Grande parte das plantações chinesas possui metais pesados, apontam pesquisas

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Pesquisas mostram que uma parte considerável das terras agrícolas chinesas está contaminada por metais tóxicos, principalmente nos cultivos de arroz

Nos últimos anos, a China vem chamando a atenção do mundo pelo seu rápido desenvolvimento econômico e industrial e também pelos problemas decorrentes disso. Especialistas e organizações ambientais reclamam constantemente das políticas ambientais do gigante asiático, como o uso excessivo de pesticidas, inseticidas e fertilizantes químicos na agricultura. Dessa vez, a acusação não é menos grave e aponta mais uma vez para a fragilidade da segurança alimentar no país.  Recentemente, o governo chinês divulgou uma pesquisa que aponta que milhões de hectares de terras agrícolas e mais de 12 milhões de toneladas de grãos estão contaminados por metais tóxicos poluentes, causando um prejuízo para a economia do país de mais de ¥ 20 bilhões (o equivalente a cerca de R$ 655 milhões).

Uma pesquisa realizada pela Universidade Agrícola de Nanjing também expôs esse problema. Os estudiosos recolheram, em 2007, 91 amostras de arroz provenientes de seis lugares distintos do país e encontraram níveis elevados de cádmio em 10% do arroz vendido comercialmente. Em 2008, o mesmo grupo de cientistas repetiu a pesquisa, mas em províncias do sul do país. O resultado foi o seguinte: das 63 amostras de arroz recolhidas dos mercados das províncias de Jiangxi, Hunan e Guangdong, 60% delas continham elevados níveis de cádmio, sugerindo, assim, que o problema é mais sério no sul do que no norte da China.

Problemas do cádmio

O cádmio é um metal pesado, maleável e encontrado em minas de zinco. Ele é muito usado na fabricação de pilhas, ligas, revestimentos, células solares, pigmentos e em reatores nucleares, em que atua como absorvente de nêutrons. Os problemas de saúde decorrentes da exposição ao cádmio, segundo a Occupational Safety and Health Administration (OSHA) - órgão estatal norte-americano que cuida de questões de saúde e segurança no ambiente de trabalho -, vão desde fraqueza, febre, dor de cabeça, calafrios, dores musculares, sudorese e edema pulmonar até câncer de pulmão ou próstata, danos nos rins, osteoporose, anemia e perda do olfato. Especialistas ressaltam que muitas intoxicações por metais pesados tendem a ser crônicas e as evidências clínicas podem levar anos para surgirem.

Outros casos e arroz de cádmio

A má fiscalização da indústria alimentar na China já causou ao governo outros casos embaraçosos relacionados à produção de alimentos.  Para citar alguns exemplos, em 2011, descobriu-se que era adicionada ao leite a substância química melamina (usada na produção de plásticos e em produtos antichama), para elevar o nível de proteína da bebida e mascarar a diluição da mesma em água. No mesmo ano, foram apreendidas 16 toneladas de porco tratado com borato de sódio, para fazer com que a carne de porco parecesse com a de vaca, que é mais cara. Mas o caso do arroz de cádmio, como tem sido chamado o arroz contaminado, tem o agravante de estar relacionado com a poluição do solo, que, segundo especialistas, é mais persistente do que a poluição do ar ou da água. O Japão, por exemplo, ainda continua limpando o seu solo desde o começo da década de 70, época em que, entre outros desastres ambientais, muitos japoneses foram intoxicados por cádmio devido à contaminação das águas do rio Jintsu, que serviam de irrigação para as plantações de arroz. Esse rio, porém, recebia despejos e resíduos das fábricas de mineração e metalurgia de zinco próximas a ele. O mesmo acontece no caso de contaminação por cádmio na China. No sul do país, onde os casos de contaminação são maiores, há uma concentração de minas e indústrias. Com o não tratamento adequado da água utilizada por elas, o líquido contaminado acaba sendo absorvido nos arrozais.

Em 2002, o centro de monitoramento de qualidade de arroz do Ministério da Agricultura da China recolheu algumas amostras de arroz disponíveis no mercado do país. Resultado da amostragem: o problema mais comum foi contaminação de chumbo com 28,4% das amostras, o segundo foi a contaminação por cádmio, com 10,3%.  O mercúrio é outro metal presente em alguns grãos do arroz chinês, o que causa uma doença denominada Minamata, que é uma síndrome neurológica grave e permanente.

Esses casos de contaminação vêm provocando o fechamento de algumas fábricas e causando desemprego nessas províncias. Algumas pessoas começaram a viajar ao norte do país em busca de arroz. Porém, nem todos podem fazer isso. Alguns agricultores chineses, mesmo cientes do perigo do arroz de cádmio, dizem não ter condições de comprar o arroz limpo vendido nos supermercados e por isso, acabam consumindo os grãos contaminados. Outras famílias, por outro lado, desconhecem os perigos do metal pesado, devido a uma lacuna na regulamentação do governo sobre a plantação e à falta de informação sobre os riscos da poluição.


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