Loja
Apoio: Roche

Saiba onde descartar seus resíduos

Verifique o campo
Inserir um CEP válido
Verifique o campo

Guerras e confrontos armados comprometem a capacidade de produção de alimentos, provocam o abandono de áreas cultiváveis e deixam consequências que podem durar anos. Uma análise global publicada em 24 de setembro de 2026 na revista Nature Food identificou uma redução média de 3,01% nas terras agrícolas expostas a conflitos, com perdas mais acentuadas em regiões da África Ocidental, África Oriental e Sudeste Asiático. Os resultados mostram como a violência interfere no uso do solo e amplia os desafios para a segurança alimentar.

O levantamento foi conduzido por pesquisadores do Instituto de Ciências Geográficas e Pesquisa de Recursos Naturais da Academia Chinesa de Ciências, liderados pelos cientistas Li Guangdong, Qi Wei e Wang Zhenbo. A equipe investigou a relação entre conflitos armados, mudanças na cobertura agrícola e potencial de produção de alimentos em 155 países, ao longo de duas décadas.

Perdas agrícolas persistem mesmo após o início dos conflitos

Entre 2000 e 2020, os pesquisadores reuniram mapas anuais de terras agrícolas com resolução espacial de 30 metros e mais de 460 mil registros georreferenciados de conflitos armados. A análise considerou áreas situadas em faixas de até cinco quilômetros dos locais de confronto, permitindo comparar as mudanças no uso do solo em regiões expostas à violência e em áreas semelhantes sem conflitos.

Para separar os efeitos dos confrontos de outras transformações ambientais e socioeconômicas, os cientistas aplicaram métodos estatísticos de diferença em diferenças e pareamento por escore de propensão. A combinação dessas técnicas permitiu estimar a associação entre os conflitos e a redução das áreas cultivadas, levando em conta tendências que também poderiam influenciar a atividade agrícola.

Os resultados revelaram uma distribuição desigual dos riscos. Em 2020, as áreas expostas a conflitos correspondiam a aproximadamente 3% da superfície terrestre mundial, mas concentravam mais de 6% das terras agrícolas do planeta. A proporção indica que os territórios cultiváveis estão particularmente expostos à violência armada.

Embora a área agrícola global tenha aumentado entre 2000 e 2020, as regiões afetadas por confrontos registraram uma pequena retração. Considerando as estimativas do estudo, a exposição a conflitos esteve associada a uma redução média de 3,01% nas terras agrícolas, equivalente a uma perda anual de 14,46 hectares por região analisada.

Uma comparação complementar apontou que as áreas afetadas por conflitos apresentaram perdas agrícolas 23,7% superiores às observadas em regiões semelhantes sem confrontos. Os efeitos também permaneceram evidentes por anos após o início da violência, indicando que os impactos sobre a atividade agrícola podem se prolongar para além dos episódios mais intensos.

A intensidade e a duração dos conflitos influenciaram a dimensão dos prejuízos. Regiões submetidas a confrontos muito frequentes sofreram perdas particularmente severas: no grupo com maior frequência de conflitos, a redução chegou a cerca de um terço das terras cultiváveis. Confrontos prolongados e de alta gravidade também estiveram associados a perdas superiores às verificadas em situações de violência intermitente ou menos intensa.

Em contrapartida, as áreas que passaram a viver um período de paz após os conflitos não apresentaram evidências claras de uma continuidade da redução das terras agrícolas. O resultado sugere que a interrupção da violência pode favorecer a estabilização do uso agrícola do solo, embora a recuperação efetiva das áreas dependa de outros fatores.

Instituições públicas influenciam a capacidade de recuperação

Os efeitos dos conflitos sobre a agricultura também variaram conforme as condições sociais e institucionais de cada país. O estudo identificou perdas mais acentuadas em locais com maiores níveis de deslocamento de refugiados. Uma tendência semelhante foi observada em regiões com maior insegurança alimentar.

Essas relações evidenciam como a violência pode desencadear consequências que ultrapassam a destruição física das áreas de cultivo. O deslocamento de populações, a interrupção das atividades econômicas e as dificuldades para manter serviços públicos podem comprometer a continuidade da produção e a capacidade das comunidades de retomar o trabalho no campo.

Em sentido oposto, países com melhores indicadores de efetividade governamental, qualidade regulatória e respeito ao Estado de Direito apresentaram perdas agrícolas menores. Segundo os pesquisadores, os resultados sugerem que instituições mais eficientes podem contribuir para proteger os sistemas agrícolas diante dos impactos dos conflitos.

Essa capacidade institucional pode favorecer a manutenção de serviços essenciais, a organização de medidas de assistência e a recuperação da infraestrutura necessária ao cultivo. Estradas, sistemas de irrigação, equipamentos, redes de distribuição e acesso a insumos são elementos importantes para que agricultores retomem a produção depois de períodos de instabilidade.

O estudo, porém, não significa que a qualidade institucional, isoladamente, determine os resultados agrícolas. A gravidade dos confrontos, as condições econômicas e as características de cada território também interferem na dimensão das perdas e nas possibilidades de recuperação.

Área perdida poderia alimentar milhões de pessoas

Para dimensionar as consequências sobre a produção de alimentos, a equipe converteu as estimativas de perda de terras cultiváveis em cálculos de produção potencial de culturas agrícolas e de energia alimentar. O levantamento também considerou os ganhos e as perdas de áreas agrícolas relacionados à expansão urbana.

Entre 2000 e 2020, as regiões afetadas por conflitos perderam aproximadamente 249.667 quilômetros quadrados de terras cultiváveis, segundo as estimativas do estudo. A área corresponde a cerca de 96.400 milhas quadradas e representa uma redução expressiva do território disponível para a produção agrícola.

Os pesquisadores calcularam que a energia alimentar que poderia ter sido produzida nessas terras seria suficiente para atender às necessidades energéticas anuais mínimas de aproximadamente 255,54 milhões de pessoas.

Esse número representa uma estimativa do potencial de produção perdido, e não a quantidade de alimentos efetivamente consumida ou o total de pessoas que passaram fome em decorrência dos conflitos. A disponibilidade real de alimentos depende de fatores como comércio internacional, preços, distribuição, infraestrutura e acesso econômico à comida.

Ainda assim, a dimensão estimada das perdas evidencia a relação entre conflitos armados e vulnerabilidade dos sistemas alimentares. Quando terras cultiváveis deixam de produzir, comunidades podem perder fontes de renda, mercados locais ficam sujeitos a interrupções e regiões dependentes da agricultura enfrentam dificuldades adicionais para garantir o abastecimento.

Os resultados reforçam a importância de acompanhar as mudanças nas áreas agrícolas em conjunto com os registros de conflitos. Para os pesquisadores, a resposta a esses impactos precisa integrar ações humanitárias de curto prazo a políticas de recuperação de longo prazo, incluindo a reconstrução da infraestrutura agrícola, o apoio aos agricultores e o fortalecimento das instituições locais.

A recuperação das terras cultiváveis exige, portanto, uma abordagem que considere tanto as condições ambientais quanto as sociais e econômicas. Em regiões afetadas pela guerra, restabelecer a capacidade produtiva pode contribuir para recuperar os meios de subsistência, reduzir a vulnerabilidade alimentar e ampliar as condições para uma reconstrução duradoura.

Referência do estudo: Li, Guangdong et al. Armed conflict accelerates cropland loss and food insecurity worldwide. Nature Food, 2026. DOI: 10.1038/s43016-026-01436-8.


Utilizamos cookies para oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar pelo site você concorda com o uso dos mesmos. Saiba mais