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Por Jornal da UFV | Nem sempre o que afeta um rio vai embora com a correnteza. Às vezes, as marcas permanecem por mais tempo do que a biodiversidade local consegue suportar. É o caso da Bacia do Rio Doce, uma das mais importantes da região Sudeste do Brasil, cujas águas abastecem mais de 200 municípios entre Minas Gerais e o Espírito Santo. Em 2015, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), provocou o maior desastre ambiental da história do país, devastando severamente os ecossistemas aquáticos e terrestres ao longo de 660 quilômetros. O fluxo de lama reduziu drasticamente o oxigênio da água, sufocando peixes e diminuindo a diversidade de espécies nativas na calha do rio. Desde o acidente, pesquisadores de diversas instituições acompanham a biodiversidade aquática para embasar ações de reparação e conservação.

Um estudo publicado por pesquisadores da UFV mostra que, 10 anos depois, peixes nativos, originais da bacia, apresentam sinais de comprometimento reprodutivo, enquanto espécies não nativas (cuja origem é de outras bacias hidrográficas) encontram condições favoráveis para se reproduzir e se estabelecer no baixo Rio Doce. A redução severa da fauna nativa pode alterar a disponibilidade dos recursos pesqueiros, impactando a biodiversidade e as comunidades humanas que dependem do rio para sua subsistência e economia.

O artigo, publicado na revista internacional Anatomia, Histologia, Embryologia, tem como principais autores a professora do Departamento de Biologia Animal Elisabeth Henschel e o pesquisador em estágio pós-doutoral Lucas Marcon.

Pesquisadores em coleta de dados no Rio Doce

A importância dos dados

Os dados utilizados pelos pesquisadores da UFV foram coletados no âmbito do Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA) da Bacia do Rio Doce. O Programa reúne pesquisadores, técnicos e estudantes de diversas universidades e conta com a participação da UFV desde a sua criação, três anos após a tragédia ambiental. O seu objetivo é acompanhar, em longo prazo, a condição dos ambientes aquáticos atingidos e gerar informações científicas que subsidiem as ações de reparação e conservação. A professora Elisabeth Henschel coordena o tema Ecologia de Peixes do Ambiente Dulcícola do PMBA.

Ela explicou que a pesquisa que gerou o artigo utilizou dados obtidos desde 2018 – três anos após o desastre. Isso porque uma coleta isolada retrata a saúde do rio apenas naquele momento. Já as séries históricas, obtidas ao longo de quase 10 anos, permitem identificar se determinadas mudanças são oscilações naturais ou tendências concretas de alteração, o que reforça a consistência dos resultados. “Uma das maiores forças do Programa é a continuidade. Isso transforma percepções em dados comparáveis para embasar decisões públicas”, disse ela.

Com isso, em vez de focar em apenas uma espécie ou ponto isolado do rio, a equipe avaliou se os peixes amostrados conseguiam se reproduzir normalmente, se espécies nativas e não nativas apresentavam padrões reprodutivos distintos e se havia alterações microscópicas nos órgãos reprodutivos e no sistema nervoso das larvas. Com essa abordagem, a própria comunidade de peixes tornou-se o principal indicador da condição do ecossistema.

Os resultados do estudo mostram que o Rio Doce continua biologicamente ativo e com peixes em reprodução, mas indicam que o ecossistema está longe de retornar à sua condição original. Segundo o pesquisador Lucas Marcon, duas evidências principais acendem um sinal de alerta sobre os peixes:

– Maior atividade reprodutiva de espécies não nativas: espécies introduzidas por ação humana estão se reproduzindo com mais sucesso do que as nativas, tanto na calha principal quanto nos afluentes.

– As anomalias biológicas: foram identificadas alterações microscópicas nos órgãos reprodutivos de várias espécies e malformações no desenvolvimento do sistema nervoso de larvas.

A professora Elisabeth Henschel integra o Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA) da Bacia do Rio Doce

“O mais relevante é que essas alterações ocorreram em diferentes espécies — nativas e não nativas —, sugerindo que não se trata de um problema isolado, mas sim de sinais biológicos de um ecossistema submetido a pressões ambientais persistentes”, ressaltou Elisabeth.

O avanço das espécies não nativas traz consequências diretas para a bacia hidrográfica, como a competição por recursos, a predação de peixes nativos e mudanças profundas na cadeia alimentar. A longo prazo, a proliferação dessas espécies pode levar à redução severa da fauna nativa e alterar a disponibilidade dos recursos pesqueiros, impactando diretamente as comunidades humanas que dependem do Rio Doce para sua subsistência e economia. 

O estudo foi financiado pela Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (Fest/Ufes) como parte do Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA) do Rio Doce.

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Este texto foi originalmente publicado pela Universidade Federal de Viçosa, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.


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