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A partir de fortes críticas ao modo de produção capitalista, a Ecologia Política propõe um outro modelo de desenvolvimento

Ecologia política é o nome dado a um campo científico de análise social e política sobre os problemas ambientais. A ecologia política se baseia na crítica da globalização capitalista, da mercantilização de recursos naturais e da degradação, afetando a integridade dos bens comuns à sociedade. 

O conceito surgiu no século XX, que foi marcado pelos abalos de múltiplas crises de caráter social, político, econômico e ambiental, desde as grandes guerras mundiais e conflitos armados internos até as preocupações quanto à finitude dos recursos naturais para geração de energia, motivadas pela crise do petróleo na década de 1970. 

O processo de acumulação e retroalimentação desses choques caracteriza o que muitos autores chamaram de “crise civilizatória”, que se estende até os dias atuais e contagia não só as esferas de atuação social, mas se manifesta também sobre o conhecimento científico e a racionalidade por trás do modo de produção hegemônico no mundo globalizado.

Neocolonialismo

A Ecologia Política tem como base a crítica do neocolonialismo ou imperialismo, fenômenos que consistem na dominação política e econômica de potências capitalistas sobre a “periferia” global. O neocolonialismo foi uma reestruturação das relações coloniais quinhentistas entre os países europeus e territórios da África e América em que o controle direto das transações mercantis foi substituído por mecanismos de controle indireto sustentados pela forte assimetria de poder político e econômico entre ex-colônia e ex-metrópole. Nos dias atuais, não somente os países europeus ocupam o centro da economia mundial, mas também os Estados Unidos, que se afirmaram como metrópole global às custas da exploração da mão de obra e do endividamento de países latinoamericanos. 

Como ponto de partida, argumenta-se que a lógica colonialista não foi abandonada após a independência dos territórios extorquidos pelas nações europeias, uma vez que a expansão neoliberal ainda ocorre por meio da exploração sistemática de uma parcela importante da população mundial. Isso ocorre porque as grandes potências necessitam de matéria prima para manter o crescimento da produção e atender à demanda de consumo das suas populações, e o fazem pela disseminação de empreendimentos sobre países com estoques de recursos naturais bem conservados.

A expansão do mercado estrangeiro sobre a periferia global (América do Sul, África e Sudeste Asiático) é comumente fomentada pelos governos locais, pois a instalação de indústrias e a introdução de produtos e tecnologias avançadas, exigindo a retirada contínua de recursos da natureza, fazem parte de uma grande promessa desenvolvimentista que tem como premissa o crescimento econômico.

Segundo a Ecologia Política, esse cenário é uma herança do projeto civilizatório europeu baseado na tese antropocêntrica de dominação da natureza, e que se expressa pela configuração de relações territoriais em diferentes escalas de poder. Isto é, o modelo de sistema social difundido no ocidente estaria enraizado numa relação de domesticação total dos atributos ambientais, onde o ser humano ocupa um lugar à parte no sistema natural como detentor da capacidade cognitiva de ordenamento desses elementos no espaço, e interfere nos cursos naturais da vida em vista do progresso científico, econômico e tecnológico. 

A crítica da Ecologia Política recai também sobre o papel da ciência moderna no processo de degradação intensiva da natureza, que haveria deixado de escutá-la e passado a interrogá-la incansavelmente, para desvendar o seu funcionamento e viabilizar a apropriação de  de seus recursos numa relação desigual.

Entretanto, estudiosos da Ecologia Política ressaltam que os benefícios econômicos e danos ambientais provocados pelas atividades produtivas são distribuídos em função da direção dos fluxos do capital e das relações colonialistas. Segundo o professor Carlos Walter Porto-Gonçalves e Danilo Cuin, “não se coloniza quem é igual, daí a necessidade de justificar a expansão do capital inferiorizando previamente o outro, o diferente”. Assim, países com maiores taxas de pobreza (na América Latina e na África) e grupos historicamente negligenciados na estrutura social, sobretudo comunidades negras e indígenas, são os mais prejudicados pelos impactos sobre o metabolismo da biosfera.

O que propõe a Ecologia Política?

Enrique Leff, um dos mais influentes teóricos da Ecologia Política no mundo, estabelece ainda que as mudanças ambientais causadas pela “apropriação social da natureza” apresentam uma dimensão de risco não perceptível no cotidiano, o que eleva a complexidade do problema. Assim, intervenções radicais sobre o modo de produção seriam exigidas para evitar a ultrapassagem de limiares críticos do sistema ecológico. O colapso do sistema ecológico pode provocar extinções em massa, eventos climáticos extremos e exterminar as comunidades mais vulneráveis.

Enrique Leff, teórico da Ecologia Política e autor do livro “Ecologia Política: Da desconstrução do capital à territorialização da vida”. Foto por: Página 22

Nesse contexto, o autor aponta para a importância do confronto da sociedade ocidental com os próprios fundamentos que constituem sua coesão e racionalidade, o que levaria à mobilização coletiva de propostas de desenvolvimento alternativas, baseadas nos princípios de sustentabilidade e justiça socioambiental. Uma das pautas mais defendidas na Ecologia Política é a consideração e a incorporação das demandas e saberes de populações tradicionais na construção de um novo paradigma civilizatório. Tal pressuposto infere que a garantia de seus direitos de existência e reprodução do modo de vida abre caminhos para a desconstrução da lógica mercantilista sobre a natureza, e é capaz de direcionar a racionalidade ambiental rumo à revalorização da vida.

Fontes: Editora Unicamp, Journal of Political Ecology, Scielo, Jstor