hipóteses é a de que os altos níveis de metais acumulados nos tecidos vegetais funcionam como uma forma de defesa natural contra predadores e pragas. Isso porque ao acumular grandes quantidades de metais em seus tecidos, as plantas se tornam menos atrativas para os herbívoros. Além disso, esse fator também pode dificultar o desenvolvimento de microrganismos.

Nem toda hiperacumuladora serve para fitomineração

Centenas de espécies hiperacumuladoras já foram identificadas em diferentes partes do mundo. Algumas delas são capazes de acumular níquel, zinco, cobalto, manganês e até elementos considerados críticos para a transição energética.

Apesar disso, apenas uma parcela reúne as características adequadas para a fitomineração: crescimento acelerado, alta produção de biomassa e facilidade de cultivo. 

Um artigo publicado na Environmental Science & Technology, em 2026, mostra que menos de 20 das mais de 500 espécies conhecidas por acumularem níquel, por exemplo, atendem a esses requisitos.

Como os metais são recuperados das plantas?

Na fitomineração, essas espécies são cultivadas em áreas contendo metais de interesse econômico. Após o crescimento da planta, ela será utilizada como biomassa: é colhida e processada para recuperar os elementos acumulados. 

Dependendo do método utilizado, os metais podem ser extraídos diretamente das plantas ou ficar concentrados nas cinzas obtidas após a queima controlada dessa biomassa.

Em alguns casos, a capacidade de armazenamento é tão sofisticada que os metais formam estruturas microscópicas dentro da planta. Um estudo, publicado em 2026 pela Oxford Academic, identificou microcristais de cloreto de tálio nas folhas da Brassica oleracea, uma variedade de couve. A descoberta sugere que algumas plantas podem transformar metais potencialmente tóxicos em estruturas sólidas em escala microscópica, reduzindo os efeitos sobre o vegetal. 

Saiba mais na matéria: Couve, repolho e brócolis viram ferramenta para minerar tálio, metal extremamente valioso

A fitomineração pode substituir a mineração tradicional? 

Para os pesquisadores, apesar de todo o potencial existente na fitomineração, a curto prazo essa técnica se mostra um complemento importante à mineração tradicional.

Essa conclusão se deve ao fato de que a quantidade de metal produzida por hectare ainda é relativamente limitada, quando comparada aos métodos convencionais. Além disso, nem todos os minerais podem ser recuperados com eficiência por meio de plantas hiperacumuladoras.

Por outro lado, estudos apontam que a tecnologia pode desempenhar um papel importante como solução complementar.

Em vez de competir diretamente com a mineração convencional, a fitomineração pode ser aplicada em áreas onde os métodos tradicionais seriam economicamente inviáveis ou ambientalmente problemáticos.

Entre as aplicações mais promissoras, estão a recuperação de metais presentes em solos com baixa concentração, áreas degradadas por atividades mineradoras e até nos resíduos gerados pela própria mineração

Nesses casos, a técnica combina dois benefícios: ajuda a recuperar recursos valiosos enquanto contribui para a reabilitação ambiental dos locais afetados.

Outro ponto importante é o aumento da demanda por minerais críticos, como níquel, cobalto e lítio. A expansão das energias renováveis e dos carros elétricos é a principal responsável por esse crescimento. Nesse contexto, soluções baseadas na natureza podem ajudar a diversificar as fontes desses recursos, ajudando a reduzir parte da pressão gerada por novos projetos de mineração.

O futuro da fitomineração

Embora ainda existam desafios técnicos, econômicos e operacionais a serem superados, a fitomineração representa uma mudança de perspectiva. 

O artigo da Environmental Science & Technology ainda afirma que a agromineração de níquel está finalmente se tornando uma realidade em escala comercial, como resultado de décadas de pesquisas sobre cultivo, colheita e processamento de plantas hiperacumuladoras.

Ao mesmo tempo, pesquisas continuam investigando novas formas de recuperar minerais essenciais para a transição energética, um tema constantemente debatido. 

Em vez de remover grandes volumes de rocha para acessar pequenas quantidades de metal, mudando completamente a paisagem ao redor, a técnica utiliza processos biológicos que se integram aos ecossistemas

Ainda que a fitomineração não substitua a atividade convencional, ela se mostra uma ferramenta importante para tornar a exploração mineral mais sustentável num futuro próximo.

Além disso, a natureza não cansa de surpreender.

Lítio: uma nova fronteira para a fitomineração?

Em outro estudo, publicado em 2025, pesquisadores utilizaram uma espécie de capim (Chloris gayana kunth) para recuperar lítio. A diferença é que esse tipo de capim faz parte das plantas halófitas, que se desenvolvem em solos salinizados. Dessa forma, essas plantas apresentam glândulas capazes de “excretar” sais pelas folhas.

Cultivada em solo contendo lítio, a planta produziu “depósitos salinos” com uma concentração do metal 110 vezes superior à encontrada no solo original.

A proposta é diferente da fitomineração convencional, o que torna tudo ainda mais sustentável. Isso porque em vez de colher e queimar a biomassa, para recuperar o metal, os pesquisadores sugerem a coleta periódica dos sais excretados pela planta. Isso permite que a espécie continue se desenvolvendo e acumule mais metal ao longo do tempo.

Embora essas abordagens ainda estejam em desenvolvimento, os estudos mostram que a fitomineração, cada vez mais, se torna uma ferramenta importante para a exploração mineral, em um cenário de crescente demanda por recursos para a tão necessária transição energética. A técnica comprova, mais uma vez, como a natureza sempre tem uma solução sustentável aguardando para ser descoberta.

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Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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