Trituradores de lâmpadas fluorescentes: solução ou problema?

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Sistema de reciclagem de lâmpadas fluorescente promete reduzir impactos sobre meio ambiente e saúde humana derivados do descarte dessas lâmpadas. Porém, ele ainda não é a solução para esse problema

Trituradores de lâmpadas fluorescentes

As lâmpadas fluorescentes representam um sério problema ambiental na hora do descarte, principalmente por conta do mercúrio, metal pesado contido em seu interior e que é um potencial contaminante do solo e lençol freático quando descartado sem o devido tratamento sejam em lixões ou mesmo em aterros. Essa substância apresenta alto risco de contaminação aos que com ela entram em contato, o que justifica a classificação das lâmpadas fluorescentes como resíduo perigoso, capaz de causar um grande problema à saúde das pessoas. A fim de amenizar essa questão, empresas que usam grandes quantidades dessas lâmpadas começaram a adotar um sistema que promete reciclá-las a partir da trituração para, em seguida, recuperar o gás mercúrio que fica dentro do bulbo das mesmas. O problema é que essa técnica é insuficiente para recuperar todo o mercúrio presente nas lâmpadas - mesmo depois desse processo, todo o material ainda precisa ser levado para as estações de reciclagem especializadas, para a devida descontaminação, não podendo ser simplesmente descartado. Acompanhe agora a descrição desse sistema e os problemas potenciais que ele é capaz de causar.

O que é?

O triturador de lâmpadas fluorescentes compacto foi desenvolvido nos Estado Unidos e é conhecido mundialmente como Bulb Eater (ou "comedor de lâmpadas") e tem como objetivo moer as lâmpadas, utilizando um sistema de exaustão para a captação do mercúrio. Consiste em um fragmentador sobre um tambor de 200 litros, permitindo a moagem de lâmpadas fluorescentes e de descarga a alta pressão no local em que os objetos a serem descartados se encontram, evitando a necessidade de deslocamento e manuseio do resíduo perigoso. A partir de então, o processo se dá da seguinte maneira:

  1. As lâmpadas são colocadas no fragmentador manualmente, onde são trituradas; o vidro e o alumínio caem no fundo do tambor, dentro de um saco de poliuretano.
  2. A poeira fina de fosfato e o vapor de mercúrio são retidos nos filtros de carvão ativado acoplado ao equipamento.
  3. Um sensor indica quando o tambor está cheio, e bloqueia a entrada de mais lâmpadas. A capacidade do tambor é de 900 lâmpadas tubulares.

Com essa técnica, o produto obtido na moagem teria uma quantidade de mercúrio inferior à encontrada na lâmpada inteira. Outra vantagem seria a inexistência de risco de liberação do vapor de mercúrio no ambiente, quando houvesse a ruptura das lâmpadas, diferentemente do que ocorre quando esses produtos são dispostos em aterros.

Os gases exauridos por este processo passam por um filtro de tecido e por um filtro de carvão ativado (no qual é agregado 15% em peso de enxofre amarelo), antes de serem emitidos na atmosfera. Da combinação do enxofre com o mercúrio, forma-se o sulfeto de mercúrio, composto sólido quimicamente não reativo nem solúvel em água. Para a neutralização desse composto sólido, é necessário que ele seja enterrado em aterro aprovado para disposição de resíduos de produtos químicos e perigosos, com acompanhamento de especialistas do órgão ambiental.

Mas não é bem assim

Estudos desenvolvidos pela Environmental Protection Agency (EPA), dos EUA, com base em pesquisas e estudos rigorosos sobre o assunto, aponta que, embora esta técnica reduza o volume físico das lâmpadas, que geralmente ficam armazenadas até a destinação correta pelas empresas, esse processo não recupera qualquer quantidade de mercúrio.

O uso de dispositivos trituradores compactos de lâmpadas envolve uma série de prós e contras. O manuseio incorreto das lâmpadas é um dos riscos a serem considerados, pois a quebra destas ocasiona a liberação de mercúrio. No que diz respeito ao descarte, não é recomendável descartar as lâmpadas em caçamba de lixo e em aterros sanitários, pois isso pode provocar problemas ambientais futuramente, uma vez que uma parte do mercúrio contido nas lâmpadas é imediatamente liberada no meio ambiente por volatilização; e o mercúrio restante fica disponível para a liberação no meio ambiente, ao longo do tempo, por lixiviação.

A reciclagem das lâmpadas fluorescentes usadas representa uma das melhores maneiras de controlar a liberação de mercúrio no meio ambiente, em oposição à deposição em aterros sanitários ou lixões. A reciclagem pode ser feita tanto em forma de envio dos objetos (adequadamente embalados) a recicladores especializados ou por meio de um dispositivo triturador compacto, que pode ser levado ao local em que as lâmpadas estão armazenadas. A utilização destes dispositivos apresenta apelo óbvio pelos seguintes motivos: redução do volume de lâmpadas, permitindo que vários delas sejam esmagadas; e os custos de armazenamento e transporte contribuem para a redução do custo de reciclagem por unidade.Triturar as lâmpadas antes da expedição também tem a vantagem de o material ser transportado em um recipiente durável e bem fechado, onde se faz improvável a liberação de quantidades significativas de mercúrio durante o transporte - diferentemente do que ocorre no transporte de unidades embaladas sem o processo de esmagamento, em que o risco de quebras durante o transporte e liberação do mercúrio no ar é significativo.

Por outro lado, os dados coletados no decorrer dos estudos indicam que nenhum dos dispositivos trituradores compactos avaliados foi capaz de evitar a liberação de mercúrio no ambiente durante a operação de processamento das lâmpadas, invariavelmente ocasionando, desse modo, novas exposições à substância. Assim, os operadores do equipamento e seus assistentes no manuseio das lâmpadas estão, obviamente, vulneráveis à exposição. Já indiretamente expostos ao metal podem ser considerados aqueles que estejam em circulação na área do edifício em que está instalada a máquina, no momento de uso desta. Uma forma de eliminar este tipo de risco de exposição desnecessária seria manter apartado o sistema de ventilação utilizado no recinto em que o processo está em curso, a exemplo do que deve ocorrer nas instalações dos recicladores especializados.

Os estudos apontam que mesmo os dispositivos mais bem projetados tendem a liberar mercúrio no ambiente, particularmente nos processos de troca de tambores, que geralmente ocorre devido ao atolamento das lâmpadas ou em situações de falhas na qualidade de produção do equipamento. Por outro lado, dispositivos mal projetados tendem a resultar em liberações da substância contaminante em níveis superiores aos tolerados pela legislação.

Deste modo, a ideia de benefício desta máquina é controversa em relação ao que ela realmente se propõe, pois a moagem simples não promove a remoção do mercúrio da lâmpada, apenas racionaliza o processo logístico. No Brasil, a lei 12.305/2010 determina que os resíduos sejam recuperados quando há tecnologia disponível. A correta destinação das lâmpadas implica, portanto, na descontaminação total das mesmas e o devido tratamento do mercúrio. Com isso, conclui-se que os trituradores podem representar uma alternativa inicial para o processo de descontaminação das lâmpadas fluorescentes (mas não de todo eficiente), mas não devem ser considerados alternativa final para o destino delas, pois, como observado, os resíduos de vidro das lâmpadas ainda possuem mercúrio no final do processo e, por esse motivo, quando descartados inapropriadamente em aterros e outros locais, podem causar grandes danos em forma de contaminação. A opção pelo sistema de trituração no local de uso como parte do processo de reciclagem faz sentido enquanto alternativa redutora de custos e preventiva ao transporte de cargas frágeis. Importa reiterar que, de modo algum, ele suprime a necessidade de envio dos rejeitos para descontaminação total do mercúrio, e ainda não exclui a possibilidade de liberações de mercúrio no ambiente.

O mercado de trituradores tem sido cobiçado progressivamente por novos fabricantes, sobretudo chineses, o que tem contribuído para o ingresso de novas linhas de produtos e redução de preços, o que pode se apresentar também como um risco, seja na qualidade dos projetos associadas a tais dispositivos,seja na ilusão de que a simples trituração é a solução para a eliminação do passivo ambiental representado pelas lâmpadas fluorescentes. Para saber mais a respeito, clique aqui ou aqui.


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